Epidemia de HIV pode ressurgir no mundo, alerta novo relatório da ONU

Queda histórica no financiamento internacional e barreiras no acesso a remédios preventivos ameaçam metas globais para 2030

29 jul 2026 - 11h13

Uma nova epidemia de HIV tem grandes chances de acontecer segundo um novo relatório da ONU. Os avanços científicos contra o vírus atingiram patamares históricos, mas o planeta enfrenta o risco real de ver a situação epidemiológica piorar. O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) lançou o relatório "Unidas e Unidos para acabar com a AIDS" durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS, realizada no Rio de Janeiro.

Lenacapavir deve ser usado por 3 milhões de pessoas até 2028
Lenacapavir deve ser usado por 3 milhões de pessoas até 2028
Foto: Per-Anders Pettersson/Getty Images / Perfil Brasil

A entidade aponta que a combinação entre cortes orçamentários, sucateamento de serviços comunitários e obstáculos no acesso à prevenção da epidemia de HIV pode destruir décadas de conquistas. Em 2025, o mundo registrou 1,2 milhão de novas infecções e 570 mil mortes relacionadas à doença. Embora os números de óbitos e novos casos sejam os menores em 30 anos, a resposta global perde força. Consequentemente, o objetivo de erradicar a AIDS como ameaça de saúde pública até 2030 corre sério risco.

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A evolução do combate à epidemia de HIV varia de forma alarmante entre os países. Antecipadamente, sete nações reduziram em quase 80% as novas infecções desde 2010, enquanto outras 11 atingiram as metas internacionais de tratamento. Em contrapartida, o avanço desacelerou ou retrocedeu em diversas regiões durante o ano de 2025.

A diretora-executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, reforçou a urgência de democratizar a tecnologia:

"Os avanços científicos estão nos dando ferramentas com as quais as gerações anteriores só podiam sonhar. No entanto, inovação sem acesso não é inovação, é injustiça. O verdadeiro teste do sucesso não é se os medicamentos existem, mas se as pessoas que precisam deles conseguem obtê-los, e a um preço acessível."

O relatório destaca o Brasil pelo aumento de 41% no uso de medicamentos preventivos ao HIV no último ano. Nações como a Etiópia e Uganda também expandiram o acesso com recursos próprios, enquanto a África do Sul negocia custos para a aplicação semestral do Lenacapavir.

Entretanto, o governo brasileiro enfrenta um dilema comercial. Apesar de o país ter participado dos ensaios clínicos do Lenacapavir, a farmacêutica Gilead negou a licença voluntária que permitiria a fabricação de versões genéricas mais baratas. Diante desse cenário, autoridades brasileiras avaliam recorrer ao licenciamento compulsório do medicamento.

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Metas globais renovadas para 2030

O orçamento global destinado à saúde sofreu um forte impacto. Em 2025, a assistência internacional ao desenvolvimento despencou 23% — a maior queda já registrada. Especificamente para o combate ao vírus, a verba caiu de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, atingindo o menor nível em duas décadas.

A crise atinge em cheio países africanos de baixa renda, onde recursos externos cobriam mais de 90% das ações de saúde. Diante disso, Winnie Byanyima foi categórica sobre a necessidade de mudança:

"A era de depender da ajuda internacional acabou. Os países não podem esperar e não podem retroceder. O mundo deve corrigir urgentemente o sistema financeiro que já não é mais funcional e acelerar a reestruturação da dívida para que os governos possam investir no que mais importa: a saúde, a educação e o futuro de suas populações."

No entanto, a escassez de recursos paralisou programas comunitários contra o HIV. Na África Subsaariana, onde fontes internacionais financiavam 80% da prevenção, o corte gerou impactos severos. Um estudo de 2026 realizado em 47 países revelou reduções drásticas nos atendimentos:

Paralelamente, o avanço de leis punitivas agrava o quadro. Em 2025, Burkina Faso e Níger criminalizaram relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo, medida adotada também pelo Senegal em 2026 com o aumento de penas. Atualmente, 168 países criminalizam o trabalho sexual, 152 punem a posse de drogas para uso pessoal e 66 penalizam relacionamentos homoafetivos.

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Apesar do cenário adverso, 149 Países-Membros da Organização das Nações Unidas assinaram a nova Declaração Política sobre HIV e AIDS. A estratégia estabelece metas rigorosas para a próxima década.

Entidades como a UNITAID e o Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária pretendem levar o Lenacapavir a 3 milhões de pessoas até 2028. Contudo, a estimativa da ONU indica que 20 milhões de indivíduos precisam de antirretrovirais preventivos para frear a transmissão em escala global.

Assim, o cumprimento integral dessas metas pode evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes até 2030. Nas palavras finais de Winnie Byanyima:

"Apesar dos enormes desafios, acabar com a AIDS ainda está ao nosso alcance. A escolha diante de nós é nítida: recuar e arriscar um ressurgimento da epidemia, ou repensar, reconstruir e avançar para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030."

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