Em meio a ataques israelenses contínuos, um cessar‑fogo violado diariamente e milhares de mortos, o presidente libanês, Joseph Aoun, decidiu confrontar publicamente o Hezbollah ao afirmar que negociar diretamente com Israel não é traição. "Traição foi arrastar o país para uma guerra a serviço de interesses estrangeiros", afirmou.
A declaração marca uma inflexão rara na política libanesa recente, ao atribuir responsabilidade direta ao grupo armado pela escalada iniciada em 2 de março, quando o Hezbollah retomou ataques contra Israel no contexto da guerra regional envolvendo o Irã.
Do outro lado, o Hezbollah rejeita qualquer diálogo direto, deslegitima o processo conduzido pelo Estado e afirma que seguirá sua "resistência" armada, enquanto Israel acusa o grupo de minar a trégua e mantém bombardeios no leste e no sul do país. O resultado é um impasse total, no qual nenhuma das partes aceita ceder, e a população paga o custo humano de uma trégua frágil, violada quase diariamente.
Aoun declarou que o objetivo das negociações diretas com Israel é encerrar o conflito, afirmando que seu propósito é alcançar o fim do estado de guerra "nos moldes do acordo de armistício entre o Líbano e Israel assinado em 1949". Em comunicado oficial, Aoun fez questão de acrescentar que não aceitará um acordo "humilhante" com Israel.
Em resposta implícita ao Hezbollah, que se opõe frontalmente a qualquer negociação direta, o presidente afirmou que "aqueles que nos arrastaram para a guerra no Líbano agora exigem explicações pelo fato de termos decidido negociar".
Israel retoma ataques no sul
Enquanto isso, Israel retomou ataques no vale do Bekaa e no sul libanês, apesar de uma trégua ampliada para três semanas sob mediação norte‑americana. Na véspera, ataques israelenses no sul do país deixaram 14 mortos, incluindo duas crianças, no que foi registrado como o dia mais mortífero desde a entrada em vigor do cessar‑fogo entre Israel e o Hezbollah, decretado dez dias antes.
O líder do movimento xiita, Naim Qassem, reafirmou nesta segunda‑feira sua recusa "absoluta" às negociações diretas entre Beirute e Israel. Segundo ele, esse tipo de diálogo representa um "desvio perigoso", capaz de mergulhar o Líbano em um "ciclo de instabilidade".
Em comunicado lido na emissora al‑Manar, ligada ao grupo, Qassem declarou:
"Rejeitamos categoricamente negociar diretamente com Israel."
Ele acrescentou que cabe às autoridades libanesas evitar um "erro perigoso" que levaria o país a uma nova espiral de instabilidade. Para o Hezbollah, essas negociações e seus resultados não dizem respeito ao grupo "nem de perto nem de longe".
Qassem afirmou ainda que o movimento continuará sua resistência armada para "defender o Líbano" e garantiu que não recuará diante das ameaças israelenses.
O primeiro‑ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o Hezbollah passaram a se acusar mutuamente de violar a trégua, cuja prorrogação por três semanas havia sido anunciada na quinta‑feira anterior pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Mesmo sob o cessar‑fogo, o Exército israelense informou que um de seus soldados foi morto em combates no Líbano, evidenciando a fragilidade do acordo e a continuidade dos confrontos no terreno.
Segundo dados oficiais libaneses, mais de 2.500 pessoas foram mortas por operações israelenses desde que o Hezbollah retomou as hostilidades contra Israel em 2 de março. Mesmo após o início da trégua, em 17 de abril, ao menos 36 pessoas morreram em ataques israelenses, demonstrando que o cessar‑fogo não interrompeu de fato a violência.
Com AFP