Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI na Espanha
Ao entrar na sala de exposições da fundação madrilenha Ortega-Marañón, onde está em cartaz a mostra "Niemeyer Legado", é fácil perceber que tudo ali indica movimento. As obras fotográficas expostas unem arquitetura e balé, como se os edifícios fossem linhas de uma partitura e os corpos dos bailarinos as notas que dão vida à música. É assim que o fotógrafo Juan Carlos Vega interpreta a interação entre dança e cidade, retratada de diferentes formas na exposição.
A disposição dos quadros é única em cada uma das seções. As instalações de videoarte mostram, em movimento, o olhar de Vega sobre a produção de Oscar Niemeyer. As mesas centrais têm formato de "S", dialogando diretamente com a geometria refletida em todo o salão. Elas reúnem revistas, fotografias e textos que contam como a história do fotógrafo e a obra do arquiteto se encontram.
A obra de Niemeyer
A proposta da exposição é apresentar o legado de Niemeyer como um processo aberto, em permanente construção, à medida que é redescoberto e ressignificado. É a partir dessa base que Juan Carlos Vega interpreta os projetos do carioca, considerado um dos maiores nomes da arquitetura mundial e primeiro arquiteto vivo a ver uma de suas obras se converter em Patrimônio Mundial da Humanidade, com o reconhecimento de Brasília pela Unesco, em 1987.
Depois, também receberam a honraria o conjunto arquitetônico da Pampulha - que fica em Belo Horizonte e foi inscrito em 2016 - e a Feira Internacional de Rachid Karami, em Trípoli, no Líbano. Esta última passou a fazer parte da lista da Unesco em 2023.
As imagens reunidas em "Niemeyer Legado" retratam espaços como a Igreja de São Francisco, em Belo Horizonte; o Congresso Nacional, em Brasília; o Memorial da América Latina, em São Paulo; o Memorial Teotônio Vilela, em Maceió, e o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Nas fotos, os ângulos e curvas projetados por Niemeyer se fundem com as formas desenhadas pelo corpo de baile, disposto sempre em interação com a paisagem arquitetônica.
Brasília, única no mundo
Enquanto cada um dos recantos brasileiros visitados para dar origem à mostra recebe o seu devido destaque na exposição, a capital federal ocupa lugar privilegiado na vida do espanhol Juan Carlos Vega. Faz cinco anos, completados neste mês de janeiro, que Vega conheceu Brasília. A primeira impressão foi a de encarar algo único.
"Em Brasília aconteceu algo especial comigo. Há algo que não há em nenhuma parte do mundo. É que os edifícios estão sozinhos. Não estão colados uns aos outros, têm muito espaço. E isso faz com que você tenha um enquadramento, uma visão diferente de outras cidades", comenta o fotógrafo.
Desde a primeira aterrissagem, Vega já esteve na capital brasileira dez vezes. Essas visitas, registradas em imagens, se somaram a trabalhos feitos em outras cidades e deram origem a diversas exposições. Em 2022, o espanhol inaugurou a mostra "Niemeyer - Dança por Vega" - que passou pelo Instituto Cervantes de Brasília; pela Casa de Chá, na Praça dos Três Poderes, e pela Casa Thomas Jefferson.
Em 2024, realizou o projeto "Niemeyer - Utopia do movimento, legado internacional", com exibição dupla no Senado Federal do Brasil e no Instituto Cervantes de Brasília. Já em 2025, apresentou a exposição "Brasília 65, Visões em um Sonho Geométrico", na Fundação Pons, em Madri.
Hoje, cinco anos depois do primeiro encontro com a capital brasileira, a cidade segue inspirando novos passos, olhares e enfoques. "Sempre que vou a Brasília, algo novo me inspira. É incrível. O relevo [presente na impressão de algumas fotos] foi um trabalho [feito] aqui, mas era com uma fotografia de Brasília. E tudo o que vou investigando e vou fazendo... Muito vem de quando vou a Brasília e tenho a inspiração", reflete Vega.
Formatos e acessibilidade
Como o fotógrafo explica, a inspiração que a cidade traz não afeta apenas o momento do clique: ela o leva a querer transformar os resultados de suas obras, brincar com formatos, cores, modelos e desconstruções. Tudo isso também se reflete na exposição "Niemeyer Legado", onde as fotografias ganham aspectos multidimensionais. Relevos e recortes adicionam ainda mais movimento às criações.
Há quadros adaptados ao toque que, além de vistos, podem ser sentidos. O formato permite que pessoas cegas tenham contato com as fotografias feitas por Vega. A primeira foto confeccionada dessa maneira foi dedicada e entregue pelo autor à Infanta Margarita, tia do Rei Felipe VI, que tem deficiência visual.
Legado Internacional
Além das criações de Niemeyer em solo brasileiro, é possível apreciar, na exposição, parte do legado internacional do arquiteto. Estão representados o Palácio Mondadori, em Milão, e o Centro Niemeyer, em Avilés - uma cidade pertencente ao Principado de Astúrias, região onde Juan Carlos Vega nasceu. As fotografias feitas na Itália e na Espanha são de 2024 e, segundo Vega, abriram portas para que ele explorasse o trabalho de Niemeyer em mais cidades, como Niterói, São Paulo e Belo Horizonte - clicadas em 2025.
E a busca por explorar novos ângulos da obra de Niemeyer não está finalizada. O fotógrafo diz que está se tornando especialista no arquiteto brasileiro e mantém uma lista de outras cidades, dentro e fora do Brasil, que pretende agregar a essa jornada de ressignificação de seu legado.
Descobrir-se artista
A exposição "Niemeyer Legado" inaugura oportunidades. Por um lado, permite que o público que está em Madri se encante pelo Brasil e, potencialmente, visite o país para conhecer sua "cultura maravilhosa", como define Vega. Por outro lado, o trabalho é uma celebração dos 25 anos de carreira do fotógrafo que, a partir desse projeto, tem solidificado conceitos internos sobre sua arte e sobre si mesmo.
"Demorei muito tempo para dizer que eu era fotógrafo, porque me parecia uma palavra muito importante de dizer. Como para mim é muito importante dizer a palavra 'artista'. Então, poder dizê-la é como se realizar, não? Eu acredito que esse projeto também me deu isso. O avançar em mais um ponto. Não só profissionalmente, mas também internamente e emocionalmente", conclui, comovido.
A exposição "Niemeyer Legado" está em cartaz na Fundação Ortega-Marañón até o dia 30 de janeiro. A visita é gratuita, de segunda a sexta-feira, de 10h às 20h30.