A ex-ministra das Relações Exteriores da Itália, Emma Bonino, morreu aos 78 anos em Roma. Ícone da luta pelos direitos civis, feminista e laica, Bonino teve papel decisivo na legalização do aborto na década de 1970 através de atos de desobediência civil. Ao longo de 50 anos de carreira pública, destacou-se no Parlamento, na União Europeia e na criação do Tribunal Penal Internacional. Reconhecida globalmente por sua coragem política, ela receberá homenagens fúnebres com honras de Estado.
Morreu nesta sexta-feira (11), em Roma, aos 78 anos, a ex-ministra das Relações Exteriores Emma Bonino, uma das figuras mais emblemáticas da política italiana e símbolo da luta pelos direitos civis.
A informação foi confirmada pelo partido de centro +Europa, legenda que ela fundou em 2018. Bonino estava internada desde 7 de setembro no hospital Santo Spirito, na capital da Itália, e havia deixado a UTI na quinta-feira (10), quando foi transferida para uma clínica privada. Seu estado de saúde era descrito como "delicado".
Libertária, laica, feminista e combativa, Bonino atuou por meio século na vida pública italiana e internacional. Nascida em uma família de camponeses em Bra, na província de Cuneo, em 1948, rompeu desde cedo com o destino que lhe era reservado: contrariando o pai, que desejava que ela se tornasse professora escolar, se formou em línguas e literaturas estrangeiras pela Universidade Bocconi, em Milão, com uma tese sobre a autobiografia do ativista americano Malcolm X.
Sua trajetória política começou em 1974, quando ela procurou um consultório gerido pelo libertário Partido Radical em Florença para interromper uma gravidez indesejada, após um médico tê-la diagnosticado com infertilidade.
Ela acabaria unindo-se ao fundador da legenda, Marco Pannella, e ao secretário Gianfranco Spadaccia na campanha pela legalização do aborto. Em 1975, os três foram presos por praticar abortos e se autodenunciar, atos de desobediência civil que abriram caminho para a histórica lei 194, aprovada em 1978 e que até hoje permite a interrupção voluntária da gravidez na Itália.
Em diversas entrevistas, Bonino disse que nunca quis ter filhos porque tornar-se mãe significava "dizer para sempre" e que essa foi a única "coragem" que ela não teve ao longo da vida.
Durante a carreira, ocupou alguns dos cargos mais relevantes da política italiana e europeia: foi vice-presidente do Senado, comissária da União Europeia para Saúde, ministra do Comércio Internacional e das Políticas da UE e ministra das Relações Exteriores Em 1999, candidatou-se abertamente à Presidência da República, feito inédito na história do país, onde o chefe de Estado é escolhido pelo Parlamento.
Bonino também se destacou no cenário global. Foi idealizadora do Tribunal Penal Internacional, delegada da Itália na ONU pela moratória da pena de morte e fundadora da associação "Non c'è pace senza giustizia", que combate a mutilação genital feminina.
Em 2011, foi a única italiana incluída pela revista Newsweek entre as 150 mulheres que "movem o mundo".
Em 2005, no entanto, viu frustrada a chance de se tornar alta comissária da ONU para Refugiados, uma de suas maiores derrotas.
A luta de Bonino pelo direito ao aborto, pela legalização da maconha, pelos direitos dos migrantes, pela dignidade no fim da vida e contra a energia nuclear a consolidou como uma das vozes mais independentes e corajosas da política europeia.
A ex-ministra conviveu por oito anos com um câncer de pulmão, declarando-se curada em 2023. Após a radioterapia, passou a aparecer em público com um turbante, que se tornou marca registrada.
"Emma Bonino representou por décadas uma voz forte da política italiana, levando adiante suas ideias com determinação", disse no X a premiê Giorgia Meloni. "Nossas histórias e sensibilidades eram distantes, mas isso nunca me impediu de reconhecer o peso e o papel dela na vida pública de nossa nação. Minhas condolências vão para sua família e seus entes queridos", acrescentou.
Segundo Meloni, o governo está tomando providências para fazer um funeral com honras de Estado para a ex-ministra.
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