Sem acordo no Oriente Médio, maior choque do petróleo da história deve acelerar transição energética

A guerra no Irã desencadeou a pior crise energética já registrada no mundo, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), com efeitos imediatos sobre mercados, abastecimento e preços. Em meio à escalada militar no Oriente Médio e ao fechamento quase total do Estreito de Ormuz, a instabilidade no fornecimento global de energia se aprofunda, enquanto governos e empresas enfrentam um choque que supera, em magnitude, todas as grandes crises energéticas das últimas cinco décadas.

7 abr 2026 - 07h39

Os mercados financeiros reagiram com cautela à escalada da guerra no Irã. Nesta terça-feira (7), os preços do petróleo se estabilizaram após semanas de alta acentuada, enquanto as principais bolsas de valores registraram ganhos, apesar do agravamento das tensões militares no Oriente Médio.

Fumaça sobe após ataques à Zona Petroquímica de Mahshahr, no Condado de Bandar Mahshahr, Província de Khuzistão, Irã, Nesta imagem divulgada em 4 de abril de 2026 e obtida de um vídeo de rede social.
Fumaça sobe após ataques à Zona Petroquímica de Mahshahr, no Condado de Bandar Mahshahr, Província de Khuzistão, Irã, Nesta imagem divulgada em 4 de abril de 2026 e obtida de um vídeo de rede social.
Foto: SOCIAL MEDIA via REUTERS - SOCIAL MEDIA / RFI

Teerã segue resistindo ao ultimato do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enquanto o Exército israelense anunciou uma nova "onda" de ataques em território iraniano. A escalada afeta diretamente infraestruturas energéticas na região do Golfo, enquanto o Estreito de Ormuz permanece no centro das preocupações.

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O Conselho de Segurança da ONU deve votar nesta terça-feira um texto mais brando sobre a situação da via marítima, quase totalmente fechada por Teerã desde o início do conflito. O estreito é uma artéria crucial para o fornecimento global de hidrocarbonetos.

Em entrevista publicada nesta terça-feira no jornal francês Le Figaro, o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, classificou a crise energética atual como a pior já vivida pelo mundo. Segundo ele, a guerra no Oriente Médio provocou uma interrupção no fornecimento de energia sem precedentes, mais grave do que as crises de 1973, 1979 e 2022 somadas.

"Esta guerra está bloqueando uma das artérias da economia global. Não apenas petróleo e gás, mas também fertilizantes, produtos petroquímicos, hélio e muitas outras coisas", afirmou. "Março foi muito difícil, mas abril será muito pior", alertou Birol, ecoando declarações semelhantes feitas na semana passada.

O dirigente da AIE advertiu que, caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado durante todo o mês de abril, a perda de petróleo bruto e de produtos refinados será o dobro da registrada em março. Segundo ele, 75 infraestruturas energéticas foram atacadas e danificadas desde o início do conflito, e mais de um terço delas foi gravemente ou muito gravemente afetado, o que compromete os esforços de restauração.

No curto prazo, segundo Birol, os países terão de usar a energia "da maneira mais prudente possível", apostando na conservação e na melhoria da eficiência energética.

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Crise deve acelerar transição

Apesar do cenário sombrio, o chefe da AIE apontou razões para otimismo no médio e longo prazos. Para ele, a crise deve acelerar uma transformação profunda do sistema energético global. "A arquitetura do sistema energético global mudará", afirmou, ressaltando que a geopolítica da energia será profundamente transformada, ainda que esse processo leve anos e não resolva a crise imediata.

Birol destacou que algumas tecnologias devem avançar mais rapidamente, especialmente as energias renováveis.

"As energias solar e eólica podem ser instaladas muito rapidamente. Haverá uma transição para as energias renováveis em questão de meses", disse. Ele também acredita que a crise deve dar novo impulso à energia nuclear, incluindo os pequenos reatores modulares, além da extensão da vida útil de usinas existentes. Os veículos elétricos, segundo ele, também devem se desenvolver com mais rapidez.

Europa sob pressão

Na Europa, a dependência de combustíveis fósseis importados voltou ao centro do debate. Em uma nota divulgada nesta terça-feira, o Banco Central Europeu (BCE) alertou que essa dependência é uma das principais vulnerabilidades do continente e ameaça a missão da instituição de manter a estabilidade de preços.

"A dependência energética da Europa está complicando cada vez mais a tarefa de manter a estabilidade de preços", escreveu Frank Elderson, membro do Conselho Executivo do BCE, em um post em seu blog. Ele defendeu investimentos em energia limpa e produzida localmente como forma de reduzir essa fragilidade estrutural.

Na França, os impactos já são palpáveis. De acordo com o governo, 18% dos postos de gasolina estão temporariamente sem estoque de ao menos um tipo de combustível. Problemas logísticos após o feriado prolongado da Páscoa explicam a escassez em cerca de um em cada cinco postos. As autoridades, no entanto, insistem que não há falhas de abastecimento e preparam um novo auxílio direcionado para responder ao descontentamento persistente em diversos setores da economia.

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Aviação afetada

O setor aéreo também sente diretamente os efeitos do que líderes do setor descrevem como um novo "choque do petróleo". Em entrevista publicada nesta terça-feira no jornal La Tribune, Pascal de Izaguirre, presidente da Federação Nacional de Aviação Civil Francesa (Fnam) e CEO da Corsair, afirmou que aumentos nos preços das passagens e cancelamentos de voos são "inevitáveis".

"Os aumentos nos preços das passagens estão se tornando generalizados e são inevitáveis", declarou. Segundo ele, o cenário é agravado pelo aumento do preço do querosene, pelo prolongamento do tempo de voo devido a desvios e pela suspensão de rotas para países afetados por restrições de sobrevoo.

De Izaguirre também alertou para o risco de escassez de querosene nas próximas semanas. "Podemos esperar novos aumentos de preços nos próximos meses, caso a situação persista", disse, ressaltando que não será possível fazer ajustes retroativos nas tarifas.

De acordo com a Fnam, o preço de uma tonelada de combustível saltou de US$ 750 antes do conflito para US$ 1.900 no início de abril. Com isso, a participação do combustível nos custos operacionais das companhias aéreas passou de 25% para 45%.

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Os preços do petróleo dispararam desde que os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã desencadearam a guerra, no fim de fevereiro. A reação de Teerã, ao fechar quase completamente o Estreito de Ormuz, reforçou temores sobre o abastecimento global, enquanto as restrições de sobrevoo impostas pela guerra prolongam os tempos de voo e aumentam ainda mais o consumo de combustível pelas companhias aéreas.

Com agências

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