Por que a Moldávia é fundamental para o objetivo de Putin de destruir a Otan?

Nessa pequena nação, Moscou pagou padres ortodoxos, conduziu um esquema de compra de votos e estabeleceu campos de treinamento sobre interferência eleitoral para desestabilizar o governo pró-Ocidente

17 ago 2026 - 07h35
Maia Sandu, presidente da Moldávia
Maia Sandu, presidente da Moldávia
Foto: Divulgação/Presidência da Moldávia / Estadão

Em muitos aspectos, lembrava um acampamento de verão. Havia churrascos e jogos de vôlei de praia. Um spa de bem-estar se chamava "Relaxe e Divirta-se".

Os homens e mulheres que participaram do programa em um complexo turístico em uma região remota da Sérvia também se envolveram em atividades mais sinistras, como aprender a romper cordões policiais e incendiar prédios. Eles vestiram coletes à prova de balas e treinaram com fuzis de assalto.

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Descobriu-se que seus conselheiros eram agentes com ligações ao serviço de inteligência militar da Rússia, conhecido como GRU. Seu objetivo, segundo oficiais de inteligência de três países que descreveram as atividades, era formar um grupo de tropas de choque disciplinadas e treinadas em interferência eleitoral.

O alvo era a pequena Moldávia, um país de cerca de três milhões de habitantes que tem uma importância desproporcional para o presidente Vladimir Putin, da Rússia.

Sergiu Zama, um procurador sênior da Moldávia que há mais de um ano investiga casos relacionados à interferência eleitoral, afirmou que apenas um pequeno grupo de recrutas foi necessário para perturbar a votação. "O objetivo não era identificar mil pessoas para cometer crimes", disse ele. "Bastava acender a faísca."

Atividades de acampamento malévolas

Os russos estabeleceram seu campo de treinamento em um resort no oeste da Sérvia no verão de 2025, meses antes das eleições parlamentares. Os participantes, em sua maioria da Moldávia, receberam US$ 400 para participar de um curso de três a quatro dias, segundo Zama — uma quantia enorme para os padrões moldavos.

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Vídeos do acampamento, que segundo promotores moldavos e o serviço de inteligência do país foram obtidos dos celulares dos participantes, mostram homens vestidos com roupas camufladas e coletes à prova de balas treinando com fuzis de assalto.

O campo na Sérvia era um dos vários estabelecidos por agentes russos. Havia também um campo nos arredores de Moscou, onde mais de 100 jovens moldavos praticavam a "fabricação e o uso de artefatos incendiários e explosivos caseiros", além do manuseio de drones "com acessórios especiais para explosivos ou incêndio criminoso", disseram promotores moldavos em um comunicado. Dois dos oficiais dos serviços de inteligência ocidentais afirmaram que o treinamento era supervisionado pelo GRU.

Iuri Vitneanski, um ativista político moldavo que participou do acampamento em Moscou, negou ter se envolvido em atividades sediciosas. O objetivo, disse ele em entrevista, era criar "relações amistosas e de cooperação" com jovens políticos russos. Ele se recusou a dar mais detalhes.

Ele afirmou desconhecer que o campo era supervisionado pela inteligência russa. As autoridades moldavas reconheceram que nem todos sabiam o verdadeiro propósito do campo.

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Alguns participantes disseram ter se recusado a participar dos treinamentos. Maxim Rosca, que participou do campo de treinamento na Bósnia, testemunhou posteriormente em um tribunal na Moldávia que, quando disse que não participaria, um treinador russo lhe deu um soco no rosto e arrancou um dente.

Em outubro de 2024, três participantes do campo na Bósnia foram presos ao retornarem para a Moldávia. Eles transportavam componentes de drones, incluindo acessórios para lançamento de granadas, disseram os promotores.

Eles também possuíam um manual intitulado "Culinária Russa: O ABC do Terrorismo Caseiro", disseram os promotores.

Dinheiro em troca de votos

Os manifestantes se reuniram sob o sol escaldante. Eles agitavam vassouras e cartazes com slogans antigovernamentais.

O protesto na cidade provincial de Taraclia, em julho de 2025, pareceu espontâneo.

Vitneanski, ativista político moldavo que participou do acampamento em Moscou, estava presente no evento. Em entrevista à televisão local, ele o descreveu como "uma iniciativa dos moradores locais".

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Na verdade, foi organizado a cerca de 1255 quilômetros de distância, em Moscou, por agentes que trabalham para Ilan Shor, um oligarca israelense-moldavo que vive na Rússia.

Dias antes do protesto, os associados de Shor, usando o Telegram, o serviço de mensagens online, entraram em contato com milhares de moldavos, prometendo-lhes pagamentos em dinheiro e instruindo-os a comparecer ao prédio do conselho distrital da cidade com vassouras, como um adereço simbólico para "varrer esse tipo de gente".

"As despesas de viagem e diárias serão reembolsadas", dizia a mensagem.

As mensagens faziam parte de um enorme conjunto de documentos da empresa de serviços financeiros de Shor, sediada em Moscou, que ajuda empresas russas a burlar as sanções ocidentais. Os documentos continham nomes, locais e informações de contato de ativistas recrutados pela operação de Shor e mostram que mais de 150.000 moldavos foram aliciados.

Os documentos também incluíam centenas de páginas de mensagens de bate-papo entre agentes que trabalhavam para Shor, cujo nome de usuário era Travolta.

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Tudo isso configurou uma operação abrangente supervisionada por Shor, destinada a influenciar a política moldava muito além de um único protesto, disseram autoridades de inteligência ocidentais e promotores moldavos. Em troca de dinheiro, os recrutas eram instruídos, por meio das redes sociais, a publicar material na internet e participar de manifestações coreografadas, incitando os moldavos a votar contra Sandu, seu partido e a adesão à União Europeia.

Os registros estavam armazenados em uma pasta na nuvem pertencente a um engenheiro de software que trabalhava para Shor, a qual era publicamente acessível na internet e foi analisada pelo Times. O Times verificou o banco de dados entrando em contato com pessoas cujas informações constavam nele, analisando postagens em redes sociais vinculadas aos dados e rastreando as coordenadas de GPS incluídas no banco de dados até o endereço do desenvolvedor, próximo ao Centro de Inovação Skolkovo, nos arredores de Moscou.

Após o jornal entrar em contato com o desenvolvedor na Rússia, o conteúdo foi retirado do ar.

Documentos adicionais das operações de Shor, vazados na internet, mostraram pagamentos a 38.000 ativistas, totalizando quase US$ 20 milhões, ao longo dos quatro meses de 2024 que antecederam o referendo sobre a adesão à UE. O Times contatou alguns dos ativistas por telefone para confirmar suas identidades; outros são de conhecimento público.

A existência dos documentos vazados e o material neles contido foram noticiados inicialmente pelo Ziarul de Garda (ZDG), o principal veículo de jornalismo investigativo da Moldávia. Os documentos já foram removidos da internet, mas foram fornecidos ao Times por uma pessoa que os baixou antes da remoção.

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Shor era bem conhecido pelas autoridades moldavas. Ele fugiu da Moldávia em 2019, quando foi acusado de fraudar bancos em US$ 1 bilhão. Ele se estabeleceu na Rússia, onde, segundo três oficiais de inteligência ocidentais, responde a Sergei Kiriienko, um membro sênior do governo Putin responsável por países como a Moldávia, que o Kremlin considera estarem em sua esfera de influência. A empresa de Shor foi alvo de sanções impostas pelos Estados Unidos em 2025.

Shor não respondeu às mensagens solicitando comentários.

Utilizando o Telegram, os desenvolvedores de Shor criaram 240 chatbots diferentes para recrutar e coordenar membros, conforme mostra o banco de dados.

Havia um rigoroso processo de seleção para eliminar "infiltrados" e informantes da polícia. Os novos recrutas eram conhecidos como "simpatizantes". Acima deles estavam 35.000 "ativistas" e, no nível mais alto, 1.200 gerentes locais.

A operação cresceu como uma pirâmide: quase 99.000 membros foram cadastrados por alguém que já estava envolvido na operação.

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Os agentes de Shor monitoravam o progresso com planilhas, que mostram recrutas moldavos postando milhares de mensagens nas redes sociais, denunciando o referendo sobre a União Europeia e Sandu. Os recrutas também promoviam Shor, que, falando em russo, prometeu fornecer gás gratuito aos moldavos.

A Rússia quase nunca é mencionada. Mas um anúncio amplamente divulgado alerta que relações mais estreitas com o Ocidente levariam a "uma repetição exata do cenário ucraniano".

"O resultado?" dizia o anúncio. "Guerra. Morte. Lágrimas."

No mês passado, a União Europeia impôs sanções a quatro moldavos associados aos esforços de Shor para minar as eleições parlamentares de 2025. Entre eles, estava Vitneanski, que, segundo a UE, recebe um salário mensal de Shor e esteve envolvido em "tentativas de desestabilizar e derrubar a ordem constitucional". Os documentos obtidos por meio de invasão cibernética mostram que Vitneanski recebeu pagamentos de cerca de US$ 2.300 cada.

Propaganda do púlpito

Padres também foram recrutados para a campanha do Kremlin. Centenas deles viajaram para a Rússia a partir do verão de 2024, visitando locais sagrados e líderes importantes da igreja.

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Antes de voltarem para casa, os padres assinaram contratos para cartões de débito emitidos pelo banco russo Promsvyazbank, que tem ligações com o Ministério da Defesa do país e detém 49% da empresa de serviços financeiros de Shor. No contrato, cuja cópia foi analisada pelo Times, eles se declararam funcionários da Evrazia, uma organização ligada ao Kremlin que, segundo autoridades de inteligência ocidentais, promove políticas pró-Rússia em ex-repúblicas soviéticas. Shor é membro do conselho administrativo da organização.

Em troca de cerca de mil dólares, os padres deveriam incitar seus fiéis a rejeitarem o referendo sobre a permanência da Moldávia na União Europeia, bem como a fazerem campanha contra políticas pró-ocidentais. Centenas de pessoas aceitaram o dinheiro, disseram autoridades moldavas.

Os documentos obtidos por meio de invasão cibernética descreviam um padre, o reverendo Gheorghe Tursulet, como "um informante confiável" e registravam um pagamento de cerca de US$ 1.000. Um alto funcionário moldavo confirmou que ele participou das peregrinações à Rússia.

Outro padre moldavo, o reverendo Pavel Petrov, é afiliado a um grupo de padres pró-Rússia, mas não participou das peregrinações, disse o alto funcionário. Algumas semanas antes da eleição de 2024, ele fez um discurso do púlpito denunciando a União Europeia.

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"Democracia? Que tipo de democracia impõe a vocês toda a sujeira que trouxeram da Europa?", perguntou ele, passando a criticar as escolas com banheiros mistos.

"Nós, o povo, o que queremos? Sodoma e Gomorra? Que Deus nos queime vivos? Ele vai nos queimar", disse ele, segundo um vídeo gravado com celular de seu sermão, que foi posteriormente publicado por um veículo de notícias local, o NordNews, e verificado pelo Times.

O padre Tursulet e o padre Petrov não responderam ao pedido de comentários.

O reverendo Iulian Ra?a, arcipreste da cidade de Orhei, insistiu em entrevista que nem ele nem os padres que supervisiona "realizaram campanha direta ou apoiaram qualquer pessoa nas eleições".

Ainda assim, ele é um opositor declarado do governo de Sandu, que ele acusa de perseguir padres como ele, fiéis à Igreja Ortodoxa Russa. Ele reconheceu ter participado das peregrinações a Moscou e disse que participaria novamente. A política, segundo ele, voltaria a lhe favorecer.

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"Vamos esperar", disse ele. "Eles têm dois anos até as próximas eleições."

Um caminho incerto para o futuro

Os russos quase conseguiram.

No dia das eleições parlamentares, 28 de setembro de 2025, eles reuniram todos os seus esforços.

Operativos treinados na Sérvia se prepararam para causar caos em Chisinau e em outros locais. Eles usavam braçadeiras amarelas e azuis para se distinguirem na multidão, segundo o promotor Zama. Alguns carregavam dispositivos incendiários, afirmou ele.

Hackers russos invadiram a Comissão Eleitoral Central da Moldávia e assumiram o controle de milhares de roteadores pessoais, afirmou um alto funcionário moldavo.

As autoridades moldavas estavam preparadas.

Nas semanas que antecederam a votação, a polícia moldava realizou buscas em centenas de casas, prendendo pessoas que haviam frequentado os acampamentos ou que haviam recebido dinheiro como parte do esquema de Shor.

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Especialistas em cibersegurança da Moldávia, com a ajuda de aliados ocidentais, frustraram os ataques de hackers. Houve protestos, mas não houve violência grave.

Quando a polícia prendeu várias pessoas suspeitas de planejar atos de violência, os detidos alegaram que os dispositivos incendiários em sua posse eram destinados a uma festa de revelação de gênero, disse Zama.

O partido de Sandu venceu com pouco mais de 50% dos votos, em grande parte devido à força da diáspora moldava no exterior.

Para o Kremlin, a vitória dela não representou um fracasso. O governo moldavo teve que gastar uma pequena fortuna e alocar vastos recursos policiais para frustrar a interferência russa. E os aliados do Kremlin usaram as prisões em massa dos oponentes de Sandu para fins de propaganda, apresentando-as como prova de uma repressão autoritária.

Desde então, o Kremlin intensificou seus esforços.

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No início de março, um ataque russo a uma usina hidrelétrica ucraniana perto da fronteira com a Moldávia contaminou o abastecimento de água de uma vasta área da Ucrânia e da Moldávia.

Em seguida, drones russos atingiram uma linha de alta tensão no oeste da Ucrânia, responsável por até 70% da eletricidade da Moldávia, causando apagões. Quando visitamos alguns prédios governamentais, incluindo o complexo presidencial, as luzes estavam frequentemente apagadas para economizar energia e os funcionários percorriam corredores sem janelas com lanternas.

Moscou, disseram autoridades moldavas, está jogando a longo prazo.

"Ganhamos a batalha", disse Mihai Lupascu, diretor da Agência de Cibersegurança da Moldávia. "Mas não ganhamos a guerra."

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