Nas primeiras eleições após os ataques de 7 de outubro de 2023 e a ofensiva em Gaza, Israel vive um pleito acirrado que definirá o futuro de Benjamin Netanyahu. Isolado internacionalmente e enfrentando acusações de corrupção, o premiê busca manter sua coalizão de direita contra a oposição liderada pelo general Gadi Eisenkot. Com as pesquisas indicando empate técnico distante da maioria de 61 cadeiras, os partidos árabes podem se tornar decisivos para destravar a formação do novo governo.
País vai às urnas pela primeira vez desde os ataques sofridos em 7 de outubro de 2023 e as investidas militares na Faixa de Gaza. Futuro de Netanyahu e novas respostas do exército israelense também estão em jogo.Israel vai às urnas nesta terça-feira (27/10) pela primeira vez desde os ataques perpetrados por militantes do grupo extremista Hamas, em 7 de outubro de 2023, e a consequente ação militar israelense que atingiu em cheio a Faixa de Gaza e os territórios palestinos.
Um total de 7,3 milhões de israelenses estão aptos a votar, incluindo 810 mil residentes no exterior que devem viajar para exercer seu direito ao voto.
Atual e mais longevo primeiro-ministro da história do país, Benjamin Netanyahu poderá ser reeleito após a vitória nas eleições de 2022. Ele já ocupou o cargo outras duas vezes: de 1996 a 1999 e de 2009 a 2021.
O partido nacionalista Likud, de Netanyahu, busca repetir a fórmula de governo ao lado da direita religiosa supremacista - cuja figura central é o ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir - e dos partidos ultraortodoxos. Por isso, há também a possibilidade de formação de uma coalizão sionista de direita com forte caráter militar.
Na oposição, há um bloco liderado pelo ex-chefe do Estado-Maior, Gadi Eisenkot, do partido Yashar, junto com a direita nacionalista do Beyachad, e os democratas, considerados de esquerda em Israel e liderados por Yair Golán, ex-vice-chefe do Estado-Maior.
Disputa acirrada
Desde que Netanyahu reassumiu o poder em 2022, Israel tem convivido com uma ruptura social cada vez mais evidente entre religiosos e seculares, com o instinto nacionalista também em sua expressão máxima após os ataques sofridos na fronteira com Gaza, há três anos, quando cerca de 1.200 israelenses morreram e 251 foram sequestrados.
A resposta brutal de Israel, considerada "genocídio" por um comitê independente da ONU, por organizações de direitos humanos e por setores da comunidade internacional, também resultou em um crescente isolamento internacional - em novembro de 2024, Netanyahu foi formalmente acusado de crimes de guerra pelos ataques em Gaza.
Neste ano, o país iniciou junto com os Estados Unidos uma guerra contra o Irã em escala regional, ocupou o sul do Líbano e continua exercendo pressão na fronteira com a Síria.
Nesse contexto de turbulência, as últimas pesquisas, divulgadas na sexta-feira, indicam que ambos os blocos estariam praticamente empatados, com 52 a 56 cadeiras para a oposição e 50 para a atual coalizão governamental, longe do número mágico de 61 cadeiras necessárias para governar com maioria plena no parlamento.
Vespeiro bélico durante a campanha
A campanha eleitoral foi um tanto discreta, com Netanyahu participando de poucos eventos públicos. Em contrapartida, ele agitou, por meio de declarações e de exercícios militares, o vespeiro bélico com o Irã.
Uma semana antes das eleições, caças israelenses sobrevoaram a Síria e o Iraque até a fronteira iraniana, enquanto veículos de comunicação como Financial Times e Axios apontam que Netanyahu solicitou ao presidente dos EUA, Donald Trump, que retomasse os ataques contra o Irã - o que o republicano descartou, ao menos por enquanto.
Na sexta-feira, Netanyahu anunciou uma operação militar na Cisjordânia ocupada, após um ataque armado perpetrado por dois palestinos contra um posto de controle israelense em Hebron, que resultou na morte de dois soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF) e dos dois agressores.
Entre o apoio de Trump e divisões internas
Durante a campanha, o atual primeiro-ministro israelense afirmou que sua coalizão deve permanecer no poder para acabar "definitivamente" com a "ameaça nuclear iraniana" e se vangloriou do apoio público de Trump à sua candidatura.
Mas, à parte ao apelido "grande guerreiro", respaldado por Trump, Netanyahu segue envolvido em três casos de corrupção e enfrenta divisões com seus próprios parceiros de governo.
Partidos ultraortodoxos ameaçam retirar o apoio se ele continuar prendendo pontualmente jovens religiosos desertores - conhecidos como haredim. Por outro lado, a formação sionista radical Poder Judaico o atacou por não se comprometer a entregar o Ministério da Defesa ao seu líder, o atual ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, caso vença as eleições.
Na oposição, o general Eisenkot tem se destacado por seu perfil discreto e por um discurso baseado em seus dois principais pontos de combate contra Netanyahu: realizar uma investigação independente sobre as supostas negligências que levaram aos eventos de 7 de outubro de 2023 e o compromisso de obrigar os ultraortodoxos a cumprir o serviço militar.
Reconstrução de Gaza e voto árabe
Alguns temas parecem alheios à eleição em Israel: nas últimas semanas, não houve nenhuma menção à solução de dois Estados, defendida pela maior parte da comunidade internacional para resolver a questão palestina, nem à reconstrução de Gaza, onde Israel matou cerca de 74.500 palestinos desde 2023, destruiu a infraestrutura e os suprimentos continuam chegando aos poucos.
A violência perpetrada por colonos israelenses na Cisjordânia ocupada apareceu na campanha, mas somente depois que uma turba de mascarados agrediu brutalmente uma fotojornalista americana e uma delegação diplomática europeia.
Apenas a Lista Conjunta e a Lista Árabe Unida, compostas por palestinos que permaneceram em território israelense após a guerra de 1948, propõem alternativas para a ocupação da Cisjordânia e a devastação em Gaza.
As mais recentes pesquisas atribuem a ambas as listas cerca de 14 cadeiras, que serão fundamentais para a formação do governo. Embora os dois grandes blocos tenham se recusado a incluir partidos árabes em suas coalizões, diante de um cenário previsível de empate, o problema é saber qual dos dois cederá para chegar ao poder.
Como funciona o sistema eleitoral em Israel
Os cerca de 7,3 milhões de eleitores estão distribuídos em cerca de 12.000 seções eleitorais - nas últimas eleições, em novembro de 2022, a participação foi de 70,6%. Os deputados são eleitos por voto direto por meio das listas de candidatos apresentadas por cada partido. O sufrágio é proporcional integral: o número de cadeiras é distribuído de acordo com a porcentagem de votos obtidos por cada lista.
O poder legislativo israelense se encontra no parlamento (Knesset), que é composto por 120 deputados eleitos para um mandato de quatro anos. O Parlamento, no entanto, pode ser dissolvido por antecipação por meio de votação ganha por maioria simples - o que ocorre com certa frequência em Israel.
A Knesset também pode prorrogar o mandato para além dos quatro anos, tendo votos de uma maioria de 80 deputados.
Para ingressar no Parlamento, as listas devem ultrapassar um limite mínimo de 3,25% dos votos válidos, porcentagem que garante automaticamente quatro cadeiras. Se os pequenos partidos conseguirem ultrapassar o limite mínimo exigido, eles ajudam o bloco político ao qual pertencem a ganhar mais representação e influência. Por outro lado, se esses partidos não atingirem esse limite, os votos dados a eles acabam tendo menos efeito na composição do Parlamento, o que enfraquece o bloco político ao qual estão associados. Assim, o fracasso de um partido pequeno é visto como uma derrota também para os partidos maiores da mesma corrente.
Por isso, Netanyahu vem pressionando há vários dias os pequenos partidos de direita para que desistam, acusando-os de tirar os votos de que sua coalizão precisa.
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