Estigma e exclusão elevam consumo de drogas entre jovens LGBTQIAPN+

Pesquisa com 1,4 mil jovens em Porto Alegre e São Paulo revela início precoce do consumo, especialmente entre mulheres bissexuais

30 abr 2026 - 20h57

Uma recente pesquisa desenvolvida no âmbito da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), que utilizou dados de Porto Alegre e conta com parceria da UFRGS, demonstra que jovens LGBTQIAPN+ apresentam taxas mais elevadas e um início mais precoce no consumo de álcool, tabaco, cannabis e cocaína em comparação aos seus pares cisgêneros heterossexuais. Os dados do estudo científico foram publicados em 17 de abril no periódico International Review of Psychiatry.

Foto: Freepik / Porto Alegre 24 horas

O levantamento faz parte da tese de doutorado do psiquiatra Caio Petrus Monteiro Figueiredo. A investigação avaliou o perfil de 1.492 jovens entre 9 e 21 anos, residentes nas cidades de São Paulo e Porto Alegre, que integram a Brazilian High Risk Cohort (BHRC), também conhecida como Conexão Mentes do Futuro. O projeto está vinculado ao Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) e tem a orientação do psiquiatra Arthur Caye.

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Para compreender os impactos e as diferenças entre os grupos, os pesquisadores aplicaram questionários detalhados sobre orientação sexual e identidade de gênero. Foram utilizados modelos estatísticos de regressão logística e análises de sobrevivência para mapear a prevalência e o tempo de início do uso de substâncias. Do total de participantes, 247 se identificaram como parte da comunidade LGBTQIAPN+.

Os resultados indicaram um consumo superior de três das quatro substâncias analisadas entre os jovens da comunidade. O tabaco é utilizado por 48% do grupo, ante 37% dos cis-heterossexuais. No caso da cannabis, a proporção é de 40% contra 27%, enquanto o uso de cocaína atinge 7,4% dos entrevistados LGBTQIAPN+, frente a 3,6% dos demais. O consumo de álcool foi o único parâmetro com índices semelhantes, registrando 85,9% e 83,7%, respectivamente.

Um recorte importante da pesquisa aponta que indivíduos designados como mulheres ao nascer tendem a iniciar o consumo de tabaco, cannabis e cocaína mais cedo, entre os 10 e 15 anos, em contraste com a faixa de 13 a 17 anos observada entre as mulheres heterossexuais. A análise por orientação sexual destacou que as mulheres bissexuais apresentam as maiores taxas: 77,9% consomem álcool; 26,3%, tabaco; 56%, cannabis; e 9,2%, cocaína. Não foram identificadas diferenças estatisticamente relevantes associadas à classe socioeconômica ou à cor da pele dos participantes.

De acordo com os pesquisadores, os resultados sugerem que fatores sociais e estruturais, como o estigma e a discriminação, exercem forte influência sobre esses comportamentos. Caio Figueiredo destaca que a rejeição e o isolamento agravam o sofrimento psicológico e reduzem a busca por serviços de saúde mental, impulsionando o consumo como um mecanismo de enfrentamento. O pesquisador defende que a ciência deve se traduzir em políticas públicas e intervenções focadas na diversidade sexual e de gênero.

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O CISM, responsável pela iniciativa, é um Centro de Pesquisa Aplicada apoiado pela Fapesp, com sede na USP e formado por uma ampla rede de instituições de ensino superior. Além da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Unicamp e de centros universitários como UniFAJ e UniMAX, a UFRGS é uma das instituições parceiras fundamentais que integram e viabilizam as investigações no país. O artigo, que tem tradução para o português como Disparidades no uso de substâncias entre jovens brasileiros: Um estudo das influências de gênero e orientação sexual, já rendeu ao autor o Prêmio Jovem Pesquisador no Brain Congress de 2025. O trabalho é assinado em conjunto com outros nomes de destaque do CISM, como Euripedes Constantino Miguel, Luis Augusto Rohde, Pedro Mario Pan e Giovanni Abrahão Salum.

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