O que estão compartilhando: que documentos da CIA divulgados pelo governo dos Estados Unidos teriam comprovado que o sistema da empresa Smartmatic foi utilizado para fraudar eleições na Venezuela. A mesma empresa teria atuado no Brasil nas eleições de 2022.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A Smartmatic nunca forneceu urnas eletrônicas ou softwares para serem utilizados nos equipamentos de votação do Brasil. A empresa atuou nas eleições brasileiras de 2012, 2014 e 2016. Não houve prestação de serviços em 2022. Conforme nota publicada pelo TSE em 2020 e atualizada recentemente, o desenvolvimento das urnas eletrônicas e do sistema é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral.
Além disso, o relatório divulgado pela Casa Branca não confirma que houve manipulação em eleições na Venezuela com o uso do sistema da empresa de tecnologia. No documento, a inteligência americana afirma que "não confirmou definitivamente que uma fraude eletrônica em grande escala foi executada com sucesso em eleições específicas na Venezuela".
Saiba mais: O vídeo analisado pelo Verifica foi publicado no dia 17 de julho no Facebook e teve 745 mil visualizações. O autor é o pré-candidato a deputado federal Eduardo Borgo. Ele foi procurado, mas não respondeu.
Nesta terça-feira, 21, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) utilizou o mesmo relatório da CIA para repetir a alegação falsa sobre a Smartmatic durante um encontro com embaixadores estrangeiros.
Na última quinta-feira, 16, a Casa Branca retirou o sigilo de um relatório de inteligência que trata sobre a capacidade do governo da Venezuela de manipular o sistema eletrônico de votação. O documento resume investigações conduzidas pela CIA entre 2004 e 2020 e reúne informações sobre relatos de planos para manipular os resultados de eleições em 2012 e 2020.
O vídeo verificado distorce o conteúdo do relatório ao afirmar que a inteligência americana teria confirmado a ocorrência de fraude nas eleições venezuelanas por meio do sistema da Smartmatic, e ao sugerir que o mesmo pode ter acontecido no Brasil devido a atuação da empresa no País.
É falso que USAID tenha financiado Smartmatic para atuar nas eleições de 2022
Empresa Smartmatic não tem acesso a programa das urnas; software é desenvolvido e gerido pela Justiça Eleitoral
O que é a Smartmatic?
A Smartmatic é uma multinacional especializada em soluções tecnológicas, tendo como um dos ramos de atuação os projetos eleitorais. A empresa esteve envolvida em eleições na Venezuela de 2004 a 2017, e encerrou as atividades no país após ela própria denunciar a suspeita de fraude na divulgação oficial dos resultados por parte da Comissão Eleitoral da Venezuela nas eleições de 2017.
No Brasil, a Smartmatic já celebrou contratos com o TSE para as eleições de 2012, 2014 e 2016. Nestes pleitos, a empresa prestou serviço de conexão de dados e voz em Estados isolados do Brasil.
Em 2012, a empresa também atuou em serviços de suporte, como manutenção preventiva contínua. Em nenhuma das ocasiões houve atuação para o desenvolvimento da urna eletrônica.
Em 2020, a Smartmatic participou da licitação para a fabricação de urnas eletrônicas, mas perdeu para a empresa Positivo.
O que diz o relatório divulgado pela Casa Branca?
Ao contrário do que afirma o autor do vídeo verificado, o documento não confirma que tenha ocorrido manipulação de votos na Venezuela. Embora mencione vulnerabilidades relacionadas ao sistema eletrônico de votação e relatos de planos para manipular resultados eleitorais, a avaliação da CIA se limita a afirmar que essas ações eram "tecnicamente possíveis e operacionalmente viáveis".
"Embora os analistas da CIA julgassem que essas capacidades eram teoricamente alcançáveis, essa avaliação se concentrava na viabilidade técnica em vez de confirmar que tais recursos foram realmente implementados", informa o relatório.
A inteligência americana também concluiu que o governo venezuelano e Smartmatic não tinham capacidade para manipular o resultado de uma eleição fora do país. "Nem a Smartmatic nem o governo venezuelano tinham a capacidade - isto é, o nível de controle ou acesso necessário - para manipular o resultado de uma eleição fora da Venezuela de maneira previsível".