'Tá morto?': aplicativo para pessoas que vivem em isolamento social é um dos mais baixados na China

Um aplicativo chinês de nome provocador virou fenômeno nas últimas semanas ao alcançar o primeiro lugar entre os aplicativos pagos na App Store da China continental, fora Hong Kong e Macau. Batizado de "Si Le Me", expressão que pode ser traduzida como "Tá morto?" ou "Você morreu?", o app foi desenvolvido pela empresa Moonscape Technologies e, apesar do nome mórbido, se apresenta como uma ferramenta de segurança voltada a pessoas que vivem sozinhas.

13 jan 2026 - 11h39

A lógica é simples: o usuário precisa se manifestar regularmente no aplicativo. Caso fique dois dias sem dar sinal, o sistema envia, no dia seguinte, um e-mail automático em nome do usuário a um contato de emergência previamente cadastrado, alertando que algo pode ter acontecido.

Foto ilustrativa mostra mulher em Xangai, na China, usando o celular.
Foto ilustrativa mostra mulher em Xangai, na China, usando o celular.
Foto: REUTERS/Aly Song / RFI

O sucesso do aplicativo se insere em um contexto de transformações sociais aceleradas na China. No passado, os chineses costumavam se casar no início da vida adulta, e os idosos, mesmo após o casamento dos filhos, geralmente viviam com a família até o fim da vida.

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Esse modelo mudou de forma significativa. O casamento está em forte declínio, e muitos adultos consideram hoje inviável morar com os pais, sobretudo nas grandes cidades. Essas mudanças levaram a um crescimento do isolamento social, criando um terreno fértil para soluções tecnológicas voltadas à segurança individual.

De acordo com dados oficiais, em 2024, uma em cada cinco residências chinesas era ocupada por apenas uma pessoa, contra 15% dez anos antes — um salto expressivo que ajuda a explicar a popularidade de aplicativos voltados a quem vive sozinho.

Apesar do êxito nas lojas virtuais, o aplicativo gera reações ambíguas, inclusive entre o público jovem, que é seu principal alvo. Yaya Song, de 27 anos, profissional da área de tecnologia que mora sozinha em Pequim, contou que ficou curiosa com a proposta, mas considera o preço elevado para o serviço oferecido. Segundo ela, o aplicativo só valeria a pena se fosse gratuito ou simbólico. Para Yaya, na prática, empregadores acabam percebendo problemas antes da família, por exemplo, quando alguém não aparece para trabalhar.

Ela também critica o nome do app, considerado por ela "violento demais". 

A opinião é compartilhada por Huang Zixuan, estudante de 20 anos, que afirma que jamais conseguiria sugerir o aplicativo aos avós por causa do nome, visto como "sombrio" e de mau agouro, algo culturalmente sensível na China.

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Símbolo da solidão urbana contemporânea

Outros usuários, no entanto, veem valor na proposta. Sasa Wang, funcionária de escritório de 36 anos, afirma que, ao se aproximar dos 40 anos, muitas pessoas passam a pensar mais seriamente no que pode acontecer se algo lhes ocorrer vivendo sozinhas. Para esse público, o aplicativo funciona como uma rede mínima de proteção, ainda que simbólica. Em um contexto de laços sociais mais frágeis, a tecnologia aparece como substituta parcial de antigos mecanismos de cuidado coletivo.

O debate ganhou ainda mais visibilidade quando Hu Xijin, ex-editor-chefe do jornal estatal Global Times e figura conhecida nas redes sociais, sugeriu publicamente que o aplicativo fosse rebatizado como "Huozheme" ("Você está vivo?"), uma expressão considerada menos angustiante, sobretudo para usuários idosos.

A empresa respondeu que está avaliando seriamente a possibilidade de mudar o nome, embora muitos internautas tenham defendido sua manutenção. Para esses, encarar o tema da morte de forma direta seria uma maneira honesta de lidar com uma realidade cada vez mais presente.

Mais do que um simples aplicativo, "Tá morto?" acabou se tornando um símbolo do mal-estar social ligado à solidão urbana, especialmente em grandes centros chineses. O fenômeno reflete uma sociedade em que laços familiares tradicionais enfraqueceram, enquanto soluções digitais tentam preencher lacunas deixadas pela vida moderna.

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A viralização do aplicativo mostra como questões antes tratadas no âmbito familiar ou comunitário estão sendo transferidas para a tecnologia, transformando o medo de morrer sozinho em um novo mercado — e em um debate público sobre envelhecimento, isolamento e segurança pessoal.

Na China urbana contemporânea, aplicativos já organizam namoro, trabalho, transporte, alimentação e até cuidados com idosos. Agora, passam também a gerenciar o risco de morrer sozinho, transformando uma angústia íntima em serviço comercial. Ao viralizar, o aplicativo escancara uma questão central: em um país onde a modernização acelerada reconfigurou famílias, rotinas e expectativas, quem cuida de quem quando os laços se desfazem?

Com AFP

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