A sensação de insegurança pode ter um impacto muito mais profundo do que os níveis reais de criminalidade no desenvolvimento cerebral e na saúde mental de pré-adolescentes. De acordo com um estudo publicado na revista científica Developmental Cognitive Neuroscience, jovens que se sentem mais inseguros apresentam pior desempenho cognitivo e mais sintomas de ansiedade e depressão. A pesquisa revela que o estado de alerta constante molda fisicamente o órgão mais importante do corpo humano durante uma fase crítica de crescimento. O fato mais impactante é que o cérebro reage à percepção da ameaça, independentemente de haver um risco imediato ou concreto no ambiente ao redor.
Os autores analisaram dados de quase 12 mil pré-adolescentes nos Estados Unidos por meio de entrevistas, testes cognitivos e exames de ressonância magnética. Essas avaliações ocorreram em dois momentos distintos: quando os participantes tinham entre 9 e 10 anos e, posteriormente, aos 11 ou 12 anos. O objetivo central era examinar a associação entre a percepção subjetiva de segurança e os desfechos na saúde mental e estrutura cerebral. Segundo o portal CNN, o resultado demonstrou que aqueles que se sentiam mais inseguros possuíam maior incidência de problemas de comportamento e menor desempenho em testes de inteligência e memória.
A psicóloga Bianca Dalmaso, do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita, explica que o estudo traz um novo olhar sobre o tema. "Já existiam pesquisas mostrando que viver em ambientes violentos está associado a mais ansiedade, estresse e dificuldades emocionais", relata a especialista. Ela acrescenta que o diferencial desta nova análise é a importância da subjetividade. "O que esse estudo acrescenta é que a forma como a pessoa percebe o ambiente também parece ter relação com saúde mental e desempenho cognitivo, especialmente em pré-adolescentes", afirma Dalmaso. A maior sensação de segurança foi associada a um maior volume da amígdala, região cerebral essencial para o processamento das emoções humanas.
Quando o cérebro percebe uma ameaça, ele prioriza automaticamente a vigilância e a proteção em detrimento de outras funções. "Com isso, sobra menos recurso mental para aprendizagem e concentração", observa a psicóloga. Como o cérebro nessa idade ainda está em formação, ele se torna extremamente sensível às influências do ambiente. No entanto, o estudo reforça que os resultados são associações e não uma relação direta de causa e efeito. Fatores como renda familiar e ambiente doméstico também pesam. "O estudo não traz uma conclusão definitiva, mas reforça que a percepção de segurança pode ser um fator relevante para o bem-estar psicológico", analisa a especialista do Einstein. Estratégias como rotinas estruturadas e redução do consumo de notícias violentas são fundamentais para quebrar o ciclo de ansiedade e proteger o desenvolvimento das futuras gerações.