Inteligência artificial, reforma tributária e novas exigências regulatórias estão entre os fatores que devem transformar o setor de transporte e logística nos próximos anos. O tema esteve no centro dos debates do Transporte do Futuro, evento promovido pela nstech em São Paulo, que reuniu mais de 3 mil participantes.
Segundo Leopoldo Suarez, vice-presidente de cliente, estratégia e mercado da empresa, o aumento da complexidade operacional exigirá empresas mais preparadas para lidar com mudanças estruturais no mercado.
Reforma tributária amplia desafios
Entre os temas apontados como prioritários está a reforma tributária. Segundo Suarez, as mudanças previstas vão além das áreas fiscal e contábil e devem afetar diretamente a operação e a formação de preços das empresas.
"A reforma tributária não é um tema do contador, é um tema do empresário, do principal executivo da empresa", afirmou.
Na avaliação do executivo, a nova estrutura tributária deve aumentar o grau de complexidade da gestão das transportadoras e operadores logísticos, exigindo maior capacidade de adaptação das empresas.
A reforma tributária prevê a substituição gradual de tributos como PIS, Cofins, ICMS, ISS e IPI por novos impostos sobre o consumo. Para as empresas de transporte e logística, as mudanças devem exigir adaptações em sistemas, processos de precificação, emissão de documentos fiscais e gestão operacional.
Além das mudanças tributárias, o setor também vem lidando com novas exigências regulatórias. Um dos exemplos é a ampliação da obrigatoriedade do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT), que desde maio passou a ser exigido em praticamente todas as operações de transporte rodoviário remunerado de cargas.
Qualificação ganha importância
Para lidar com esse cenário, o desenvolvimento de pessoas foi apontado como uma das prioridades para os próximos anos. Segundo Suarez, a combinação entre novas regulações e mudanças estruturais no ambiente de negócios exigirá equipes mais preparadas para tomar decisões e gerenciar operações cada vez mais complexas.
"O setor está aumentando muito a sua complexidade, seja por regulação, seja pela alteração provocada pela reforma tributária", disse.
De acordo com ele, a necessidade de capacitação tende a crescer à medida que as empresas precisarem adaptar processos, revisar estratégias de precificação e incorporar novas tecnologias às rotinas operacionais.
IA deve apoiar ganho de escala
A inteligência artificial também apareceu entre os temas centrais discutidos durante o encontro. Para Suarez, a tecnologia deve atuar como uma ferramenta de apoio para ampliar a produtividade e ajudar as empresas a lidar com um volume crescente de informações e demandas operacionais.
Segundo ele, o potencial da IA está diretamente ligado à capacidade das organizações de formar equipes preparadas para utilizar os recursos tecnológicos de forma estratégica.
"Com os times mais bem preparados, a IA vai ajudar muito para ganho de escala e para conseguir acompanhar os próximos anos", afirmou.
A percepção foi reforçada por uma pesquisa apresentada durante o Transporte do Futuro. Realizado pela MundoLogística em parceria com Celso Queiroz, sócio-diretor da consultoria RC Sollis, o levantamento ouviu executivos de grandes transportadoras e especialistas do setor em maio deste ano. Entre os entrevistados, 70% apontaram a inteligência artificial como um investimento prioritário para os próximos três a cinco anos.
O estudo também mostrou que os desafios atuais do setor estão concentrados na gestão financeira das operações. Mais de 80% dos participantes citaram a compreensão das margens de operação e dos custos do diesel como as principais preocupações para 2026. Temas como reforma tributária, mudanças regulatórias e os efeitos do endividamento das famílias sobre a demanda por transporte de cargas também apareceram entre os pontos de atenção.
Consolidação pode marcar a próxima década
Na visão do executivo, o aumento da complexidade operacional, combinado à necessidade de investimentos em pessoas, gestão e tecnologia, pode acelerar um movimento de consolidação no setor ao longo dos próximos anos.
Segundo Suarez, a tendência não deve ser percebida imediatamente, mas pode ganhar força na próxima década, tanto por meio do crescimento orgânico das empresas quanto por processos de fusões e aquisições.
"Esse aumento de complexidade, essa necessidade de melhora do time e de desenvolvimento das pessoas vai criar um ambiente de consolidação", avaliou.