O papa Leão XIV realizará uma visita pastoral à ilha de Lampedusa, sul da Itália, no próximo dia 4 de julho, quando abençoará duas crianças imigrantes que se tornaram símbolos das perigosas travessias do Mediterrâneo: Maria, de quase cinco anos, e Leonardo, de 11.
A cerimônia ocorrerá no monumento Porta d'Europa, uma espécie de memorial às milhares de pessoas que perderam a vida no mar em busca de um futuro melhor, após uma oração do pontífice no cemitério de Cala Pisana, sobre os túmulos daqueles que não conseguiram concluir a viagem.
Maria nasceu em Lampedusa em maio de 2024, poucas horas após a mãe, Rita Liasso, ter desembarcado na ilha. A família, originária da Costa do Marfim, havia partido da Tunísia, onde Rita teve atendimento médico negado durante a pandemia de Covid-19. A pequena recebeu o nome em homenagem à enfermeira Maria Raimondo, que assistiu a mulher marfinense no parto.
Em maio de 2024, Lampedusa concedeu a Maria a cidadania honorária como "reconhecimento à vida, à solidariedade, ao respeito e à tutela dos direitos humanos de todas as crianças".
O prefeito Filippo Mannino definiu a menina como exemplo da "força da vida que irrompe em um cenário de pesadelo, entre o mar e o sofrimento". Rita e a filha vivem hoje em Cassaro, na Sicília.
"Quando eu estava no barco, não sentia dores. Mas quando cheguei em Lampedusa, começaram as contrações. Levaram-me de ambulância até o socorro por helicóptero, mas não conseguimos decolar. Depois fui transferida para um ambulatório e dei à luz.
Maria queria mesmo nascer em Lampedusa", disse Rita.
Já Leonardo chegou à ilha em uma noite de junho de 2016, nos braços da mãe, que morreu durante a travessia. A ilha acolheu o menino órfão e, mais tarde, ele foi adotado por Maria Poderati, vice-diretora do Instituto Gonzaga de Palermo.
"Lampedusa foi a primeira a vê-lo, a primeira a cuidar dele, o rosto concreto da palavra 'humanidade'. Os lampedusanos não fizeram perguntas, eles deram espaço. Eles mostraram a um garoto que havia perdido tudo que ele não era invisível", disse Poderati, que leva Leonardo todos os anos a um cais da ilha para lançar no mar flores amarelas e laranja em homenagem à finada mãe do menino.
Lampedusa já foi visitada pelo papa Francisco em 2013, nos primeiros meses de seu pontificado, ocasião em que ele denunciou a "globalização da indiferença" e a "cultura do descarte", temas que permearam todo o seu período no comando da Igreja Católica, após diversos naufrágios de barcos de migrantes e refugiados no Mediterrâneo.
A ilha fica mais perto do norte da África do que da Península Itálica, o que a tornou uma das principais portas de entrada para deslocados internacionais na Europa. É comum que embarcações precárias e superlotadas partam da Tunísia ou da Líbia com destino a Lampedusa, viagens que muitas vezes acabam no fundo do mar. .