Emeline Vin, correspondente da RFI em Londres, com agências
Jimmy Lai foi condenado por um crime de sedição e dois crimes de conluio com forças estrangeiras. Estes últimos delitos se baseiam na Lei de Segurança Nacional imposta por Pequim após os grandes protestos pró-democracia, que abalaram Hong Kong em 2019.
"Não há dúvida de que [Jimmy Lai] alimentou o ressentimento e ódio contra a República Popular da China (RPC) durante grande parte de sua vida, e isso aparece em suas matérias", declarou a juíza Esther Toh durante a audiência. Ela acrescentou que "também está claro que o acusado, muito antes da adoção da Lei de Segurança Nacional, já pensava em como os Estados Unidos poderiam pressionar a RPC".
Jimmy Lai ouviu o veredito em silêncio e impassível. Ele poderá recorrer da sentença, assim que as penas forem anunciadas.
O diretor emérito do Centro Nacional de Pesquisas da França, Jean-Philippe Bejà, especialista em estudos sobre Hong Kong, avalia que "não havia nenhuma dúvida de que Jimmy Lai seria condenado", e denuncia uma "farsa". O processo durou mais de dois anos e meio para, segundo o pesquisador francês, "mostrar a independência do sistema judiciário do território, mas esse não é o caso".
O julgamento aconteceu sem jurado e todos os juízes foram nomeados diretamente pelo Executivo de Hong Kong, lembra Bejà. O verdadeiro objetivo desse processo foi "mostrar que a imprensa livre era instrumentalizada pelas forças estrangeiras para atingir o governo e criticar a China", denuncia.
Símbolo da erosão da liberdade em Hong Kong
O caso de Jimmy Lai é considerado pelos defensores dos direitos humanos um símbolo da erosão das liberdades políticas em Hong Kong. A prisão do ex-magnata da mídia, há cinco anos, virou motivo de tensão entre Pequim e vários países ocidentais. O presidente americano Donald Trump chegou a pedir a libertação do ativista pró-democracia durante um encontro, em outubro, com o presidente chinês Xi Jinping.
"O governo central [chinês] apoia firmemente a região administrativa especial na defesa da segurança nacional conforme a lei, e na repressão de atos criminosos que ameacem a segurança nacional", declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, a jornalistas, após a condenação. "A China expressa seu profundo descontentamento e oposição firme diante da difamação e calúnia vergonhosas feitas por alguns países contra o sistema judicial de Hong Kong", acrescentou.
"Um ato de perseguição vergonhoso"
Lai, fundador do jornal pró-democracia Apple Daily, hoje fechado, está preso desde 2020. Aos 78 anos, permanece em isolamento "a seu pedido", segundo as autoridades. O ex-magnata, que possui passaporte britânico, apareceu no tribunal mais magro do que antes da prisão.
Além das acusações de conluio, que podem levar à prisão perpétua, ele é acusado de 161 "publicações sediciosas", incluindo programas transmitidos nas redes sociais e editoriais assinados por ele. Durante o julgamento, iniciado em dezembro de 2023, Lai declarou ser inocente, afirmando nunca ter defendido o separatismo ou violência. O ex-maganta negou ainda ter pedido sanções ocidentais contra a China e Hong Kong.
"Essa condenação, digna de uma paródia judicial, é um ato de perseguição vergonhoso", denunciou em comunicado Beh Lih Yi, diretora para Ásia-Pacífico do Comitê para Proteção dos Jornalistas. Segundo ela, "a decisão evidencia o total desprezo de Hong Kong pela liberdade de imprensa, que deveria ser protegida pela Constituição do território".
"Não foi um indivíduo que foi julgado, mas a própria liberdade de imprensa, e este veredito a destruiu", acrescentou Thibaut Bruttin, diretor-geral da Repórteres Sem Fronteiras, pedindo que as democracias "ajam".
Filho de Jimmy Lai pede libertação do pai
O filho de Jimmy Lai pediu nesta segunda-feira que o governo britânico "se empenhe mais" para conseguir a libertação do pai. "O governo britânico precisa agir mais e transformar palavras em ações", declarou Sebastian Lai em coletiva de imprensa em Londres.
Ele demonstrou preocupação com a saúde do pai. "No último ano, ele perdeu 10 quilos. Já era diabético, agora tem problemas cardíacos. Sofre infecções musculares, perde as unhas, os dentes estão se deteriorando", disse Sebastian Lai.
Segundo ele, a libertação deve ser uma "condição" para o estreitamento das relações entre Reino Unido e China, desejado pelo primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer desde que assumiu o poder em julho de 2024. "Como esperar uma relação frutífera se não conseguem colocar em um avião um homem de 78 anos, em péssimo estado de saúde, para levá-lo para casa?", questionou Sebastian Lai. Uma visita do premiê britânico à China está prevista para o próximo mês, destacou a advogada Caoilfhionn Gallagher.
Para Sebastian Lai, "não há nada que incrimine" seu pai nas centenas de páginas do julgamento emitido pela justiça de Hong Kong. O caso "é um exemplo perfeito de como a Lei de Segurança Nacional foi moldada e usada contra alguém que simplesmente disse coisas que desagradam ao governo", concluiu.