Mais velhas e marcadas pelo tempo, como votam as mulheres do Sul?

Em uma região marcada por tradição, imigração e fortes identidades locais, eleitoras são atravessadas por uma série de fatores

2 out 2026 - 04h58

Enchentes, imigração, cidades planejadas, pequenas comunidades, grandes capitais, tradição, conservadorismo, diversidade. Há muitos elementos que compõem o tecido social do Sul do Brasil e que ajudam a formar diferentes maneiras de viver, pensar e se relacionar com a política.

  • Essa reportagem faz parte do especial Mulheres do Brasil nas urnas, que traz um Raio-X das eleitoras e candidatas nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul

Assim como em todo o País, as mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros: representam 52,84% do eleitorado nas Eleições de 2026, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas ainda são minoria entre aqueles que disputam o poder. Dos registros considerados pelo tribunal para o cálculo das eleições deste ano, 34% das candidaturas. 

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Entre o voto e a disputa por espaço político, quem é a mulher do Sul? O que ela leva em conta na hora de escolher seus representantes? Como as experiências de viver em uma região marcada por fortes identidades locais, transformações demográficas, desigualdades e diferentes visões de mundo influenciam suas escolhas?

"Não existe a mulher sulista, existem mulheres sulistas", resume Vera Gasparetto, pós-doutoranda interdisciplinar em Ciências Humanas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), doutora em Ciências Humanas e especialista em Estudos de Gênero.

Duas dessas mulheres têm 41 anos e vivem em extremos diferentes do mapa da região. Nathalia Mendes é empresária em Balneário Camboriú, Santa Catarina. Paulista, mudou-se para o Estado aos 17 anos com a família, depois de uma sequência de assaltos sofridos pelos negócios dos pais em São Paulo. É casada, mãe de dois filhos e se identifica politicamente com a direita.

Mayara Bortolotto vive em Porto Alegre há cerca de 23 anos. É casada com uma mulher, e está mais à esquerda no espectro político. Sua relação com a cidade passa pela universidade pública, pelos espaços culturais e também pela preocupação com a segurança e os direitos da população LGBT.

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Uma eleitora mais velha

Eleições 2026

Eleitorado Feminino no Sul

Total Mulheres: 12.045.359 (52,51%)
 
PR Paraná 4.519.739 eleitoras SC Santa Catarina 2.992.155 eleitoras RS Rio Grande do Sul 4.533.465 eleitoras * Toque em qualquer estado do mapa ou use as abas acima para selecionar
Dados Oficiais TSE 2026

Paraná (PR)

Capital: Curitiba

PR
Mulheres Aptas
4.519.739
52,50% do total
Homens Aptos
4.089.287
47,50% do total
Feminino: 52.5% Masculino: 47.5%
 
 
Total de Eleitores no Estado: 8.609.026

Novo maior colégio eleitoral da Região Sul e 5º maior do país. As mulheres lideram com ampla folga na capital Curitiba e nos municípios de Londrina e Maringá.

Estado (UF) Eleitoras (Mulheres) % Feminino Eleitores (Homens) Total Geral
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - Estatísticas Oficiais do Eleitorado 2026. Região Sul • 3 Estados • Brasil

Os dados de 2024 mostram uma eleitora sulista mais envelhecida do que a média observada em outras regiões. Entre as mulheres aptas a votar, 9,8% estavam na faixa de 40 a 44 anos; 8,8%, entre 45 e 49; 8,3%, entre 50 e 54; e outros 8,3%, entre 55 e 59 anos. A maior parcela era solteira, correspondendo a 50,5%.

A estrutura etária não é um detalhe. Para Tatiana Vargas-Maia, professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora de identidades políticas, democracia, autoritarismos, feminismo e gênero, o envelhecimento da população se reflete diretamente no eleitorado feminino.

"Não que isso decida ou defina o voto ou a orientação ideológica de ninguém, mas essas diferenças refletem na experiência cotidiana das pessoas" -- Tatiana Vargas-Maia

O Sul também possui uma distribuição populacional que não se limita às capitais. Pequenas e médias cidades têm peso importante na organização da vida econômica e social da região, muitas delas ligadas a atividades industriais, agroindustriais e de serviços.

Foco na economia

Para Tatiana, o fato de uma parcela significativa dos domicílios ter mulheres como principais provedoras aumenta a importância de temas como inflação, custo de vida e mercado de trabalho.

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"Se essas mulheres são as principais provedoras dos seus domicílios, elas estarão muito mais sensíveis a questões como inflação, custo de vida, acesso ao mercado de trabalho" -- Tatiana Vargas-Maia

Vera chega a uma conclusão semelhante por outro caminho. Para ela, a preocupação econômica aparece como uma "microeconomia": o preço dos alimentos, o aluguel, a remuneração do trabalho, a possibilidade de garantir uma renda mínima e proporcionar condições adequadas para os filhos.

"A microeconomia é ter acesso ao alimento, a essa renda mínima para poder ter uma vida digna e proporcionar para as crianças uma alimentação adequada."

Carga nas urnas eletrônicas
Carga nas urnas eletrônicas
Foto: CCOM

Em Balneário Camboriú, essa preocupação aparece para Nathalia sobretudo na condição de empresária. Ela afirma que um dos principais problemas brasileiros é a dificuldade de empreender diante do que chama de "insegurança jurídica".

“Você pega uma insegurança jurídica muito grande, então decidem mudar a lei, decidem mudar o imposto, decidem mudar a regra do bombeiro, você no meio do caminho, de repente, com um projeto todo vendido, você se vê com um grande problema na mão.”

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Sua experiência profissional também influencia a maneira como enxerga o papel do Estado. Ela defende redução de custos da máquina pública e diz acreditar que o governo deveria ser mais eficiente.

Mayara, por outro lado, associa a economia à garantia de condições básicas de existência. "Acho que, para a economia estar forte, as pessoas precisam ter dignidade no dia a dia para sobreviver, para prosperar, para ter acesso à educação, para ter acesso a um trabalho de qualidade, para ter acesso à saúde."

A mulher que vota não é apenas trabalhadora ou consumidora. Em muitos casos, também é quem administra a rotina de filhos, pais idosos, familiares doentes e a própria casa.

"Esse eleitorado vai estar mais atento às estruturas e infraestruturas fornecidas pelo Estado que viabilizam esse trabalho de cuidado: acesso à saúde pública, educação, lazer e serviços de manutenção da dimensão doméstica e familiar" -- Tatiana Vargas-Maia

A mulher no conservadorismo

A tradição é um dos elementos que ajudam a formar a identidade política do Sul, mas não explica sozinha o comportamento de suas eleitoras. O conservadorismo que aparece na região se mistura a fatores históricos, religiosos, culturais e econômicos. 

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Para a cientista política Tatiana Vargas-Maia, fatores como o envelhecimento da população, a composição racial e a história de imigração ajudam a compreender parte do comportamento político local. Segundo ela, Paraná e Santa Catarina apresentam uma tendência conservadora mais acentuada, enquanto o Rio Grande do Sul tem demonstrado um comportamento diferente. 

Manifestantes protestam durante a participação de Jair Bolsonaro em um debate no Teatro Dante Barone, da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul
Foto: Eduardo Soares / Estadão

Mayara relata experiência pessoal com o preconceito. Durante uma viagem à Santa Catarina, conta que visitou uma praia com sua esposa. Em determinado momento, uma mulher se aproximou e cuspiu no casal. "Eu estava abraçada na mulher que eu amo", relembra.

Esse conservadorismo, porém, não fica restrito à escolha de candidatos ou partidos. Ele também pode interferir na maneira como as mulheres são percebidas e representadas na política. Tatiana chama a atenção para um paradoxo: mulheres podem aderir a discursos conservadores e, ao chegar ao poder, defender posições que não necessariamente ampliam os direitos femininos.

São candidatas que mobilizam pautas relacionadas às mulheres, mas a partir de uma concepção tradicional dos papéis de gênero. "Elas falam de mulheres de uma maneira muito mais conservadora, valorizando papéis de gênero tradicionais."

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Em 2024, apenas 34,37% das candidaturas do Sul eram femininas. Vera aponta para outro lado da equação: partidos, financiamento, organização das campanhas e divisão do trabalho doméstico. "As mulheres precisam ser financiadas, não só ser laranjas."

O separatismo

Movimento 'O Sul é meu País' defende que Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná se separem do resto do Brasil
Foto: Divulgação

Na avaliação da cientista social, a combinação entre essa herança, a composição demográfica e o desenvolvimento econômico de parte da região pode produzir uma percepção de distinção em relação ao restante do País. Diante de políticas progressistas e da ampliação da atuação do Estado, isso pode gerar "frustração, ressentimento ou percepção de injustiça", explica.

Tatiana lembra que movimentos como o "O Sul é Meu País" defendem a ideia de que Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul constituiriam uma região diferenciada do restante do Brasil por sua história de imigração e desenvolvimento econômico.

O discurso, segundo ela, perdeu visibilidade nos últimos anos, mas isso não significa necessariamente que todas as ideias associadas a ele tenham desaparecido.

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A questão da sustentabilidade

No Rio Grande do Sul, existe ainda uma experiência recente que atravessa todas essas questões: a enchente de 2024. As chuvas daquele ano provocaram inundações em centenas de municípios e alteraram a rotina de milhares de famílias.

 "Quando volta a chover, essas pessoas ficam mais preocupadas porque é uma preocupação bastante racional: o que acontece se observarmos novamente uma emergência climática que provoque danos similares aos de 2024, quando sequer conseguimos reconstruir o que perdemos?" -- Tatiana Vargas-Maia

Alagamento no Rio Grande do Sul, em 2024
Foto: Agência Brasil | Divulgação

Mayara viveu parte desse impacto de maneira indireta e acompanha as consequências no Estado. Ela conta que recentemente ficou no interior do Rio Grande do Sul e não conseguiu voltar por causa de uma estrada interrompida e de uma barragem danificada. Para ela, as enchentes também modificaram a discussão sobre a atuação do poder público.

"Eu acho que tem um movimento que é ensejado por causa dessa urgência, a partir de 2024, eue é perceber que nós não estamos isolados."

Fonte: Portal Terra
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