Ian Bremmer: 'Se Lula não agir rápido na economia, o mercado vai castigá-lo duramente'

Em entrevista à BBC News Brasil, fundador e presidente do grupo Eurasia analisa os desafios do novo mandato de Lula, critica a contestação do resultado por Flávio Bolsonaro e diz que vitória do petista não muda tendência de avanço da direita na América Latina.

27 out 2026 - 05h46
(atualizado às 05h51)
Resumo
Após a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro, o analista Ian Bremmer alertou que o petista enfrentará severa punição do mercado se não adotar rapidez na política econômica e conter promessas fiscais insustentáveis. Para o cientista político, o presidente eleito terá grandes desafios pela frente, como a relação com um Congresso de maioria direitista, a crise de credibilidade no STF e o atraso do país em inteligência artificial, além de expressar preocupação pessoal com a idade avançada de Lula.
Lula teve virada inédita no segundo turno e se reelegeu presidente do Brasil
Lula teve virada inédita no segundo turno e se reelegeu presidente do Brasil
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Um mês antes do primeiro turno, Ian Bremmer conversou com a BBC News Brasil e previa um leve favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dado o peso da máquina do governo.

As pesquisas viraram, Flávio Bolsonaro (PL) chegou ao segundo turno à frente em quase todos os levantamentos — e Lula, mesmo assim, virou o jogo no domingo (25/10) e venceu por 4 milhões de votos.

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Bremmer, fundador e presidente do Eurasia Group, a maior consultoria de risco político do mundo, ficou surpreso. "Mas não chocado", diz. "O Brasil não é para amadores."

Na segunda entrevista à BBC News Brasil, feita horas depois do resultado do segundo turno, o cientista político faz uma avaliação crua do que vem pela frente. Os mercados reagiram mal, e Bremmer acha que a punição será severa se Lula não mudar o tom rapidamente.

O Congresso eleito é de maioria de direita. E o Supremo Tribunal Federal (STF), mergulhado na crise do escândalo do banqueiro Daniel Vorcaro, é um problema que Lula terá de enfrentar de frente — "um dano severo à democracia brasileira" se não o fizer.

Sobre Flávio Bolsonaro, que inicialmente pediu a anulação da eleição antes de recuar, Bremmer não poupa palavras: "É patético. É o oposto de liderança".

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E sobre a expectativa de que a vitória de Lula seja um símbolo global contra a direita, é cético. "Uma eleição não muda uma tendência."

Bremmer também é direto sobre a idade de Lula, que completa 81 anos nesta terça-feira (27/10).

"Eu não acho que um homem de 81 anos deveria estar dirigindo um país tão importante quanto o Brasil."

Confira os principais trechos da entrevista.

Após divulgação do resultado, Flávio Bolsonaro disse que não reconhecia a vitória de Lula e que pediria anulação do segundo turno das eleições
Foto: EPA / BBC News Brasil

BBC News Brasil - O senhor ficou surpreso com o resultado?

Ian Bremmer - Fiquei surpreso, sim. As pesquisas estavam apertando e Lula vinha ganhando terreno, mas o efeito anti-incumbência, no Brasil e na América Latina como um todo, ainda era muito forte. E os candidatos de terceira via que foram eliminados estavam à direita, o que favorecia Flávio.

Para mim, parecia que ia ser mais apertado do que as pessoas esperavam, mas que Bolsonaro ainda levaria. Então fiquei surpreso, mas não chocado. Como se diz, o Brasil não é para amadores. Nunca se deve ter muita confiança quando se entra numa eleição brasileira.

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BBC News Brasil - O que fez a diferença? Lula teve 10 milhões de votos a mais do que no primeiro turno.

Bremmer - Uma coisa grande: os brasileiros da classe trabalhadora ficaram com medo de perder seus benefícios sociais se Flávio entrasse. Ele não é um militar; é um operador político. O mercado o adorava. Queria reduzir impostos para os mais ricos. Falava em responsabilidade fiscal. E os trabalhadores viram no Lula alguém que, mesmo que não amassem, mesmo que achassem corrupto, ainda era um deles.

Foi uma eleição em que a segurança pesou menos do que a economia, do que o custo de vida. E no custo de vida, a direita não tem a mesma vantagem que tem na segurança — na Argentina, sim, mas no México, não, e em muitos outros países, também não.

E tem as redes sociais. Muita gente temia que houvesse influência externa a favor da direita, mas no fim das contas o Lula e a equipe dele foram extraordinariamente eficientes no Instagram e no Facebook. As campanhas digitais ajudaram muito a mobilizar o voto.

BBC News Brasil - Flávio inicialmente contestou o resultado, pediu a anulação. Agora parece estar recuando. Como o senhor lê isso — é 2022 de novo?

Bremmer - É patético. Trump, claro, nunca assume responsabilidade por nada que não dê certo, mas isso não é de um líder. Numa democracia, você liga para o adversário, reconhece a derrota e parabeniza o vencedor, mesmo quando não é do seu lado. Quando se vê líderes que se recusam a fazer isso, como vimos com Jair Bolsonaro quando perdeu para Lula, ou com Trump quando perdeu para Biden, é um comportamento irresponsável. Não é compatível com uma democracia funcional. Eu detestaria ver Flávio seguir esse caminho.

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Aceito que houve irregularidades nesta eleição. Vimos que tanto Lula quanto Bolsonaro, por razões diferentes, pediram a extensão da votação em certas regiões. E vimos uma decisão a favor do pedido de Lula por um ministro do Supremo que já foi advogado pessoal dele. Eu não gosto de ver nada disso. É lamentável e vai alimentar teorias conspiratórias.

Mas sou cientista político e trabalho com análise e fatos. Os fatos são que Lula venceu por 4 milhões de votos. O número de votos afetados pelas mudanças de horário determinadas pela Justiça foi de dezenas de milhares. Não é relevante. Não é uma contestação razoável do resultado. Flávio perdeu. Lula ganhou. Tudo bem. Você vive para lutar outro dia. O mais importante não é quem ganha. O mais importante é que haja uma democracia e todos participem.

No Brasil, onde o voto é obrigatório, as pessoas levam isso a sério. Tinha gente de todo o país passando horas em ônibus, trens e barcos, gravando vídeos mostrando que estavam saindo para votar. É um orgulho cívico. E eu acho um desserviço gravíssimo ao povo brasileiro e à grande democracia brasileira questionar o resultado de uma eleição obviamente livre e justa. É o oposto de liderança.

BBC News Brasil - Trump disse que a eleição "pareceu ter fraude", mas que gosta do Lula. Como o senhor prevê a postura dele em relação ao governo Lula?

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Bremmer - Trump teve reuniões e telefonemas com Lula. Os dois trabalharam para normalizar um pouco a relação, o que ajudou no lado comercial. E Trump não tentou intervir na eleição nas semanas antes do segundo turno. Houve outras eleições em que ele e membros do governo decidiram tomar partido, e nem sempre deu certo.

Acho que houve o reconhecimento de que apoiar Bolsonaro só ajudaria Lula. E, sejamos francos, a eleição brasileira foi sobre política doméstica, não sobre política externa. Política externa é pouco relevante para o eleitorado brasileiro. Então foi não só inteligente, mas boa política, Trump ter ficado de fora.

Agora que Lula está lá, para um mandato inteiro, espero que Trump parta do reconhecimento de que suas políticas externas mais bem-sucedidas foram na América Latina — incluindo com Claudia Sheinbaum no México, que não é exatamente uma criatura da direita, e com quem conseguiu trabalhar de forma eficaz. Acho que vai tentar fazer a mesma coisa com a Presidência de Lula.

BBC News Brasil - Os mercados reagiram muito mal hoje. É um sinal do que vem pela frente ou é apenas a primeira reação?

Bremmer - É um problema real. Os juros subiram. O serviço da dívida vai ficar mais pesado. Lula fez muitas promessas de gasto fiscal para garantir a vitória, e elas não são sustentáveis. Ele vai ter de lidar com um Congresso inclinado significativamente para a direita, que não vai se alinhar com seus esforços de legislar, inclusive na tributação.

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O que ele diz querer fazer é crescer a economia para que a classe trabalhadora não tenha de pagar pelos erros de governos anteriores. Todo mundo diz isso. Ninguém quer aumentar impostos, ninguém quer cortar gastos, todo mundo quer crescer. Mas crescimento geralmente não funciona como estratégia isolada. Precisa funcionar em harmonia com outras estratégias.

E eu acho que o mercado vai castigar o governo Lula duramente se ele não mudar o tom rapidamente. Parte disso, claro, vai depender das nomeações que ele fizer para as pastas econômicas e para a chefia de gabinete nos próximos dias e semanas.

Ian Bremmer afirma que se Lula não agir rápido na economia, "o mercado vai castigá-lo duramente"
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC News Brasil - Lula está sendo visto por muita gente como um símbolo de resistência contra a direita radical no mundo — o primeiro líder de esquerda a vencer na América Latina desde que Trump voltou ao poder. Pedro Sánchez, na Espanha, disse que a Espanha pode fazer o mesmo. Nos Estados Unidos, alguns diziam que "se o Brasil conseguiu, nós conseguimos". Isso se sustenta?

Bremmer - Não acho que estejam dizendo isso na França. Não acho que estejam dizendo isso na Alemanha, onde a tendência é na direção oposta. Até esta semana, todo mundo dizia que todas as eleições na América Latina estavam indo para a direita. Uma eleição não muda uma tendência.

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E Lula vai fazer 81 anos nesta terça (27/10). Vou ser honesto: eu não acho que um homem de 81 anos deveria estar dirigindo um país tão importante quanto o Brasil. É um trabalho desafiador, estressante. Ninguém traria um CEO dessa idade para uma das maiores empresas do mundo, mas estamos elegendo líderes dessa idade.

Eu tampouco era fã de Flávio. Acho que a maioria dos brasileiros estava votando entre o menos ruim dos dois. Estavam decepcionados com o incumbente e decepcionados com Flávio, que é filho de um incumbente que está preso. Os dois não se trataram com respeito. Há muita corrupção. E não dá para se empolgar com Lula sem reconhecer o quanto o Supremo e seus ministros se tornaram ilegítimos — muitos dos quais politicamente alinhados com Lula.

Eu acredito no povo brasileiro e adoro o país, passo muito tempo lá, temos escritórios lá. Mas o sistema político tem muitos problemas agora. Assim como o meu (Estados Unidos). Depois que Trump saiu e Biden entrou (ele tinha 78 anos quando assumiu o cargo), as pessoas ficaram muito empolgadas. E aí vimos que, no último ano do governo Biden, ele não estava nem coerente para governar, e os próprios assessores mentiram por ele. Isso foi um escândalo enorme que trouxe Trump de volta. Então acho que devemos ter cuidado antes de depositar muita esperança em mais um governo Lula. O Brasil estaria muito melhor se tivesse tido dois candidatos inteiramente diferentes desde o início.

BBC News Brasil - O que o senhor acha que é o maior desafio de Lula agora? A economia, o Supremo, a idade? Ou tudo junto?

Bremmer - Não é tudo. Lula fez um trabalho fantástico em reverter o desmatamento. E o Brasil, com a Amazônia, é a parte mais importante da biosfera global. Então fico particularmente satisfeito de ter Lula e não Bolsonaro, que teria sido parte do problema de novo.

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Mas os desafios que você mencionou são todos sérios. E eu acrescentaria a inteligência artificial, na qual os brasileiros estão ficando para trás. O Brasil tem muitos minerais críticos que pode usar como alavanca, porque fazem parte da cadeia de suprimentos. Mas a realidade é que o Brasil não tem muitas dessas empresas, não tem muitos funcionários de governo que entendam de IA, e precisa implantá-la. Vai mudar o mundo. E agora o Brasil não parece estar na fronteira. Isso precisa mudar nos próximos anos, porque o mundo vai mudar e não queremos que os brasileiros fiquem para trás.

BBC News Brasil - O senhor acha que Lula vai enfrentar a crise do Supremo?

Bremmer - Ele tem de enfrentar. Qualquer pessoa que viu as mensagens, as transcrições das conversas sobre o Banco Master — é um comportamento inaceitável para um membro da cúpula do Judiciário brasileiro. E Lula agora tem de assumir responsabilidade direta por isso, já que venceu. Se não enfrentar, será um dano severo à democracia do Brasil. E eu gostaria de acreditar que é algo que ele vai encarar.

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