Frota velha, crédito novo: o que muda para as transportadoras com o Move Brasil 2

Nova fase do programa é criada por medida provisória, que já vale, mas precisa ser aprovada pelo Congresso para não perder efeito

4 mai 2026 - 12h09

O governo federal anunciou nesta quinta-feira (30) a segunda fase do Move Brasil, programa de crédito voltado à renovação da frota nacional de veículos de carga e passageiros. Com R$ 21,2 bilhões em recursos — sendo R$ 14,5 bilhões do Tesouro Nacional e R$ 6,7 bilhões do BNDES —, o programa chega ampliado em volume, em público-alvo e em condições de financiamento. Para empresários do setor de transporte, o anúncio representa uma das maiores janelas de crédito subsidiado dos últimos anos para renovação de frota.

Por que o governo lançou uma segunda fase

A primeira edição do Move Brasil, lançada no início de 2026, ofereceu R$ 10 bilhões exclusivamente para caminhões e teve adesão expressiva: os recursos se esgotaram em cerca de dois meses, com mais de 8 mil operações de financiamento registradas em todo o país. O alto volume de demanda — e o fato de que apenas um quinto do orçamento reservado para caminhoneiros autônomos havia sido utilizado — levou o governo a reavaliar o desenho do programa.

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O próprio presidente Lula reconheceu o problema durante o evento. "Me chamou a atenção porque nós tínhamos disponibilizado R$ 1 bilhão e só tinham sido liberados R$ 200 milhões até o dia que conversei com eles", disse, referindo-se à equipe econômica. Segundo ele, havia algo "atrapalhando as pessoas a terem acesso ao dinheiro" — o que motivou a revisão das condições para a nova fase.

O ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, resumiu a lógica por trás da iniciativa: "O Brasil é um país que se move sobre rodas, mais de 60% da carga nacional trafega por rodovias. Frota velha custa caro, para o trabalhador, para o meio ambiente, para a economia."

O que muda para as transportadoras

Para empresas do setor de transporte — donas de frotas de caminhões, ônibus ou veículos de carga —, a principal novidade é a ampliação dos tipos de veículos elegíveis ao financiamento. Se antes apenas caminhões novos podiam ser financiados, agora o programa passa a contemplar também ônibus, micro-ônibus e implementos rodoviários, como reboques e carrocerias.

Transportadoras que operam linhas de passageiros ou que trabalham com logística que exige equipamentos complementares ao caminhão ganham acesso a uma linha que antes não existia.

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As condições financeiras também melhoram de forma relevante. O prazo de pagamento pode chegar a dez anos, com até 12 meses de carência — período em que o veículo já está em operação, mas as parcelas ainda não começaram a vencer. Para uma empresa que está renovando parte da frota sem interromper as operações, esse intervalo pode ser decisivo para equilibrar o fluxo de caixa durante a transição.

As taxas de juros vão cair em relação à primeira fase. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que as condições estão sendo melhoradas, com redução de até 3 pontos percentuais em relação ao Move Brasil 1, quando os autônomos pagavam entre 14,2% e 14,9% ao ano. Na nova fase, os juros devem ficar entre 11,3% e 12,4% ao ano — ainda acima da Selic em termos reais, mas abaixo das linhas tradicionais de financiamento de veículos pesados disponíveis no mercado.

O valor máximo financiável por cliente chegará a R$ 50 milhões, o que abre espaço para empresas de médio porte renovarem parcelas significativas da frota em uma única operação. Uma restrição importante, no entanto, permanece: os recursos só poderão ser aplicados na compra de veículos produzidos no Brasil, com regras de conteúdo local a serem observadas.

A fatia reservada para autônomos

Dentro do pacote de R$ 21,2 bilhões, R$ 2 bilhões estão reservados exclusivamente para caminhoneiros autônomos, com condições diferenciadas de prazo e carência. Outra mudança relevante para esse perfil de beneficiário é a possibilidade de financiar veículos seminovos — e não apenas zero-quilômetro —, o que reduz o valor de entrada e amplia o acesso para quem não teria capital suficiente para um veículo novo. Outros R$ 2 bilhões estão reservados para linhas de ônibus.

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Para transportadoras que subcontratam autônomos ou que operam em conjunto com caminhoneiros independentes, essa fatia do programa pode influenciar indiretamente a disponibilidade e o custo da mão de obra agregada — à medida que autônomos com veículos mais novos e em melhores condições tendem a ter menor custo operacional e maior disponibilidade.

O que ainda não está definido

Apesar do volume do anúncio, parte das condições do Move Brasil 2 ainda não está fechada. As taxas de juros finais e as regras operacionais detalhadas serão estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em etapa posterior. O programa foi formalizado por meio de medidas provisórias — instrumentos que já têm força de lei desde a publicação, mas que precisam ser aprovados pelo Congresso Nacional em até 120 dias para não perder a validade.

Há também a questão do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), destacada pelo ministro Durigan. Com um aporte de R$ 2 bilhões no fundo, o governo afirma ser possível alavancar até R$ 16 bilhões em crédito para pequenos e médios empresários via rede bancária — mecanismo que pode complementar as linhas diretas do BNDES para transportadoras de menor porte.

Vale a pena aderir ao Move Brasil 2?

O programa pode ser uma alternativa mais barata ao financiamento tradicional, mas a decisão depende do tamanho da frota, do tipo de operação e das condições finais ainda a serem definidas pelo CMN.

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Quando pode valer a pena

  • Juros tendem a ser mais baixos que os de mercado, com subsídio público
  • Prazo de até 10 anos reduz o valor das parcelas e alivia o fluxo de caixa
  • Carência de até 12 meses dá fôlego no início da operação
  • Limite de até R$ 50 milhões por cliente permite renovar parcelas relevantes da frota de uma vez

Pontos de atenção

  • Restrito a veículos com produção nacional
  • Condições finais de juros e regras operacionais ainda dependem do CMN
  • Alta demanda pode esgotar os recursos rapidamente, como ocorreu na primeira fase
  • Medidas provisórias precisam ser aprovadas pelo Congresso em até 120 dias

Para a transportadora

Empresas com frota envelhecida e custo crescente de manutenção têm mais a ganhar: veículo novo reduz parada técnica, consome menos combustível e pode melhorar a margem operacional no médio prazo. Para quem tem operação menor ou fluxo de caixa apertado, é essencial calcular o impacto das parcelas antes de aderir — especialmente enquanto as taxas definitivas ainda não foram publicadas.

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