Maioria dos trabalhadores da BYD na Bahia é brasileira; vídeos enganam ao falar em 'cidade chinesa'

GOVERNO DA BAHIA INFORMOU QUE 93% DA MÃO DE OBRA NO COMPLEXO INDUSTRIAL EM CAMAÇARI ERA NACIONAL

18 mar 2026 - 14h15

O que estão compartilhando: vídeos mostram a construção de um complexo residencial pela empresa BYD em Camaçari, na Bahia. As postagens alegam que não há brasileiros empregados pela montadora chinesa. Um dos posts afirma que 4 mil chineses irão morar nos prédios. Outro aumenta esse número para 10 mil migrantes.

Fábrica da BYD na Bahia emprega maioria de brasileiros
Fábrica da BYD na Bahia emprega maioria de brasileiros
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A montadora de carros informou que emprega, atualmente, cerca de 3.200 trabalhadores brasileiros no complexo de Camaçari. A maior parte deles, conforme a multinacional chinesa, atua na linha de montagem da fábrica. Além disso, as obras de construção são executadas por empresas contratadas que empregam outros 3.700 brasileiros. Somados, os postos diretos e indiretos empregam, atualmente, 6.900 brasileiros.

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A BYD negou ter a intenção de trazer 10 mil trabalhadores chineses para Camaçari e informou que o complexo residencial em construção foi planejado como alojamento para brasileiros.

De acordo com o governo da Bahia, o contrato firmado entre o Estado e a BYD para instalação da fábrica em Camaçari determina que a multinacional priorize a contratação de mão de obra local. O percentual mínimo obrigatório é de 70% de trabalhadores brasileiros. No final de 2025, 93% do contingente da fábrica era composto por mão de obra nacional.

Saiba mais: em um dos vídeos checados, um homem afirma que o governo trouxe a BYD para incentivar o desenvolvimento do Brasil, mas que a empresa não teria contratado brasileiros. Em outro, um homem diz que os prédios em construção vão abrigar 10 mil chineses. "Você traz a BYD com 30 anos de isenção de impostos, R$ 5 bilhões de ajuda e nosso povo desempregado. É uma cidade chinesa", afirma.

BYD tem anunciado vagas para contratação de mão de obra local

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A BYD divulgou diversos anúncios de postos de trabalho para brasileiros. Em julho do ano passado, por exemplo, a montadora anunciou que abriria 3 mil vagas de emprego para a fábrica. Em seguida, 508 posições foram disponibilizadas na plataforma SineBahia e no Centro de Integração e Apoio ao Trabalhador (CIAT) de Camaçari. A montadora informou que já estava em processo de contratação de aproximadamente 500 empregados.

Em agosto, a BYD anunciou a meta de alcançar mais de 50% de nacionalização de partes e peças até 2027 e lançou a campanha "BYD quer conhecer você" para selecionar fornecedores brasileiros e desenvolver uma cadeia local de suprimentos.

A fábrica foi inaugurada em outubro, quando a primeira das 26 instalações do complexo industrial foi colocada em operação. Naquele momento, a empresa divulgou que empregava mais de 1,5 mil colaboradores. Em dezembro, quando a multinacional anunciou ter ultrapassado a marca de 2 mil trabalhadores na fábrica, o presidente da empresa no Brasil, Tyler Li, afirmou que cada nova contratação representa "a oportunidade de gerar impacto positivo na vida das pessoas e no desenvolvimento de Camaçari e da Bahia".

O site da montadora informado que mais oportunidades estão por vir e que os interessados em trabalhar no local podem se candidatar a vagas de trabalho por meio do SineBahia, do CIAT ou pela plataforma Gupy. Nesse site, eram oferecidas 70 vagas nesta quarta, 18.

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Na semana passada, a empresa anunciou que vai abrir mais 3 mil vagas nos próximos meses. "Com isso, o número de trabalhadores brasileiros no complexo deverá chegar a 10 mil ainda em 2026", informou.

A BYD acrescentou que a prioridade é a contratação de mão de obra local. "A previsão é da criação de pelo menos 20 mil empregos diretos e indiretos para brasileiros", afirmou.

Também há funcionários chineses em Camaçari. Sem informar quantos, a empresa informou à reportagem que "a presença de profissionais chineses ocorre de forma estratégica, para apoio técnico à implantação do complexo industrial, treinamento necessário para projetos industriais dessa dimensão e pela experiência destes profissionais com a tecnologia da primeira fábrica de veículos elétricos que está sendo implantada na Bahia".

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Contrato com governo da Bahia obriga empresa a contratar funcionários locais

O governo da Bahia informou que o contrato assinado entre a administração estadual e a montadora prevê a geração de 10 mil empregos diretos até o ano de 2028 na região.

Em 2025, quando a BYD começou a produzir em Camaçari, a empresa criou 4.409 empregos diretos e terceirizados na planta industrial, segundo o governo. Esse número ultrapassa a meta contratual prevista para o período, de 3.500 postos de trabalho.

Com base no Programa Especial de Incentivo ao Setor Automotivo da Bahia (Proauto), o Estado concedeu à BYD crédito presumido de 98% do saldo devedor do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do primeiro ao sexto ano de operação, e de 90% a partir do sétimo ano. O crédito é limitado a 2032.

Outro benefício concedido à montadora chinesa é o adiamento do prazo de pagamento do imposto nas aquisições de bens destinados à implantação do complexo industrial. Essa medida vigora até 2032, quando o ICMS deixará de existir em função do cronograma de implantação da reforma tributária.

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Os "R$ 5 bilhões de ajuda" citados no vídeo não se referem a valores empregados pelos governos da Bahia ou federal na fábrica. Essa é o valor investido pela empresa na implementação da estrutura industrial.

Empresa empregou chineses em situação de trabalho análogo à escravidão

Um dos vídeos analisados pelo Verifica diz que a "cidade chinesa" estava levantando denúncias de trabalho escravo.

De fato, o jornal americano Washington Post publicou uma reportagem denunciando condições de trabalho degradantes e possíveis práticas de trabalho análogo à escravidão envolvendo operários chineses ligados às obras do complexo industrial.

O caso, contudo, não é recente, e nem veio à tona agora. Em dezembro de 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) informou que uma força-tarefa resgatou 163 trabalhadores em situação de vulnerabilidade no canteiro de obras da BYD e em alojamentos de empresas prestadoras de serviços. Na mesma ação, foram identificados, ao todo, 471 trabalhadores chineses trazidos de forma irregular ao Brasil

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Em junho do ano passado, o órgão informou que a BYD foi autuada por submeter trabalhadores chineses a condições análogas à escravidão na Bahia. Conforme o MPT, entre dezembro de 2024 e maio de 2025 uma série de diligências fiscais foram realizadas na cidade, com inspeções na obra e nos alojamentos dos trabalhadores migrantes.

Nos meses seguintes, a Auditoria Fiscal prosseguiu com a coleta de depoimentos, análise de documentos apresentados pelas empresas envolvidas e outras medidas investigativas. Essa investigação concluiu que a BYD teve responsabilidade direta pela vinda irregular dos trabalhadores chineses, embora a empresa tenha apresentado contratos de prestação de serviços com outras empresas.

Em dezembro, como noticiado pelo Jornal do Carro, a montadora e duas empreiteiras fecharam um acordo judicial de R$ 40 milhões com o Ministério Público do Trabalho (MPT). O valor total será dividido entre indenizações individuais e coletivas.

Além de abordar esse contexto, a reportagem do Washington Post destaca que, após a BYD anunciar que havia escolhido Camaçari como plataforma de lançamento para as Américas, autoridades estaduais e federais brasileiras comemoraram, prometendo ajudar a concretizar as ambições da montadora.

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Em contrapartida, a empresa chinesa prometeu trazer empregos à cidade e priorizar empresas regionais na construção do projeto, mas recorreu a empresas de construção chinesas.

Por outro lado, a reportagem demonstra que há trabalhadores brasileiros atuando na montadora. O texto cita, por exemplo, um episódio registrado em dezembro de 2025, com a montadora já em funcionamento. Na ocasião, operários do Brasil que trabalhavam sob o comando de gerentes chineses fizeram oito dias de protestos por melhorias.

Isso também foi noticiado pela imprensa brasileira à época dos fatos. Conforme o jornal Correio, da Bahia, cerca de 2 mil trabalhadores paralisaram as atividades. Eles prestavam serviços para empresas terceirizadas para a construção da montadora.

Entre as reivindicações estavam melhores condições de trabalho, como ampliação do refeitório, reforço no transporte de funcionários e aumento da quantidade de banheiros. Os protestos de brasileiros também foram noticiados pelos portais Poder360, ICL Notícias e Alma Preta.

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