Luiza Ramos, da RFI em Paris
Conhecido pelo trabalho na televisão e por suas opiniões políticas nas redes sociais, Pedro Cardoso afirma que o teatro continua sendo seu principal espaço de criação artística. Em sua nova turnê europeia, ele apresenta "O Recém-Nascido", uma "comédia filosófica" construída a partir de uma pergunta inusitada: o que aconteceria se uma pessoa fosse capaz de se lembrar do próprio nascimento?
Segundo o ator, a peça faz parte de um conjunto de reflexões iniciadas em trabalhos anteriores sobre a ascensão do autoritarismo no Brasil. "Eu escrevi dois espetáculos de teatro, um que se chamava 'À Sombra do Pai' e esse outro, 'O Recém-Nascido', que são tentativas de reflexão a respeito da gênese desse fascismo no Brasil", explica.
A ideia surgiu da observação de comportamentos políticos que lhe pareciam contraditórios. "Um dos aspectos que me espantava era ouvir pessoas dizerem: 'Eles parecem umas crianças mimadas'. Aí eu percebi que havia uma dramaturgia interessante nisso, que era essa sobrevivência dos impulsos infantis dentro do homem adulto", diz o ator.
Para Cardoso, o humor é uma ferramenta privilegiada para abordar questões complexas. Embora frequentemente seja visto como uma forma de expressão menor em comparação ao discurso acadêmico, ele acredita que a comicidade tem um papel essencial na compreensão da realidade.
"O humor é muito desprestigiado culturalmente. O modo de saber que tem valor cultural é o modo acadêmico, a intelectualidade, a erudição. E o humor é sempre considerado uma expressão popular. Historicamente, o humor foi retirado das esferas de poder e o poder passou a ser representado sempre pelo aspecto sério e cerimonioso das relações", contextualiza. "O humor e o aspecto sério dos acontecimentos da vida são complementares."
'O Recém-Nascido' reflete diferenças da infância no Brasil e na Europa
Embora o espetáculo dialogue com a realidade política brasileira, Cardoso diz que "O Recém-Nascido" é também sua primeira peça profundamente inspirada pela experiência de viver parte do seu tempo na Europa.
"Eu diria que é a primeira peça que eu escrevi sobre a Europa", conta. "É muito sobre essa criança europeia que tem a sua infância abreviada e que é obrigada a ser um adulto antes de estar pronta para ser um adulto."
Na visão do dramaturgo, a forma como as crianças são criadas em diferentes sociedades ajuda a moldar comportamentos na vida adulta. Segundo ele, a história social europeia produziu uma relação distinta com a infância.
"Na Europa, os adultos precipitam o fim da infância porque são eles que têm que tomar conta da criança. Eu acho que isso tem um preço altíssimo para a psicologia da pessoa", avalia.
Teatro como ponto de encontro dos brasileiros
A recepção do espetáculo fora do Brasil também surpreendeu o ator. O que ele imaginava ser apenas uma circulação internacional de seu monólogo acabou se transformando em um encontro com comunidades brasileiras espalhadas pelo continente.
"Quando eu fui fazer a peça em Barcelona, aconteceu uma coisa que eu não imaginava. Tornou-se uma reunião comemorativa do Brasil", relata. A experiência levou o ator a redefinir o sentido da própria turnê.
"Isso não é uma turnê internacional, isso é uma turnê nacional. Eu não vou jouer en français (atuar em francês), eu vou atuar em português", brinca. "Adoraria um dia fazer uma peça em francês, espanhol e inglês. Mas me agrada, no momento, recolher essas almas brasileiras espalhadas pelo mundo. Há uma diáspora brasileira", diz Pedro Cardoso.
Agostinho Carrara pode voltar
Apesar da distância da televisão nos últimos anos, Cardoso revelou que existem conversas em andamento para revisitar Agostinho Carrara, personagem que marcou gerações na sitcom "A Grande Família". Segundo ele, a ideia discutida ao lado dos diretores e roteiristas Guel Arraes e Jorge Furtado seria imaginar como estaria o personagem nos dias atuais.
"A gente queria fazer um pulo no futuro do Agostinho", conta. "Qual é a família brasileira hoje que não é mais aquela de 'A Grande Família'? Tem uma nova família a ser retratada. E seria também uma forma de recuperar a alegria do personagem. Era realmente um personagem muito brasileiro, muito Macunaíma", recorda.
O projeto ainda está em fase de negociação, mas o ator demonstra otimismo. "Há interesse lá da Globo, há interesse nosso, já há uma conversa adiantada e as coisas estão indo bastante bem", afirma.