Lula reeleito: a crônica de uma vitória orgânica que parecia improvável

Como o segundo turno das eleições no Brasil reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa virada sem precendentes na história do país

26 out 2026 - 03h09
Resumo
Superando a desvantagem do primeiro turno e a ascensão da extrema direita na região, Lula foi reeleito em 2026 ao vencer Flávio Bolsonaro por cerca de 4 milhões de votos. A virada histórica foi impulsionada por baixa abstenção e intensa mobilização digital liderada por André Janones, que levou eleitores de várias idades às ruas. Apesar da vitória contra a maré conservadora regional, o petista enfrentará forte resistência golpista da oposição e um Congresso majoritariamente à direita.

A verdade é que a ciência política não previa nada disso. Via de regra, quem disputa a reeleição para a presidência de um país como o Brasil tende a ter mais chances de vencer do que os desafiantes. O cargo dá visibilidade, estrutura e a oportunidade de mostrar resultados. Mas o cenário em que o país foi às urnas neste domingo, 25 de outubro, não favorecia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nos últimos anos, a América Latina viveu uma onda que levou ao poder conservadores de extrema direita. A Argentina elegeu Javier Milei em 2023. O Chile seguiu o mesmo caminho com José Antonio Kast, eleito no fim de 2025. O Brasil, por sua vez, tinha um governo de esquerda com avaliação ruim, ainda que com bons números na economia. A combinação entre desgaste político, anos de Lula no poder e uma maré regional à direita parecia apontar numa só direção.

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Havia outros sinais. Os estudos sobre eleições em dois turnos mostram que é muito difícil virar o jogo quando o adversário termina a primeira rodada na frente. Mas foi exatamente isso o que aconteceu no Brasil este ano. No primeiro turno, em 4 de outubro, o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ficou à frente de Lula com cerca de 47% dos votos válidos, contra 45% do presidente. Na véspera do segundo turno, dia 24 de outubro, uma pesquisa ainda apontava a vitória de Flávio - ou, no máximo, um empate técnico

Também se esperava um índice de abstenção que não aconteceu. No Brasil, o segundo turno presidencial coincide com a disputa de segundos turnos para governador. Onde os governos estaduais já estavam definidos, a tendência é que muitos eleitores não voltem às urnas. O voto é obrigatório no país, mas a multa para quem falta sem justificativa é de poucos reais, menos de um dólar. Mas esse ano, a abstenção no segundo turno não foi tão alta quanto a média histórica.

Graças a todos esses fatores, ao fim deste domingo, dia 25 de outubro de 2026, o presidente Lula saiu vitorioso da eleição com uma diferença de cerca de 4 milhões de votos - mais do dobro da diferença de votos registrada em 2022.

Mobilização genuína pelas redes sociais

Há várias explicações possíveis para essa virada aparentemente improvável. E boa parte delas passa pela enorme mobilização feita nas redes sociais, e que se transformou também em mobilização nas ruas. Ela foi coordenada em grande medida pelo deputado federal André Janones, aliado de Lula e conhecido pela capacidade de falar com públicos amplos na internet.

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O efeito foi algo que o Brasil não via desde o movimento das Diretas Já, nos anos 1980, quando multidões foram às ruas pedir eleições diretas para presidente e ajudaram a encerrar a ditadura militar que governou o país de 1964 a 1985.

Essa participação atravessou todas as faixas etárias. Chamou atenção, em especial, a presença de pessoas idosas, um grupo que a esquerda não vinha conseguindo mobilizar nas últimas eleições. Seguindo a orientação do deputado em um canal online que reunia mais de 10 milhões de pessoas, resgataram a camisa do Brasil e foram para pontos de ônibus fazer o processo de tentar virar votos.

O dado também diz algo sobre a forma como campanhas digitais funcionam hoje. Durante anos, a direita latino-americana foi vista como mais hábil no uso das redes, capaz de transformar engajamento online em voto. Desta vez, a esquerda brasileira conseguiu fazer o caminho inverso e levar a conversa da internet para as ruas e para as seções eleitorais. A fragilidade do candidato adversário, envolvido em diversos escândalos de corrupção e bem menos carismático que seu pai, também contou a favor da reversão deste resultado.

Batalha vencida numa guerra ainda sem previsão de fim

A vitória de Lula, porém, vem com alguns desafios. O lado derrotado já deu recados de que não aceitará o resultado. Em 2022, a derrota de Jair Bolsonaro foi seguida por acampamentos diante de quartéis e pela invasão das sedes dos três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. O ex-presidente acabou condenado por tentativa de golpe de Estado.

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Em 2027, Lula governará um país em que a maior parte dos governos estaduais está nas mãos da direita ou ultradireita, assim como a maioria dos senadores e deputados federais. Há espaço para negociar com o centro, em especial com o chamado Centrão, um bloco de partidos sem identidade ideológica clara que costuma apoiar o governo de turno em troca de cargos e recursos. Mas éevidente que o desafio de governabilidade será enorme.

Com mais de 80 anos de idade, quase certamente em seu último mandato, Lula conseguiu mais quatro anos à frente do governo rearticulando um eleitorado jovem, que se mobiliza pelas redes sociais, mas que também responde ao chamado das ruas. Esse eleitorado tem potencial de ser acionado de novo em outros momentos, caso a governabilidade, ou mesmo o mandato do presidente, venham a ser ameaçados.

Para a América Latina, o resultado pode representar uma pausa no movimento que vinha colocando a extrema direita em quase todos os países, com o apoio de interesse intervencionista dos Estados Unidos. Pode também frear, ao menos por ora, o avanço dos intentos de "bukelização" do debate brasileiro sobre segurança pública.

Essa ideia de encarceramento em massa que elegeu Nayib Armando Bukele em El Salvador tem muito eco em um país que enfrenta graves problemas de segurança pública, como o Brasil. Mas, por enquanto, a maior parte da população ainda aposta nas políticas prevenção à violência via inclusão social e ressocialização.

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Agora cercado por nações governadas por políticos extremistas, o Brasil escolheu preservar e fortalecer a sua jovem democracia.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Débora Thomé não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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