A eleição de 2026 consolidou o avanço da direita com o recorde do PL, que obteve 121 deputados e virou a maior força da Câmara, ampliando seu poder sobre o orçamento e o Executivo em detrimento do Centrão. A nova legislatura registrou a menor taxa de renovação em mais de vinte anos (42,7%), além de bater recordes na eleição de mulheres (109 assentos) e de parlamentares milionários, que agora representam quase 60% da Casa, mantendo a média de idade e a composição racial praticamente estáveis.
Com bancada recorde de 121 deputados, o PL se torna a maior força da Casa. A legislatura também registra a menor renovação em mais de duas décadas e um número histórico de mulheres eleitas.O pleito de 2026 entrou para história neste domingo (04/10) ao sacramentar o recorde obtido pelo PL, partido do presidenciável Flávio Bolsonaro, que conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados. Trata-se do maior avanço já registrado por um partido de oposição e de mais um sinal da consolidação da direita no Congresso Nacional.
Enquanto, no Senado, os partidos ligados ao bolsonarismo terão força inédita para influenciar a composição do Supremo Tribunal Federal (STF), o peso do PL na Câmara mais poderosa da história democrática do país dará à legenda influência sem precedentes sobre o próximo presidente eleito.
Isso porque cabe aos deputados não apenas debater, elaborar e votar projetos de lei, mas também definir as leis orçamentárias anuais e o destino de cerca de um quinto das despesas discricionárias da União, por meio das emendas parlamentares. Em 2027, tais emendas podem chegar a R$ 57,5 bilhões, sendo R$ 44,4 bilhões impositivos, ou seja, que o governo é obrigado a pagar. Além disso, um poder cada vez mais relevante estará nas mãos do próximo presidente da Câmara: decidir sobre o andamento dos pedidos de impeachment contra o chefe do Executivo.
Também passa pela Câmara o destino do Fundo Partidário, de cerca de R$ 1 bilhão ao ano, e do Fundo Eleitoral, de R$ 5 bilhões.
PL avança sobre o Centrão
Se o crescimento contínuo do Centrão já vinha ampliando a capacidade de pressão do Legislativo sobre o Executivo e dando à Câmara a palavra final em diversas negociações, a ascensão da direita pode levar esse poder acumulado a um novo patamar. Em 2022, o PL já havia alcançado um recorde de 99 deputados, mas ainda era a segunda maior força da Casa, atrás da federação União Brasil-PP, que levou 106 parlamentares a Brasília. Isso foi suficiente para que as siglas ampliassem seu espaço de negociação com o governo e chegassem a ocupar ministérios.
Agora, o grupo político de Bolsonaro avança sobre o Centrão, que diminui sua participação na Casa, ainda que o núcleo formado por PP, União Brasil e Republicanos some 128 cadeiras na Câmara e possa garantir a um futuro governo ampla margem para aprovar suas prioridades. Nas últimas eleições, esses partidos têm atuado ao lado dos vencedores e tiveram papel central na condução da agenda do Congresso.
No novo cenário, um eventual governo Lula deve enfrentar um Congresso praticamente hostil à sua agenda e que, ao lado do Senado, terá poder para dar a palavra final sobre projetos de lei. Se, desde a redemocratização, a caneta presidencial costumava ter maior peso decisório, levantamento da DW mostra que o Congresso está cada vez mais disposto a derrubar vetos do Executivo.
As derrubadas atingiram um recorde proporcional durante o governo Lula, com mais da metade de seus vetos rechaçados pelo Congresso. Já no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, alcançaram um recorde em números absolutos. Ambos governaram sob forte influência do Centrão. Já em um eventual governo Flávio Bolsonaro, que saiu na frente no primeiro turno, a tendência é encontrar uma Câmara mais alinhada à sua agenda.
Como ficou a nova composição da Câmara
Na nova composição da Câmara, o PL ganhou 22 cadeiras e chegou a 121 deputados, ante 99 na legislatura anterior. A federação PT-PCdoB-PV avançou sete cadeiras, chegando a 88 parlamentares. Já a federação União Brasil-PP ficou com 87 deputados, 19 a menos do que há quatro anos. Em seguida aparecem PSD, com 43 cadeiras; Republicanos, com 41; MDB, com 36; Podemos, com 27; PSB, com 15; federação PSOL-Rede, com 15; e federação PSDB-Cidadania, com 11. O Novo, com dez deputados, completa a lista dos partidos com representação de dois dígitos. Solidariedade, PV, PDT, Avante, Rede e Missão não alcançaram dez cadeiras, mas elegeram representantes.
Para alcançar maioria absoluta na Câmara, são necessárias 257 cadeiras. A aprovação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) exige 308 votos. Já a autorização para abertura de um processo de impeachment contra o presidente da República requer 342 votos, enquanto a derrubada de um veto presidencial depende de 257 parlamentares.
A capacidade do Congresso de travar pautas do governo ou usar o impeachment como instrumento de pressão ficou evidente na última legislatura, durante os embates entre Lula e o presidente da Câmara, Hugo Motta, em torno da tramitação de diversos projetos de lei, como o PL da Anistia e o aumento do IOF, e da distribuição de emendas parlamentares.
O poder da Casa, portanto, vai muito além da votação de projetos de lei. A instalação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) também tem sido um dos principais instrumentos de pressão sobre o Executivo.
Renovação é a menor da série histórica
A renovação da Câmara dos Deputados em 2026 foi a menor da série histórica. Apenas 42,7% dos eleitos não exerciam mandato na legislatura anterior, o equivalente a 219 deputados. Desses, 33 já haviam ocupado cargos eletivos na Casa em outros períodos. O índice vem caindo desde 2018, quando a renovação atingiu o recorde de 53%, e é o menor desde 2002. O levantamento foi feito pela DW com base em dados da Justiça Eleitoral
Tocantins (75%) e Espírito Santo (70%) foram os estados com maior renovação de suas bancadas, enquanto Paraíba e Sergipe (25%) figuram entre os que mais apostaram em nomes já conhecidos do eleitorado.
Os deputados Cláudio Cajado (PP-BA) e Arlindo Chinaglia (PT-SP) seguem como recordista de mandatos consecutivos, com nove eleições seguidas. Eles venceram todas as disputas desde 1994.
Entre os 513 deputados eleitos, apenas 41 não tentaram a reeleição nem concorreram a outro cargo. Por outro lado, a participação feminina atingiu um recorde histórico: 109 deputadas foram eleitas, o equivalente a 21,2% da Câmara, acima dos 17,7% da legislatura anterior. Em relação a raça e cor, a composição mudou pouco em comparação com 2022: foram eleitos 373 deputados brancos, 105 pardos, 30 pretos, três indígenas, um amarelo e um sem informação. Com quatro representantes a mais do que em 2022, o número de autodeclarados pretos é o maior já registrado. Ainda assim, a participação conjunta de pretos e pardos permanece praticamente estagnada.
Cresce o número de milionários
A Câmara também não rejuvenesceu. A média de idade dos eleitos ficou em 50,1 anos, dentro do padrão observado desde 1994. As mudanças ocorreram nos extremos: 23 deputados têm menos de 30 anos e 30 têm mais de 70. São os maiores números da série histórica em ambas as faixas etárias.
Outro dado relevante é o avanço dos parlamentares mais ricos. Dos 513 eleitos, 307 declararam patrimônio de R$ 1 milhão ou mais. Trata-se da maior proporção já registrada. Em comparação com 2022, a parcela de milionários passou de 56,3% para 59,8%, em valores corrigidos pela inflação.
Os puxadores de voto também alcançaram marcas históricas. Nikolas Ferreira (PL-MG) ampliou sua votação de 1,49 milhão para 3,12 milhões de votos, estabelecendo o recorde histórico para um candidato a deputado federal. Estreante na política nacional, Lucas Pavanato (PL-SP) recebeu pouco mais de 3 milhões de votos. No sistema proporcional brasileiro, uma votação muito alta aumenta os votos totais do partido e, consequentemente, o número de cadeiras a que a legenda tem direito.
A maior votação da esquerda ficou com Erika Hilton (PSOL-SP), que obteve 1,6 milhão de votos. Entre os dez deputados federais mais votados do país, quatro são do PL.
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