Improvável, mas não impossível: quais as chances de Lula obter virada histórica no segundo turno

Petista ficou em segundo lugar na votação deste ano, mas com a menor diferença já registrada entre o primeiro colocado

7 out 2026 - 06h23
(atualizado às 08h07)
Resumo
Lula busca uma virada inédita no segundo turno presidencial contra Flávio Bolsonaro, que liderou com vantagem histórica de apenas 1,9% (2,2 milhões de votos). Especialistas apontam que a missão é improvável pelo curto prazo e a força do bolsonarismo, mas não impossível. O petista aposta no uso da máquina pública e no alto índice de abstenção (21,08%), embora a migração de votos e apoios de ex-adversários à direita favoreçam a consolidação eleitoral de seu concorrente.
Lula obteve 2,2 milhões de votos a menos do que Flávio Bolsonaro no primeiro turno
Lula obteve 2,2 milhões de votos a menos do que Flávio Bolsonaro no primeiro turno
Foto: DW / Deutsche Welle

Segundo colocado no primeiro turno das eleições deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta o duro desafio de obter uma virada histórica nas urnas. Desde a redemocratização, nunca houve uma mudança desse tipo no fim da corrida presidencial.

Lula tem um ponto a favor quando comparado a candidatos que também terminaram o primeiro turno em segundo lugar anteriormente: ele encerrou essa fase da disputa presidencial com 2,2 milhões de votos a menos do que Flávio Bolsonaro (PL), uma diferença de 1,9%. É a menor diferença entre dois candidatos à Presidência no primeiro turno desde 1989, quando o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas.

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"Embora nunca tenha havido uma virada de segundo turno em eleições presidenciais no Brasil, também nunca houve uma diferença tão pequena", avalia o cientista político Leonardo Martins Barbosa, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Para especialistas ouvidos pela reportagem, o presidente tem uma "missão improvável" pela frente. "Mas não é impossível", destaca o cientista político Creomar de Souza, professor da Fundação Dom Cabral.

Afinal, Lula atualmente tem uma situação mais favorável que segundos colocados de disputas anteriores?

Os percalços do segundo lugar

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A pouca diferença entre os primeiros colocados na disputa é um item destacado pelos especialistas ao avaliar aspectos positivos no segundo turno para Lula. Outro ponto é o recorde de abstenção, que alcançou 33,4 milhões de eleitores, o equivalente a 21,08% do eleitorado apto a votar.

"Em termos numéricos, o Lula está com vantagem [em comparação a eleições anteriores], porque ele tem, por exemplo, uma diferença muito menor do que o Jair Bolsonaro tinha dele no primeiro turno em 2022. Mas talvez seja a única diferença. Lula e Bolsonaro foram mandatários que estavam no poder, mas nenhum conseguiu se projetar à frente na disputa", diz a cientista política Luciana Fernandes Veiga, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O atual cargo de presidente pode ser um diferencial na busca da vitória no segundo turno para Lula, avalia Barbosa. "Ele tem o uso da máquina, e vimos que isso pode ser um fato relevante mesmo em tempos digitais. Em 2022, por exemplo, o ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu diminuir significativamente a diferença para o Lula, que então estava na oposição, fazendo isso ao longo do segundo turno."

A força que Flávio demonstrou nas urnas, diz Barbosa, dificulta o futuro de Lula na Presidência do país. "O Flávio teve um desempenho acima do esperado. Terminou na frente do Lula. Vindo como candidato da oposição, ele está demonstrando uma força enorme. E eu penso que não apenas o desempenho dele foi melhor do que o do pai em 2022, como a direção geral das eleições está mostrando o crescimento do bolsonarismo no país."

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O atual presidente tem poucos dias para mudar o cenário a seu favor, lembra Souza. "Qual é a dificuldade nesse processo? É que, basicamente, precisa ser feito em um espaço de tempo muito curto, de menos de 20 dias, para a campanha alcançar grupos que não alcançou até aqui ou que, em algum sentido, foram suavemente perdidos durante esse primeiro turno."

O fator abstenção

A abstenção é citada por especialistas como uma possível esperança de melhora no desempenho de Lula no segundo turno. Mas parte dela também pode migrar para o adversário do petista.

"Esse nível de abstenção significa dizer que você tem alguma esperança, porque tem um estoque de votos alto. Lembrando que o Flávio também vai potencialmente ter um número maior de votos", diz Souza.

O apoio daqueles que não votaram é parte das metas dos candidatos no segundo turno. "Eu não acho que a abstenção seja tão fácil de tocar via campanha de um candidato, porque ela é histórica. As pessoas sabiam dos candidatos, elas já passaram por esses embates antes e podem ter, por diferentes motivos, decidido se abster", ressalta Veiga.

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A cientista política não acredita que haverá mudança considerável na ausência de eleitores no segundo turno. Na eleição presidencial passada, por exemplo, a diferença de abstenção foi pouca: caiu de 32,7 milhões de eleitores no primeiro turno (20,95%) para 32,2 milhões no segundo (20,59%).

O apoio de ex-adversários

Uma estratégia tradicional no segundo turno é buscar o apoio de candidatos derrotados, para tentar ampliar a coalizão política e alcançar parte do eleitorado. Neste ano, porém, os candidatos Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), que obtiveram respectivamente 2,89% e 2,24% votos, disseram que não vão apoiar nem Lula e nem Flávio.

Já Ronaldo Caiado (PSD), que obteve 2,18%, e Romeu Zema (Novo), que obteve 0,27%, manifestaram apoio ao bolsonarista. Os especialistas avaliam que, enquanto os nomes de Caiado e Zema podem ajudar a fortalecer a candidatura de Flávio, as ausências de Cury e Santos podem favorecer Lula.

"Ao não ter a dinâmica de que são todos contra o Lula, o Lula pode dizer: 'Olha, o Flávio não é um candidato tão bom à direita, porque, se ele fosse bom mesmo, esses outros caras que estão se colocando como direita estariam no palanque dele'", afirma Souza.

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Já Veiga avalia que os eleitores de Renan e Cury têm tendência a seguir com o filho de Jair Bolsonaro. "Eleitores de Caiado, Cury e Santos escolheram não votar em Flávio no primeiro turno, aproveitando o sistema de dois turnos: no primeiro, vota-se em quem se vê representado. O voto útil, para evitar o que mais se rejeita, fica para o segundo. Ao final, dizem: 'Nem Lula nem Flávio são meus preferidos'. Muitos, no entanto, já sabiam que, em um segundo turno, tenderiam a votar em Flávio, pela proximidade ideológica."

Para ela, o primeiro turno presidencial deste ano vai muito além de 1,9% de diferença de votos entre Lula e Flávio. "Não são apenas 2,2 milhões de votos a menos para Lula. O PL elegeu 121 deputados federais e 19 senadores. Foi uma vitória muito avassaladora para reduzirmos a análise a esses 2,2 milhões de votos", afirma.

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