'Hamnet' e o mistério de 400 anos sobre a esposa (e o filho) de Shakespeare

'Hamnet: A Vida Antes de Hamlet' é a história de Agnes, esposa do dramaturgo inglês, sobre quem se sabe muito pouco até hoje. Filme desbancou 'O Agente Secreto' na categoria Melhor Filme de Drama do Globo de Ouro 2026

12 jan 2026 - 18h11
O filme Hamnet: A Vida Antes de Hamlet imagina como teria sido a vida familiar de William e Agnes Shakespeare e a dolorosa perda de um de seus filhos
O filme Hamnet: A Vida Antes de Hamlet imagina como teria sido a vida familiar de William e Agnes Shakespeare e a dolorosa perda de um de seus filhos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No eloquente romance Hamnet (Ed. Intrínseca, 2021), da escritora Maggie O'Farrell, e no comovente filme baseado no livro, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, a esposa de William Shakespeare (1564-1616), Agnes (c.1556-1623), é especialista em ervas e poções medicinais.

Ela tem a capacidade quase sobrenatural de pressentir o futuro, mas não consegue salvar seu filho pequeno da peste. E a morte da criança leva seu pai a escrever uma das maiores obras da dramaturgia universal: Hamlet.

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Mas não temos como saber se toda esta história é verdadeira.

Tanto no filme — que acaba de ganhar o Globo de Ouro como melhor filme dramático — quanto no romance, a história se baseia na imaginação, em um rico exame do luto, criado a partir dos poucos fatos disponíveis.

O'Farrell também é a autora do roteiro do filme. Não se pode dizer que ela e a diretora, Chloé Zhao, tenham distorcido a história real. Afinal, não existe uma história conhecida, apesar dos historiadores terem dedicado séculos a conhecer melhor a vida de Shakespeare.

Os dados disponíveis sobre a família do dramaturgo são muito poucos e trazem mais perguntas do que respostas.

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Os registros mostram que, em 1582, William Shakespeare, então com 18 anos de idade, se casou com Anne (ou Agnes) Hathaway, de 26. Ela estava grávida da primeira filha do casal, Susanna.

Três anos depois, nasceram seus gêmeos, Judith e Hamnet. Na época, o nome Hamnet era intercambiável com Hamlet.

Em 1596, Hamnet morreu com apenas 11 anos. Ele foi sepultado no dia 11 de agosto e é quase certo que Shakespeare, que estava em viagem com sua companhia de teatro, não conseguiu regressar à sua cidade de Stratford, na Inglaterra, a tempo para o funeral.

Cerca de quatro anos depois, Shakespeare escreveu Hamlet.

É o que se sabe — e cada um pode tirar suas próprias conclusões.

No filme Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, Paul Mescal e Jessie Buckley interpretam os papéis de William e Agnes Shakespeare
Foto: Universal Studios / BBC News Brasil

Ninguém sabe se Shakespeare se sentiu obrigado a se casar com Agnes porque ela estava grávida ou se os dois estavam loucamente apaixonados.

Ninguém sabe como Hamnet morreu, mas a peste fazia muitos estragos naquela época e parece ter sido a causa mais provável da sua morte.

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O fundamental para o livro e para o filme é que ninguém sabe muito sobre Agnes — nem mesmo se ela sabia ler e escrever.

Agora, a ficção outorga a ela uma personalidade forte, interpretada por Jessie Buckley, que também ganhou o Globo de Ouro pela sua atuação. E a mostra em um apaixonado romance com Shakespeare, interpretado por Paul Mescal.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, na verdade, é a história de Agnes.

Mudança de narrativa sobre Anne/Agnes

No fim do seu romance, O'Farrell admite que se sabe pouco sobre Hamnet e seus pais.

Mas ela sustenta sua história com uma pesquisa minuciosa sobre o final do século 16 e a situa dentro desse contexto histórico.

A autora contou à BBC quais foram suas impressões, enquanto investigava aquele período.

"Eu me distraí um pouco ao ver como a história e o setor acadêmico haviam maltratado a esposa de Shakespeare, que nos ensinaram a chamar de Anne Hathaway", destaca ela.

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"Na verdade, só nos foi oferecida uma única narrativa sobre ela. E os biógrafos, em sua maioria, simplesmente a aceitaram, de que ela era uma camponesa analfabeta, que armou uma cilada para se casar com ele e que ele a odiava e fugiu para Londres, para se afastar dela."

Os historiadores não sabem ao certo nem mesmo o nome da esposa de Shakespeare.

Seu pai, um fazendeiro próspero, deixou a ela um dote em testamento, chamando-a de Agnes. E O'Farrell decidiu dar este nome à sua personagem.

"Se alguém conhecia seu nome, era seu pai", pensou ela. "Achei realmente emblemático que, além de tudo o mais, não sabemos direito nem mesmo como ela se chamava."

O argumento de O'Farrell sobre a vilanização da esposa de Shakespeare é sólido.

A professora de inglês Jo Eldridge Carney, especialista nas obras de Shakespeare, da Faculdade de Nova Jersey, nos Estados Unidos, é a autora do estudo Women Talk Back to Shakespeare: Contemporary Adaptations and Appropriations ("As mulheres respondem a Shakespeare: adaptações e apropriações contemporâneas").

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Para ela, "este retrato de O'Farrell é um repúdio deliberado a séculos de suposições infundadas sobre Anne, seja como uma santa paciente, mas entediada, que mantinha aceso o fogo do lar em Stratford, ou como uma bruxa promíscua, que atraiu Shakespeare para um casamento infeliz."

Este desenho de 1708 é a única imagem de Anne, ou Agnes Hathaway, que chegou aos nossos dias
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas averiguar seu nome real é ainda mais difícil.

"Ela aparece como Anne em quase todos os registros e como Agnes em apenas um: o testamento do seu pai", afirma o professor emérito de inglês David Scott Kastan, renomado especialista em Shakespeare da Universidade Yale, nos Estados Unidos.

Para ele, é possível "que ela tenha nascido Agnes, mas que a chamassem de Anne".

"Gosto da forma em que o romance aproveita esta oportunidade para dar a ela sua própria identidade, à margem de um casamento do qual sabemos muito pouco e que sempre observamos através do prisma de Shakespeare", destaca Kastan.

Mulher moderna

Para criar a personalidade especial de Agnes, O'Farrell a reconstruiu a partir das obras de Shakespeare.

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"O que fiz foi voltar às obras e lê-las de forma diferente, para ver se conseguia encontrá-la", relata a escritora, "pois sempre senti que posso ver Hamnet em Hamlet. E imaginava que ela devia estar ali."

Uma das inspirações para a intuição de Agnes provém dessas releituras.

"Existem muitas visões ocultas nas obras", explica O'Farrell. "Pense no oráculo de Júlio César, por exemplo."

O conhecimento de ervas e poções da Agnes da ficção também tem seu equivalente nas obras de Shakespeare, especialmente no monólogo de Ofélia em Hamlet. Ela parece estar ficando louca e entrega flores e plantas para outros personagens, com versos como "alecrim, isso é para lembrança".

"Li que cada lar tinha, naquela época, um jardim de plantas medicinais", conta O'Farrell.

"E teria sido responsabilidade da mulher da casa, a matriarca, saber como preparar remédios e tratar enfermidades. Não teria sido algo que os homens conhecessem."

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No monólogo de Ofélia, O'Farrell afirma ter conseguido imaginar Shakespeare recorrendo aos conhecimentos da esposa.

Observá-la como companheira em verdadeiro pé de igualdade talvez represente uma certa idealização, uma espécie de Anne/Agnes do século 21.

A Agnes de Buckley é o tipo de esposa que desejaríamos para Shakespeare — uma mulher extraordinária à sua maneira. Ela é tão incomum que corre o boato de que ela seria "filha de uma bruxa do bosque", como adverte a mãe de Shakespeare ao seu filho no filme.

Agnes é inteligente, tem convicções firmes e é suficientemente compreensiva para entender que seu marido deve perseguir sua vocação artística em Londres.

Ela é uma mulher por quem um gênio poderia ter se apaixonado e compreendemos por que o Shakespeare da tela grande se sente atraído por ela desde o princípio.

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Muitos aspectos da vida familiar de William Shakespeare ainda são um mistério
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas esta concepção de Anne/Agnes não é necessariamente uma mera idealização.

Para Carney, "pode parecer tentador observar a Anne de O'Farrell como uma simples tentativa de transformá-la em uma feminista moderna, uma figura mais de acordo com nossas próprias sensibilidades".

"Mas este retrato, de fato, está alinhado com o que sabemos sobre a vida de muitas mulheres daquela época."

"Sabemos que muitas mulheres dirigiram com sucesso o que hoje chamaríamos de 'pequenas empresas', dedicadas à fabricação de cerveja, à fitoterapia, à produção de malte, ao comércio, aos tecidos e muito mais", destaca ela. "O grau de alfabetização necessário para estas atividades já é mais difícil de avaliar."

Ainda não sabemos se a esposa de Shakespeare sabia ler. A Agnes do filme é alfabetizada, mas a própria O'Farrell acredita que a equivalente real da sua personagem provavelmente era analfabeta.

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"Devem ter pensado que não fazia sentido ensinar a filha de um criador de ovelhas a ler", segundo a autora.

A conexão Hamlet-Hamnet

O casamento imaginado pelo livro e pelo filme se torna mais distante quando Shakespeare passa a deixar sua família em Stratford por longos períodos, enquanto trabalha no teatro em Londres. Estas ausências são historicamente bem conhecidas.

Mas, em relação à morte de Hamnet e suas dolorosas consequências, tudo o que há são especulações.

Da mesma forma que o especialista em Shakespeare Stephen Greenblatt, no seu influente ensaio de 2004 The Death of Hamnet and the Making of Hamlet ("A morte de Hamnet e a criação de Hamlet", em tradução livre), O'Farrell também observa um vínculo direto entre a morte do filho e a peça, além do nome de Hamnet.

No filme, quando Agnes viaja para Londres para ver a obra por si mesma (outro toque de ficção), observamos, junto com ela, que o ator que interpreta Hamlet aparece com vestimentas e cor de cabelo que o tornam parecido com Hamnet.

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No domingo (11/1), Jessie Buckley ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz de filme dramático por seu papel em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Foto: Kevork Djansezian/CBS via Getty Images / BBC News Brasil

Em uma brilhante escolha de elenco, o ator Jacobi Jupe interpreta o menino Hamnet e seu irmão, Noah Jupe, vive o Hamlet do teatro. A semelhança física entre ambos não deixa margem a confusão.

Nesta interpretação, a obra não é apenas uma forma encontrada por Shakespeare para expressar seu luto. Ao interpretar o papel do fantasma do pai de Hamlet, Shakespeare consegue se despedir do filho no palco, como nunca pôde fazer na vida real.

"Tem que ter havido algum efeito, simplesmente não sabemos qual foi", comenta Kastan.

"Parece tentador, talvez irresistível, relacionar a morte do filho com a obra Hamlet. A morte de Hamnet/Hamlet deve ter representado uma perda devastadora para Shakespeare e sua família."

"Esta poderia ter sido a razão, ao menos em parte, por que, poucos anos depois da morte do filho, Shakespeare recorreu a uma obra antiga [possivelmente do dramaturgo inglês Tomas Kyd, 1558-1594], sobre um filho chamado Hamlet e um fantasma que clama por 'vingança', para escrever seu próprio Hamlet, no qual ele próprio apareceria em cena."

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"Especulou-se por muito tempo que Shakespeare teria interpretado o fantasma na sua obra, invertendo o papel dos vivos e dos mortos", segundo Kastan. Mas existem muitas outras influências na obra, tanto literárias quanto culturais.

"As conexões entre os fatos vividos e a arte de Shakespeare são apenas especulações, por mais intrigantes que possam parecer", alerta o professor.

Hamlet pode ter servido para que Shakespeare expressasse seu luto pelo filho morto
Foto: Denis Sinyakova/Getty Images / BBC News Brasil

O fato é não chegou até nós a menor prova sobre o que Shakespeare pensava ou sentia sobre sua esposa e sua família.

Mas um novo estudo sobre o fragmento de uma carta de remetente desconhecido poderá (ou não) esclarecer um pouco mais sobre o casamento dos Shakespeare.

O professor de inglês Matthew Steggle, da Universidade de Bristol, no Reino Unido, sugere que uma carta dirigida à "Sra. Shakespeare", em Londres, estava destinada a Anne. Isso significaria que ela teria morado na capital inglesa com seu marido entre 1600 e 1610 e que ela saberia ler e escrever.

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O próprio Steggle afirma que sua pesquisa simplesmente "abre as portas" para esta perspectiva e que se trata de "uma possibilidade que parece difícil de se ignorar, mais do que uma certeza".

De qualquer forma, é provável que este filme altere mais a percepção do público sobre a esposa de Shakespeare do que qualquer estudo acadêmico, consolidando-a como Agnes.

"Seria muito agradável se fosse verdade", segundo O'Farrell. Mas "talvez seja algo passageiro".

"Talvez, da mesma forma que com essa carta, apareça outro registro e todos nós precisemos mudar de opinião outra vez."

O'Farrell conclui com as duas palavras que definem grande parte do nosso conhecimento sobre o casal Shakespeare e seu filho: "Quem sabe?"

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet estreia em 15 de janeiro nos cinemas brasileiros.

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Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.

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