A visita do papa Leão XIV à França mobiliza multidões sob tensões políticas e internas na Igreja. O pontífice cumprirá agenda em Paris, Lourdes e Metz, com expectativa de reunir mais de um milhão de fiéis, incluindo um encontro com vítimas de abusos sexuais do clero. A viagem apostólica ocorre em meio a divergências com o governo sobre leis de assistência ao fim da vida e expõe as divisões ideológicas no catolicismo francês, dividido entre laicidade e alas mais tradicionalistas.
Le Point analisa aprofunda as conexões pessoais, espirituais e históricas de Leão XIV com a França, examinando a viagem sob diferentes perspectivas. A publicação destaca, entre outros aspectos, a ligação do pontífice com figuras e referências espirituais francesas, particularmente sua devoção ao carmelita Laurent de la Résurrection, uma das figuras espirituais que mais influenciaram sua trajetória. Leão XIV visita, em Paris, o antigo convento dos Carmelitas, atualmente integrado ao Instituto Católico de Paris, onde viveu o religioso do século XVII.
A revista também aborda a relação entre a visita e a realidade religiosa francesa, marcada por um processo de secularização, mas também por sinais recentes de renovação, especialmente entre adultos e jovens. A programação da viagem inclui uma grande missa na Praça da Concórdia e na avenida dos Champs-Élysées, para a qual as autoridades esperam cerca de 600 mil pessoas.
Divergências
L'Express, por sua vez, volta seu olhar para os bastidores políticos e diplomáticos e para a complexa relação institucional entre o Vaticano e a República Francesa. A visita ocorre em um contexto de divergências entre a Igreja e o governo francês em questões relacionadas ao fim da vida e à legislação sobre a chamada assistência para morrer. O encontro acontece também a cerca de sete meses da eleição presidencial de 2027. A viagem, oficialmente classificada como uma "viagem apostólica", não terá o formato de uma visita de Estado tradicional.
A publicação também aborda a dimensão logística excepcional do evento. A Igreja da França estima em € 27 milhões o orçamento necessário para organizar os quatro dias de visita, que incluem Paris, Lourdes e Metz. Mais de um milhão de pessoas são esperadas nos diferentes momentos do programa.
Abusos sexuais
Já Le Nouvel Obs concentra sua análise nas divisões ideológicas que atravessam o catolicismo francês, examinando a tensão entre diferentes correntes e suas visões sobre o lugar da religião na sociedade e no espaço público.
A publicação aborda particularmente a oposição entre católicos mais progressistas, que defendem uma relação compatível entre fé e laicidade, e setores tradicionalistas e identitários que buscam uma presença mais forte do catolicismo no espaço público e cultural. Nesse contexto, são analisados também o papel das redes sociais, dos influenciadores e das novas formas de mobilização católica.
A visita de Leão XIV ocorre, assim, em um momento de forte exposição pública da Igreja na França: de um lado, a instituição enfrenta o legado dos abusos sexuais cometidos no seu interior e as questões relacionadas à secularização; de outro, mobiliza centenas de milhares de pessoas em torno da visita do papa. O pontífice deverá inclusive encontrar, em Lourdes, sete vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero.