A doutrina do século 19 que orienta política externa do governo Trump para a América Latina

Doutrina criada em 1823 teve várias reinterpretações ao longo do tempo e, atualmente, tem como o 'mais recente defensor' Donald Trump, segundo vídeo divulgado por seu governo.

11 ago 2026 - 19h18
(atualizado às 20h03)
O governo Trump já fez vários acenos ao legado da Doutrina Monroe
O governo Trump já fez vários acenos ao legado da Doutrina Monroe
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O governo de Donald Trump exaltou novamente a Doutrina Monroe como uma diretriz para sua política externa no continente americano — mais de 200 anos depois de seu surgimento, em 1823.

Um vídeo de mais de cinco minutos publicado nesta terça-feira (11/08) nas redes sociais do Departamento de Estado dos Estados Unidos afirma que a "doutrina encontrou seu mais recente defensor em Donald Trump".

Publicidade

Um dos exemplos da aplicação moderna da doutrina durante o governo Trump, segundo o vídeo, foi a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro no início do ano.

"Ao longo de dois séculos, a declaração de Monroe moldou a política externa dos EUA através de diferentes mandatos e em áreas geopolíticas fundamentalmente distintas. O que começou como um alerta às potências europeias evoluiu para uma estrutura de domínio regional — uma base que permanece, até hoje, a pedra angular da conduta americana no hemisfério", diz o vídeo, narrado por Kevin Marino Cabrera, embaixador dos EUA no Panamá.

Na publicação, o Departamento de Estado afirma que "o domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado".

Afinal, o que é essa doutrina do século 19 que continua tão influente na política externa dos EUA?

Publicidade

Recado aos europeus

James Monroe estabeleceu sua doutrina em um contexto de independências recentes do continente americano
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O ex-presidente dos EUA James Monroe (1758-1831) dá nome à doutrina.

Em 1823, no tradicional discurso presidencial do fim do ano no Capitólio, o mandatário fincou sua orientação geopolítica afirmando que qualquer tentativa dos países europeus de levarem seus sistemas políticos "a qualquer porção desse hemisfério seria considerada como um perigo à paz e à segurança" dos EUA.

As independências de várias ex-colônias eram recentes e as disputas imperiais rondavam os territórios.

Assim, a Doutrina Monroe estabelecia que qualquer intervenção europeia no continente americano seria interpretada como uma ameaça à segurança aos EUA — que, por sua vez, comprometia-se a não se envolver em conflitos internos da Europa.

Dessa forma, os EUA também se colocavam como uma espécie de "tutores" de outros países do continente, estabelecendo a região como estratégica e prioritária para seus interesses.

Publicidade

A doutrina foi reinterpretada por diferentes gestões da Casa Branca dali pra frente, além de ter justificado intervenções diretas ou indiretas no continente, especialmente no Caribe e na América Central.

As reinterpretações vêm sendo chamadas de "corolários", ou seja, ideias que esclarecem ou fazem acréscimos a afirmações precedentes.

O Corolário Roosevelt, de 1904, é talvez a reinterpretação mais conhecida da Doutrina Monroe.

O presidente Theodore Roosevelt determinou que os Estados Unidos poderiam intervir nos assuntos internos de uma nação latino-americana se esta demonstrasse incapacidade de cumprir obrigações internacionais.

Essa interpretação impulsionou outro termo recorrente quando o assunto é a política externa dos EUA para o continente americano: a postura do "big stick", ou "grande porrete", simbolizando a ameaça de intervenção dos EUA em países de sua região.

Publicidade

'Doutrina Donroe'

Em vídeo, governo americano exemplifica a captura de Maduro como uma aplicação moderna da Doutrina Monroe
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O vídeo postado nesta terça-feira está longe de ser um primeiro flerte do governo Trump com a Doutrina Monroe.

Tanto que a mistura dos nomes "Monroe" e "Trump" gerou até um apelido para a orientação do atual governo, a "Doutrina Donroe".

No fim do ano passado, a Casa Branca divulgou sua nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (National Security Strategy). Nela, a Doutrina Monroe foi explicitamente citada como uma referência de como deveria ser o relacionamento dos EUA com a América Latina.

Dias antes da divulgação do documento, Trump havia publicado uma mensagem oficial celebrando o aniversário da doutrina. O presidente republicano afirmou que a diretriz estabelecida por Monroe é "fundamental" na história de seu país e que sua gestão está comprometida com a proteção do hemisfério ocidental.

A Estratégia de Segurança Nacional indica que, para a gestão atual da Casa Branca, os países da América Latina são a origem de temas que afetam diretamente os Estados Unidos — como a imigração e o tráfico de drogas.

Publicidade

E, se no passado a Doutrina Monroe tentava blindar o continente americano da influência de potências europeias, o governo Trump parece estar reeditando essa diretriz para, agora, conter o poder da China na região.

Em uma entrevista no ano passado, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que seu país deveria recuperar a influência no seu "quintal", "perdida" para a China.

Hegseth fez a declaração em meio ao aumento da pressão feita por Washington sobre o Canal do Panamá, que foi construído pelos EUA no início do século 20 e está sob controle do país centro-americano desde 1999.

O governo Trump tem se colocado contra a influência da China no canal marítimo, que liga os oceanos Pacífico e Atlântico.

O Canal do Panamá é, segundo vídeo publicado nesta terça pelo Departamento de Estado dos EUA sobre a Doutrina Monroe, um "símbolo da liderança duradoura dos Estados Unidos na região".

Publicidade

*Com informações de Vinícius Mendes e Ayelén Oliva

BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações