'Negação de gravidez': caso de 5 bebês mortos na França chama a atenção para transtorno

Uma história macabra descoberta nesta semana na cidade de Orange, no sul da França, abala o país. Os restos mortais de cinco recém-nascidos foram encontrados no apartamento de um casal de 32 anos, pais de duas crianças. Jornais franceses retomam o caso nesta quinta-feira (30) ao relatar o choque dos vizinhos e discutir o fenômeno psiquiátrico da "negação da gravidez".

30 jul 2026 - 13h19

Segundo a emissora Franceinfo, o casal está sob custódia policial desde quarta-feira (29), enquanto investigadores tentam esclarecer as circunstâncias da morte dos bebês.

Esta fotografia mostra a porta do apartamento do casal em Orange, no sul da França, em 28 de julho de 2026, após a descoberta dos corpos de cinco bebês falecidos. A polícia francesa descobriu os restos mortais de recém-nascidos depois que a mulher deu à luz um bebê saudável em 27 de julho de 2026.
Esta fotografia mostra a porta do apartamento do casal em Orange, no sul da França, em 28 de julho de 2026, após a descoberta dos corpos de cinco bebês falecidos. A polícia francesa descobriu os restos mortais de recém-nascidos depois que a mulher deu à luz um bebê saudável em 27 de julho de 2026.
Foto: AFP - THIBAUD MORITZ / RFI

A descoberta ocorreu depois que a mulher foi levada ao hospital após dar à luz em casa. O companheiro, intrigado com uma gravidez que afirma ter descoberto apenas tardiamente, encontrou caixas contendo o que pareciam ser restos humanos e alertou as autoridades. Desde então, foi aberta uma investigação por homicídio de menores de 15 anos.

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O jornal Libération relata nesta quinta-feira (30) a perplexidade dos moradores do bairro, próximo ao famoso teatro romano de Orange. Vizinhos descrevem a família como "discreta", "normal" e "sorridente". Muitos dizem não conseguir acreditar no que aconteceu, afirmando não terem percebido qualquer sinal de gravidez ou de problemas familiares. O diário destaca que o pai declarou aos investigadores não ter conhecimento das sucessivas gestações da companheira.

O jornal católico La Croix defende cautela diante de um caso que ainda está sob investigação e alerta contra julgamentos precipitados. O texto lembra que a tragédia expõe uma realidade clínica pouco compreendida pela sociedade e até por parte da comunidade médica, levantando questões sobre saúde mental, acompanhamento psicológico e prevenção.

Transtorno psicológico

O fenômeno do déni de grossesse, ou "negação de gravidez", é uma hipótese considerada pelos investigadores. Citando o ginecologista e obstetra Israël Nisand, especialista no tema, La Croix explica que se trata de um transtorno psicológico que leva algumas mulheres a não terem consciência da gravidez até fases avançadas ou mesmo até o momento do parto. Segundo o médico, esse fenômeno ocorreria em cerca de uma a cada 300 ou 400 gestações, embora os casos de negação total até o nascimento representem menos de 1% dessas situações.

O especialista afirma que o corpo pode apresentar poucos sinais visíveis de gravidez. Nisand descreve casos de mulheres que chegaram ao nono mês sem que familiares ou amigos percebessem a gestação. O especialista associa esse mecanismo a traumas profundos, especialmente violências sexuais sofridas na infância, embora ressalte que as causas sejam múltiplas.

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La Croix também adverte para um ponto importante: a negação da gravidez não deve ser automaticamente confundida com infanticídio. Segundo a pedopsiquiatra Myriam Szejer, existe uma diferença entre mulheres em situação de negação da gestação e aquelas que cometem crimes contra recém-nascidos, ainda que os dois fenômenos possam ocasionalmente coexistir.

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