Regime iraniano tem recorde de execuções e intensifica perseguição a advogados de condenados à morte

Todos os dias, nomes de opositores executados pela República Islâmica do Irã surgem nas redes sociais. ONGs de direitos humanos estimam que o regime já tenha executado cerca de mil pessoas desde o início de 2026, número que pode ser ainda maior devido aos quase três meses de interrupção da internet no país. A execução pública de dois jovens manifestantes reforçou os alertas sobre a escalada repressiva, enquanto autoridades intensificam a perseguição contra advogados que defendem presos políticos.

29 jul 2026 - 11h58

Sara Saidi, da RFI em Paris

Cartaz contra a pena de morte durante uma manifestação contra o regime iraniano realizada em Berlim, em 10 de dezembro de 2022.
Cartaz contra a pena de morte durante uma manifestação contra o regime iraniano realizada em Berlim, em 10 de dezembro de 2022.
Foto: © MICHELE TANTUSSI/REUTERS / RFI

Enquanto a guerra com os Estados Unidos prossegue, a República Islâmica do Irã continua executando manifestantes. Acusados de "guerra contra Deus" e "corrupção na Terra" por participarem dos protestos de janeiro de 2026, dois jovens, Abolfazl Sepahi e Amir Hossein Safar, foram enforcados em praça pública em Isfahan, no centro do país, na terça-feira (28), apesar da mobilização e dos protestos da população.

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O Irã registra um dos maiores números de execuções do mundo. Segundo a ONG Hengaw, ao menos 109 presos foram executados apenas em junho no país. Os dados são semelhantes aos do Centro Abdorrahman Boroumand, que contabilizou 115 execuções no mesmo mês e cerca de 900 desde o início de 2026.

As execuções ocorreram apesar de mobilizações e protestos locais em defesa dos dois condenados. O episódio se insere em um contexto de endurecimento da repressão estatal, que prossegue paralelamente ao conflito com os Estados Unidos, marcado por alternância entre períodos de relativa calmaria e retomada dos bombardeios.

Os números podem representar apenas parte da realidade. A interrupção do acesso à internet durante quase três meses dificultou a coleta de informações independentes e a documentação de execuções em diferentes regiões do país.

O Irã já ocupa historicamente uma das primeiras posições mundiais em número de execuções. Segundo defensores dos direitos humanos, o aumento observado em 2026 coincide com a intensificação da repressão após as manifestações de janeiro e com o esforço das autoridades para sufocar qualquer forma de contestação política.

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Advogados passam a ser alvo direto da repressão

Ao mesmo tempo em que amplia o uso da pena de morte, o regime iraniano tem voltado sua atenção para advogados independentes, especialmente aqueles envolvidos na defesa de presos políticos, ativistas e familiares de manifestantes detidos.

Desde o início de 2026, ao menos 32 advogados foram presos, intimados a depor ou processados, segundo o Centro para os Direitos Humanos no Irã, em relatório publicado em 18 de junho de 2026.

"Os advogados são colocados sob escuta. Os serviços de inteligência do regime os detêm, confiscam seus celulares e/ou computadores antes de abrir processos contra eles", relata um jurista que atua no Irã.

Citado em relatório divulgado em novembro de 2025 pelo Centro de Apoio aos Defensores dos Direitos Humanos e pelo Instituto de Direitos Humanos da Associação Internacional de Advogados (IBAHRI), Jaafar Kousha, presidente da Ordem dos Advogados do Irã, afirma que "cerca de 20 assassinatos e mais de 60 tentativas graves de homicídio contra advogados foram registrados na última década, evidenciando uma deterioração crítica da segurança e da integridade física desses profissionais no país".

Em Mashhad, o advogado e defensor de direitos humanos Javid Alikordi foi condenado recentemente a 18 anos de prisão, seis meses após sua detenção. Ele foi considerado culpado de "conspiração e conluio para agir contra a segurança nacional" e de "propaganda contra a segurança nacional".

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A condenação ocorre poucos meses após a morte de seu irmão, Khosrow Alikordi, também advogado conhecido por atuar na defesa de prisioneiros políticos e de consciência. Ele morreu no início de dezembro de 2025 em circunstâncias consideradas suspeitas por pessoas próximas e por organizações de direitos humanos.

Outro caso envolvendo um nome de destaque é o de Hassan Younesi, advogado e ativista filho de um ex-ministro da Inteligência iraniana. Ele foi convocado pelo Tribunal Revolucionário Islâmico e responde a acusações de propaganda contra o regime e divulgação de informações falsas, depois de escrever sobre os protestos de 8 e 9 de janeiro.

Já as advogadas Astareh Maryam Ansari e Bahar Sahraian deixaram a prisão de Adelabad, em Shiraz, no fim de julho, após passarem dois meses detidas. Elas foram libertadas mediante pagamento de fiança.

Sistema jurídico sob controle crescente do Estado

O Centro para os Direitos Humanos no Irã estima que mais de 50 advogados atuavam regularmente na defesa de direitos humanos no país há cerca de dez anos. Atualmente, esse número seria inferior a uma dúzia.

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A redução preocupa organizações internacionais porque coincide com o aumento do número de presos políticos e com o endurecimento das penas aplicadas a opositores.

As dificuldades começam já no acesso aos clientes. Advogados independentes relatam que, em diversos casos, são impedidos de encontrar os detidos ou de acompanhar adequadamente os processos.

A situação tornou-se ainda mais delicada após mudanças implementadas nos últimos anos. Desde 2021, o Judiciário iraniano passou a ter maior poder para conceder e revogar licenças profissionais.

Além disso, familiares de presos políticos com frequência precisam escolher representantes legais a partir de listas aprovadas previamente pelas autoridades.

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"Advogados corruptos", afirma Marzieh Mohebi, advogada iraniana radicada na França desde o movimento Mulher, Vida, Liberdade. Ela é uma das signatárias de uma carta aberta que denuncia o silêncio da comunidade internacional diante do aumento das execuções.

Relatório do IBAHRI já alertava em 2025 para o grau de controle exercido pelo Estado sobre as entidades representativas da categoria. Segundo o documento, entre 1981 e 1997, as eleições das ordens dos advogados estiveram sob supervisão do aparato judicial, processo que teria se aprofundado nos últimos anos.

"Eles eliminam o advogado para poder fazer o que quiserem com o prisioneiro", resume Mohebi.

Presos iniciam greve de fome contra execuções

Enquanto a pressão sobre advogados aumenta, presos da penitenciária de Ghezel Hesar, em Karaj, a oeste de Teerã, iniciaram uma greve de fome que já ultrapassa duas semanas.

O movimento busca impedir a execução de outros detentos, muitos deles condenados em processos relacionados ao consumo ou ao tráfico de drogas.

Vídeos divulgados nas redes sociais mostram grupos de presos sentados nas celas segurando cartazes com a frase "Não às execuções". Alguns costuraram os próprios lábios em sinal de protesto e para chamar atenção para o que descrevem como silêncio das autoridades diante das execuções iminentes.

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"Pedimos para a sociedade civil nos ajudar", diz um dos detentos em uma das gravações divulgadas por ativistas.

A mobilização gerou campanhas de solidariedade organizadas por iranianos exilados em diferentes países. Uma petição internacional também foi lançada em apoio aos presos de Ghezel Hesar. "Nosso objetivo é amplificar a voz deles, dar esperança e apoio", afirma Mostafa Saber, participante da campanha.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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