Os resultados do PISA 2025, divulgados recentemente pela OCDE, trouxeram novas reflexões para o debate educacional. Pela primeira vez, a avaliação mediu a capacidade dos estudantes de aprender e resolver problemas em ambientes digitais, como por exem
plo a capacidade de investigar informações, analisar dados e construir conhecimento com o apoio de ferramentas digitais. O Brasil ficou com 406 pontos, abaixo da média da OCDE, de 500.
A inteligência artificial já é realidade na rotina das escolas. Entre os jovens brasileiros de 15 anos, 48% afirmam usar chatbots de IA pelo menos uma vez por semana, percentual semelhante ao observado nos países da OCDE. Quatro em cada dez utilizam essas ferramentas para pesquisas iniciais sobre novos temas. Outros 31% recorrem à IA para resumir textos, enquanto 27% a utilizam na elaboração de trabalhos escritos. Diante desse cenário, a discussão já não gira em torno de permitir ou não a entrada da inteligência artificial na escola, mas de orientar seu uso de forma alinhada aos objetivos educacionais. É nesse contexto que ganha relevância também a recente aprovação das Diretrizes Orientadoras para o Uso da Inteligência Artificial na Educação Brasileira pelo Conselho Nacional de Educação, que propõem avaliar a IA a partir de seus impactos sobre o desenvolvimento dos alunos e dos riscos envolvidos, não apenas da tecnologia em si.
Os resultados do módulo de Aprendizagem no Mundo Digital do PISA ajudam a dimensionar essa questão. Embora a IA já esteja incorporada ao cotidiano dos estudantes, os indicadores mostram que uma parcela significativa deles ainda enfrenta dificuldades para desenvolver competências básicas. Em Matemática, apenas 28% alcançaram o nível mínimo de proficiência considerado adequado pela OCDE. Em Ciências, esse percentual chegou a 48%, ambos abaixo da média dos países desenvolvidos. Essa diferença sugere que a familiaridade com ferramentas digitais não se traduz em melhores condições para aprender.
O próprio PISA mostra ainda que o contexto em que a tecnologia é utilizada faz diferença. No Brasil, estudantes que relatam distrações frequentes causadas por dispositivos digitais durante as aulas de Ciências obtiveram, em média, 19 pontos a menos do que colegas que não relataram esse tipo de situação, mesmo após ajustes estatísticos relacionados ao perfil socioeconômico. A informação não permite concluir que exista uma relação direta de causa e efeito, mas reforça a importância da mediação pedagógica e da intencionalidade no uso dessas ferramentas.
Em conjunto, esses resultados indicam que a discussão sobre inteligência artificial precisa ser feita levando em conta os desafios educacionais que já existiam antes dela. Quando muitos estudantes ainda têm dificuldades para interpretar informações, construir argumentos ou resolver problemas, o uso de ferramentas capazes de fornecer respostas prontas exige atenção redobrada, ou seja, o desafio é menos tecnológico e mais pedagógico.
Essa preocupação apareceu também no painel Aprendendo a Ser Humano, realizado durante o Encontro Futuro Vivo, em São Paulo, no início do mês. Apesar das diferentes abordagens apresentadas pelos especialistas, houve convergência em um ponto: o valor da tecnologia deve ser medido por sua contribuição ao desenvolvimento humano, e não apenas pela eficiência que oferece. Ao realizar um exercício de redação, por exemplo, o estudante não deveria ter foco apenas na eficiência de entregar um texto pronto – o que seria facilmente realizado com uma ferramenta de IA. O processo envolve formular ideias e mobilizar seu repertório, organizar argumentos, revisar raciocínios e aprender a partir de erros e devolutivas. É justamente nesse percurso que se desenvolvem habilidades cognitivas essenciais que o estudante precisa desenvolver.
Talvez essa seja uma das mensagens mais relevantes trazidas pelos resultados deste ano. O desafio da educação digital não é fazer com que os estudantes usem tecnologia, porque isso já acontece. O desafio é ajudá-los a utilizá-la de forma crítica, responsável e produtiva. As tecnologias seguirão evoluindo em ritmo acelerado e seguirão transformando a forma como estudamos, trabalhamos e nos comunicamos.
Por isso, a discussão sobre inteligência artificial na escola deve começar pelas necessidades de crianças e jovens e uma reflexão sobre a escola que precisamos para um mundo que já está em rápida transformação. As ferramentas continuarão mudando, mas a missão da educação permanece a mesma: formar pessoas capazes de compreender o mundo, pensar com autonomia e continuar aprendendo ao longo da vida.