O novo início de carreira na era da inteligência artificial

Se a porta de entrada do mercado de trabalho está mudando, precisamos construir novos caminhos para que os jovens cheguem até ela

25 set 2026 - 09h57
(atualizado às 10h00)
O novo início de carreira na era da inteligência artificial
O novo início de carreira na era da inteligência artificial
Foto: Google Gemini

O Brasil vive uma contradição difícil de ignorar. Enquanto milhões de jovens ainda enfrentam dificuldades para acessar oportunidades de estudo e trabalho, setores estratégicos da economia relatam escassez de profissionais qualificados. Em tecnologia, por exemplo, a demanda por talentos cresce há anos em ritmo superior à formação de novos profissionais. Dados da Brasscom indicam que, entre 2019 e 2024, o país acumulou um déficit superior a 200 mil profissionais de TIC. A demanda por talentos no setor superou a formação em mais de 30%, resultado de 665 mil vagas frente à formação de aproximadamente 465 mil profissionais. Garantir que mais jovens desenvolvam as habilidades necessárias para acessar essas posições tornou-se um desafio cada vez mais urgente.

Com a chegada da inteligência artificial, mais uma camada foi adicionada a esse cenário. Se muitas das atividades tradicionalmente associadas ao início da carreira podem ser automatizadas, como os jovens vão construir experiência profissional? A preocupação é legítima. Durante muito tempo, o ingresso no mercado de trabalho aconteceu por meio de funções mais operacionais. Era nesse espaço que os jovens aprendiam na prática, desenvolviam repertório e ganhavam autonomia para assumir responsabilidades maiores. Hoje, parte dessas tarefas já pode ser realizada por ferramentas de inteligência artificial. Uma pesquisa inicial, um texto simples, uma análise básica de dados ou até partes da programação podem ser executados em poucos segundos.

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Neste contexto, garantir que mais jovens desenvolvam as habilidades demandadas pelo mercado tornou-se um dos principais desafios para transformar oportunidades em inserção profissional. Enquanto 8,2 milhões de jovens entre 15 e 29 anos estão fora da escola e do trabalho, o setor de tecnologia enfrenta escassez de profissionais qualificados. Esses números mostram que o desafio vai além da criação ou ausência de vagas, trata-se de conectar os jovens às oportunidades que estão sendo criadas.

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial está transformando o perfil profissional valorizado pelo mercado. Nota técnica recente da Fundação Telefônica Vivo sobre inteligência artificial e futuro do trabalho mostra que pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas complexos, capacidade de verificar respostas produzidas por IA e competências socioemocionais estão entre as habilidades mais importantes para os próximos anos. Em outras palavras, o valor do profissional passa a depender menos da execução mecânica de tarefas e mais da sua capacidade de analisar informações, interpretar contextos, tomar decisões e trabalhar em colaboração com outras pessoas e com a própria tecnologia.

Apesar das transformações trazidas pela inteligência artificial, as portas de entrada não desapareceram. Pesquisa da Brasscom mostra que 82% das empresas de TIC pretendem ampliar suas equipes nos próximos dois anos e que quase metade das vagas previstas será destinada a posições de entrada. Ao mesmo tempo, a formação técnica, as competências socioemocionais e a capacidade de aprender continuamente estão entre os fatores mais valorizados pelas empresas na contratação de jovens.

É justamente nesse contexto que a Educação Profissional e Tecnológica pode fazer a diferença. Se a experiência profissional está mais difícil de ser adquirida por meio das funções tradicionais de entrada, a escola precisa assumir um papel maior no desenvolvimento dessas habilidades. A EPT permite que os estudantes tenham contato com projetos reais, tecnologia, resolução de problemas e situações próximas às que encontrarão no mundo do trabalho, mesmo antes do primeiro emprego. Ao aproximar a educação da prática e das demandas concretas do mercado, ela pode ajudar a transformar oportunidades potenciais em trajetórias profissionais reais.

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Essa mudança também exige rever a forma como ensinamos e avaliamos. Se uma ferramenta já consegue produzir muitas respostas, a escola precisa valorizar mais a investigação, o raciocínio, a resolução de problemas, o trabalho colaborativo e a capacidade de aplicar conhecimento em situações reais. Formar para o mercado de trabalho na era da IA significa preparar os estudantes para pensar, criar, analisar e aprender continuamente.

Há ainda uma questão que não pode ser ignorada. Os impactos da transformação tecnológica tendem a ser mais difíceis para quem já enfrenta barreiras educacionais e sociais. Entre os jovens fora da escola e do trabalho, a proporção é significativamente maior entre mulheres e também entre jovens pretos e pardos. Além disso, as mulheres representam apenas cerca de 23% dos matriculados e concluintes em cursos de Computação e TIC. Por isso, a ampliação das desigualdades merece tanta atenção quanto os impactos da IA sobre o emprego. Jovens que tiverem acesso às novas habilidades demandadas pelo mercado estarão mais preparados para aproveitar as oportunidades que surgem; os demais correm o risco de ficar à margem dessa transição.

No debate sobre Educação Profissional e Tecnológica, a discussão é como preparar os jovens para um mercado de trabalho cada vez mais influenciado pela inteligência artificial. Isso exige ampliar o acesso à EPT, fortalecer percursos formativos conectados às transformações do mercado e garantir que estudantes de diferentes realidades tenham oportunidades de desenvolver competências digitais, técnicas e socioemocionais. Se a porta de entrada do mercado de trabalho está mudando, precisamos construir novos caminhos para que os jovens cheguem até ela. E a Educação Profissional e Tecnológica é uma das ferramentas mais importantes que temos para fazer isso.

Diretora-presidente da Fundação Telefônica Vivo. Formada em Administração Pública pela FGV-EAESP e com mestrado na área de Desenvolvimento Econômico e Político pela SIPA-Columbia University. Na Fundação Telefônica Vivo, já liderou a área de Educação, promovendo iniciativas inovadoras e o uso de tecnologia para apoiar o desenvolvimento de crianças e jovens. As opiniões da colunista não representam a visão do Terra.
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