Itália homenageia vítimas do pior acidente de trabalho da Europa em meio a protestos

Tragédia de Marcinelle matou 262 mineiros, incluindo 136 italianos, em 1956

8 ago 2026 - 12h44
(atualizado às 13h11)

A Itália homenageou neste sábado (8) as 262 vítimas da tragédia de Marcinelle, na Bélgica, que matou 136 trabalhadores italianos e é considerada um dos mais graves acidentes de trabalho da história da Europa.

A cerimônia, realizada no complexo do Bois du Cazier, marcou os 70 anos do desastre e foi acompanhada por protestos contra a presença de representantes da direita italiana.

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A delegação italiana foi liderada pelo presidente do Senado, Ignazio La Russa. Ainda pela manhã, manifestantes se concentraram do lado de fora da antiga mina, em uma mobilização marcada por palavras de ordem contra a presença de integrantes do partido Irmãos da Itália (FdI), legenda da primeira-ministra Giorgia Meloni.

Segundo o jornal belga Le Soir, a intervenção policial contra os manifestantes foi intensa. Durante o discurso de La Russa, parte do público protestou e alguns participantes viraram as costas para o palco.

O episódio provocou uma troca de acusações entre representantes políticos e sindicais. Carlo Fidanza, chefe da delegação do FdI no Parlamento Europeu, apontou a responsabilidade para a Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL).

Nas imagens da cerimônia, uma das pessoas que estava de costas usava um lenço com as siglas FGTB-CGIL, referência a uma iniciativa conjunta dos sindicatos belga e italiano realizada no dia anterior, em Charleroi.

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A FGTB, no entanto, afirmou que apenas seus integrantes belgas participaram do gesto. O secretário-geral da CGIL, Maurizio Landini, também negou que os membros do sindicato italiano tenham se virado durante o discurso de La Russa. Segundo ele, a delegação da CGIL estava sentada em outra área do local.

Uma das manifestantes, Martine Vandevenne, explicou à ANSA que o protesto foi motivado pela presença de La Russa na cerimônia.

"Dar a palavra a ideias fascistas por parte de Ignazio La Russa é um insulto à memória das vítimas e dos trabalhadores que lutaram neste local", afirmou.

O prefeito de Charleroi, Thomas Dermine, integrante do Partido Socialista Belga, também criticou a presença da direita italiana. Em seu discurso, acusou de "hipocrisia" aqueles que, segundo ele, defendem os trabalhadores enquanto pregam o fechamento das fronteiras.

Dermine, cujas declarações receberam fortes aplausos do público, destacou ainda que Charleroi é "uma cidade antifascista".

Por sua vez, Meloni usou suas redes sociais para condenar o gesto de virar as costas durante a cerimônia e afirmar que o protesto representou um desrespeito às instituições italianas e à memória das vítimas.

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A premiê italiana classificou como "grave e vergonhoso" o comportamento daqueles que teriam participado da manifestação durante o discurso de La Russa e ressaltou que Marcinelle deveria ser um espaço dedicado à memória, ao respeito e à dignidade do trabalho, e não às divisões políticas.

"Marcinelle não é lugar para divisões políticas. É um lugar de memória, respeito e dignidade do trabalho. Aqueles que optaram por virar as costas hoje desrespeitaram tudo isso", escreveu ela.

Já Landini rebateu as acusações de Fidanza. Em declaração à ANSA, afirmou que a CGIL não participou do gesto de protesto e ironizou a tentativa de responsabilizar a entidade sindical.

"Porque a CGIL, se você não sabe, eu lhe digo, nunca fecha os olhos, especialmente quando se trata de respeitar o nosso presidente da República", afirmou.

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Vincent Pestieau, secretário regional da FGTB em Charleroi, confirmou que a manifestação foi uma forma de protestar contra a presença do FdI, partido que o sindicato considera de extrema direita.

"Todos os camaradas da FGTB deram meia-volta, porque somos contra a presença de partidos fascistas", afirmou Pestieau à ANSA, acrescentando que o protesto não foi dirigido ao presidente italiano, Sergio Mattarella, cuja mensagem foi lida durante a cerimônia, mas à participação de La Russa como representante do governo italiano.

A tragédia de Marcinelle ocorreu em 8 de agosto de 1956, na mina de Bois du Cazier. Um incêndio no interior do local provocou a morte de 262 trabalhadores. Entre as vítimas, 136 eram italianos, muitos deles imigrantes que haviam chegado à Bélgica em busca de trabalho.

Hoje, o episódio é um símbolo do combate às mortes por acidentes de trabalho e às condições precárias de segurança às quais muitos imigrantes eram submetidos após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

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Esta foi a terceira maior tragédia em número de vítimas com imigrantes italianos em minas. As duas primeiras aconteceram nos Estados Unidos: a de Dawson, em 1913, matou 146 mineradores do país europeu, e a de Monongah, em 1907, vitimou entre 350 e mil trabalhadores, sendo a metade da Itália. 

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