Uma praia na cidade de Trieste, no norte da Itália, voltou a gerar debate por manter uma divisão considerada única na Europa: um muro de mais de três metros, que se estende da faixa de areia até o mar, separa homens e mulheres.
Construída há mais de um século, a barreira segue em funcionamento no balneário municipal La Lanterna, conhecido como "Pedocìn", e reacendeu discussões sobre tradição, costumes e igualdade, após um casal de turistas de Milão entrar no estabelecimento e permanecer na área destinada aos homens.
A situação foi percebida por uma frequentadora habitual que estava naquela área para ajudar o marido a acompanhar o filho com deficiência, uma das exceções previstas pelas regras do balneário.
Ao explicar aos visitantes que havia uma separação entre os espaços, a mulher teria sido alvo de críticas e ofensas.
Segundo relatos divulgados pela imprensa local, a turista classificou a regra como "medieval", "retrógrada" e "sexista". A discussão aumentou quando um funcionário tentou intervir e teria sido empurrado. O casal deixou o local e pediu o reembolso dos ingressos, no valor total de 2,40 euros.
O episódio ganhou repercussão nas redes sociais e ficou conhecido como o "caso da Idade Média", apesar de quase ninguém se posicionar a favor dos turistas.
As origens de Pedocìn remontam ao período entre 1903 e 1908, quando Trieste ainda fazia parte do Império Austro-Húngaro. De acordo com o historiador e jornalista Zeno Saracino, o balneário foi criado como uma opção de lazer acessível para a população trabalhadora da cidade.
Na época, a separação entre homens e mulheres seguia normas de moralidade pública comuns naquele período e era feita inicialmente por uma cerca de madeira. Com o passar dos anos, a estrutura foi substituída pelo atual muro de alvenaria, que passou a dividir não apenas a areia, mas também uma parte do mar.
Durante o século 20, a maioria das praias separadas por gênero deixou de existir. O Pedocìn, porém, manteve sua configuração.
Em 1959, quando o muro original foi demolido, moradores de Trieste pressionaram pela reconstrução da barreira em outro ponto, ampliando inclusive o espaço destinado às mulheres.
A permanência do muro alimenta um debate entre diferentes visões. Para os críticos, a separação por gênero representa uma prática ultrapassada e incompatível com princípios atuais de igualdade e inclusão. Também surgem questionamentos sobre como o modelo atende pessoas não binárias e outras identidades de gênero.
Já os frequentadores defendem que o sistema funciona como uma escolha voluntária e faz parte da identidade cultural da cidade. Para muitos usuários, a divisão oferece privacidade e tranquilidade, especialmente para mulheres, idosos e famílias.
Algumas frequentadoras afirmam que se sentem mais confortáveis em um ambiente separado, onde podem tomar banho de sol de topless, conversar ou relaxar sem a sensação de exposição. Para esse grupo, o muro não representa uma barreira de discriminação, mas um espaço de proteção e convivência.
O prefeito de Trieste, Roberto Dipiazza, declarou apoio à manutenção da tradição. Em uma publicação nas redes sociais, afirmou que "a história e as peculiaridades de Trieste não estão em discussão", reforçando que Pedocìn faz parte da memória e da identidade local.
A entrada no balneário continua com preço simbólico de 1,20 euro por pessoa. Durante o verão, o espaço recebe grande movimento: somente em junho, são registrados mais de 40 mil acessos.