O governo de Donald Trump exaltou novamente a Doutrina Monroe como uma diretriz para sua política externa no continente americano — mais de 200 anos depois de seu surgimento, em 1823.
Um vídeo de mais de cinco minutos publicado nesta terça-feira (11/08) nas redes sociais do Departamento de Estado dos Estados Unidos afirma que a "doutrina encontrou seu mais recente defensor em Donald Trump".
Um dos exemplos da aplicação moderna da doutrina durante o governo Trump, segundo o vídeo, foi a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro no início do ano.
"Ao longo de dois séculos, a declaração de Monroe moldou a política externa dos EUA através de diferentes mandatos e em áreas geopolíticas fundamentalmente distintas. O que começou como um alerta às potências europeias evoluiu para uma estrutura de domínio regional — uma base que permanece, até hoje, a pedra angular da conduta americana no hemisfério", diz o vídeo, narrado por Kevin Marino Cabrera, embaixador dos EUA no Panamá.
Na publicação, o Departamento de Estado afirma que "o domínio americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado".
Afinal, o que é essa doutrina do século 19 que continua tão influente na política externa dos EUA?
Recado aos europeus
O ex-presidente dos EUA James Monroe (1758-1831) dá nome à doutrina.
Em 1823, no tradicional discurso presidencial do fim do ano no Capitólio, o mandatário fincou sua orientação geopolítica afirmando que qualquer tentativa dos países europeus de levarem seus sistemas políticos "a qualquer porção desse hemisfério seria considerada como um perigo à paz e à segurança" dos EUA.
As independências de várias ex-colônias eram recentes e as disputas imperiais rondavam os territórios.
Assim, a Doutrina Monroe estabelecia que qualquer intervenção europeia no continente americano seria interpretada como uma ameaça à segurança aos EUA — que, por sua vez, comprometia-se a não se envolver em conflitos internos da Europa.
Dessa forma, os EUA também se colocavam como uma espécie de "tutores" de outros países do continente, estabelecendo a região como estratégica e prioritária para seus interesses.
A doutrina foi reinterpretada por diferentes gestões da Casa Branca dali pra frente, além de ter justificado intervenções diretas ou indiretas no continente, especialmente no Caribe e na América Central.
As reinterpretações vêm sendo chamadas de "corolários", ou seja, ideias que esclarecem ou fazem acréscimos a afirmações precedentes.
O Corolário Roosevelt, de 1904, é talvez a reinterpretação mais conhecida da Doutrina Monroe.
O presidente Theodore Roosevelt determinou que os Estados Unidos poderiam intervir nos assuntos internos de uma nação latino-americana se esta demonstrasse incapacidade de cumprir obrigações internacionais.
Essa interpretação impulsionou outro termo recorrente quando o assunto é a política externa dos EUA para o continente americano: a postura do "big stick", ou "grande porrete", simbolizando a ameaça de intervenção dos EUA em países de sua região.
'Doutrina Donroe'
O vídeo postado nesta terça-feira está longe de ser um primeiro flerte do governo Trump com a Doutrina Monroe.
Tanto que a mistura dos nomes "Monroe" e "Trump" gerou até um apelido para a orientação do atual governo, a "Doutrina Donroe".
No fim do ano passado, a Casa Branca divulgou sua nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (National Security Strategy). Nela, a Doutrina Monroe foi explicitamente citada como uma referência de como deveria ser o relacionamento dos EUA com a América Latina.
Dias antes da divulgação do documento, Trump havia publicado uma mensagem oficial celebrando o aniversário da doutrina. O presidente republicano afirmou que a diretriz estabelecida por Monroe é "fundamental" na história de seu país e que sua gestão está comprometida com a proteção do hemisfério ocidental.
A Estratégia de Segurança Nacional indica que, para a gestão atual da Casa Branca, os países da América Latina são a origem de temas que afetam diretamente os Estados Unidos — como a imigração e o tráfico de drogas.
E, se no passado a Doutrina Monroe tentava blindar o continente americano da influência de potências europeias, o governo Trump parece estar reeditando essa diretriz para, agora, conter o poder da China na região.
Em uma entrevista no ano passado, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que seu país deveria recuperar a influência no seu "quintal", "perdida" para a China.
Hegseth fez a declaração em meio ao aumento da pressão feita por Washington sobre o Canal do Panamá, que foi construído pelos EUA no início do século 20 e está sob controle do país centro-americano desde 1999.
O governo Trump tem se colocado contra a influência da China no canal marítimo, que liga os oceanos Pacífico e Atlântico.
O Canal do Panamá é, segundo vídeo publicado nesta terça pelo Departamento de Estado dos EUA sobre a Doutrina Monroe, um "símbolo da liderança duradoura dos Estados Unidos na região".
*Com informações de Vinícius Mendes e Ayelén Oliva