Os oceanos também registraram temperaturas recordes para um mês de julho. "Não conhecemos um clima como este em nossa vida e talvez nem desde o surgimento da nossa civilização", alertou na semana passada Carlo Buontempo, diretor do C3S.
Em escala global, julho de 2026 empatou com julho de 2024 como o segundo mais quente já registrado, atrás apenas de julho de 2023.
O impacto foi especialmente intenso na Europa Ocidental, uma região que se aquece mais rapidamente que a média global.
A temperatura média de junho e julho chegou a 21,62°C, acima do recorde anterior, registrado em 2022. O resultado reflete a persistência excepcional do calor neste verão, segundo o Copernicus.
Junho foi o mês mais quente já registrado na região. Julho ficou em segundo lugar entre os julhos mais quentes, com temperatura média de 22,48°C - 2,53°C acima da média registrada entre 1991 e 2020. O recorde de julho continua sendo o de 2006, com 22,54°C.
Desde maio, a Europa Ocidental enfrentou quatro episódios de calor extremo, dois deles em julho.
Seca generalizada
As ondas de calor contribuíram para uma seca generalizada na França, na Espanha e em partes da Alemanha e do Reino Unido. A umidade do solo na Europa Ocidental ficou, em julho, muito abaixo dos níveis registrados no mesmo mês de 2022, quando a região também enfrentou uma forte seca.
O cenário mostra como as mudanças climáticas podem intensificar eventos extremos: calor e seca acabam se reforçando mutuamente.
Os efeitos chegaram aos rios. As vazões ficaram excepcionalmente baixas, principalmente no Sena, no Reno e no Danúbio. A situação aumentou a pressão sobre o abastecimento de água, a agricultura, os ecossistemas aquáticos, o transporte fluvial e a produção de energia em vários países.
O calor e a seca também criaram condições favoráveis para uma temporada excepcional de incêndios, tanto pela área destruída quanto pelas emissões de carbono.
Na França, cerca de 42 mil hectares foram destruídos por um grande incêndio na região de Bordeaux. Na Espanha, aproximadamente 44 mil hectares queimaram na província de Ávila.
O problema não ficou restrito à Europa Ocidental. Grande parte da Europa Central e Oriental também registrou condições mais secas do que a média em julho, com temperaturas extremas e incêndios contribuindo para uma redução acentuada das vazões dos rios em várias áreas.
Fora da Europa
Em outras partes do mundo, também houve áreas com condições mais secas do que o normal. O fenômeno atingiu partes do norte do Canadá e do centro dos Estados Unidos, além do Magrebe, de áreas do Chifre da África, da Sibéria, do centro-sul da Ásia e do interior da China.
Na América Central e no norte da América do Sul, temperaturas sem precedentes foram favorecidas pelo El Niño, que começou em junho e deve atingir seu pico no fim do ano.
Do México ao norte do Brasil, passando pela costa do Pacífico e pelo planalto das Guianas, cerca de 110 milhões de pessoas enfrentaram, em julho, o mês mais quente desde o início dos registros disponíveis.
El Salvador, Nicarágua e Honduras, países situados na região conhecida como "Corredor Seco", bateram, os três, seus recordes de temperatura mensal em junho e novamente em julho, aumentando os temores de fome.
Oceanos em níveis recordes
Os oceanos também chamaram a atenção dos pesquisadores do Copernicus. Em julho, a temperatura da superfície dos mares fora das regiões polares atingiu o maior nível já registrado para o mês, marcando o segundo recorde consecutivo.
O aquecimento foi particularmente intenso no Pacífico tropical, onde começam a se formar condições associadas ao fenômeno El Niño. Esse aquecimento anormal das águas do oceano costuma influenciar o clima em diferentes regiões do planeta, aumentando a probabilidade de eventos extremos, como secas, ondas de calor e chuvas intensas.
Segundo Carlo Buontempo, diretor do Serviço Copernicus de Monitoramento das Mudanças Climáticas, o El Niño em desenvolvimento já apresenta sinais de força significativa e pode se intensificar nos próximos meses. Se essa tendência se confirmar, o fenômeno poderá contribuir para que a temperatura média global atinja novos recordes até o fim de 2026 ou no início de 2027.
O diretor do C3S ressalta, no entanto, que o principal motor do aquecimento global continua sendo a emissão de gases de efeito estufa pelas atividades humanas. Na Europa, as águas do Mediterrâneo Ocidental e do Atlântico Nordeste registraram temperaturas excepcionalmente elevadas em julho, associadas a ondas de calor marinhas.
Efeitos do El Niño
As condições de El Niño costumam atingir o pico no fim do ano, quando parte do calor acumulado nos oceanos é transferida para a atmosfera e contribui para elevar a temperatura média do planeta. O episódio anterior do fenômeno ajudou a impulsionar as temperaturas recordes observadas em 2023 e 2024, respectivamente o segundo e o primeiro anos mais quentes já registrados.
Os efeitos do aquecimento também foram sentidos nas regiões polares. No Ártico, a extensão do gelo marinho em julho foi a sexta menor da série histórica. Na Antártida, a cobertura de gelo ficou na quinta posição entre as mais baixas já registradas para o mês, permanecendo abaixo da média na maior parte dos setores oceânicos do continente, à exceção do Mar de Amundsen.