A vitória de Lula é um divisor de águas para a América Latina, reposicionando o Brasil na defesa do multilateralismo e do meio ambiente, segundo o cientista político Gaspard Estrada. Impulsionado pela mobilização orgânica da sociedade contra a extrema direita, o petista enfrentará desafios na governabilidade diante de um Congresso conservador e de pressões econômicas. Externamente, o resultado fortalece a diplomacia com Europa e EUA e serve de estímulo à defesa da democracia no cenário global.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva representa, na avaliação do cientista político Gaspard Estrada, um momento de inflexão para a região, em um cenário marcado pelo avanço de forças conservadoras e de extrema direita. Especialista em América Latina e integrante da unidade Sul Global da London School of Economics, ele considera que o resultado brasileiro ultrapassa a disputa eleitoral e recoloca no centro do debate a defesa do multilateralismo, dos direitos humanos e da agenda ambiental.
"Em primeiro lugar, essa vitória do presidente Lula vai ser realmente um divisor de águas para a América Latina e a América do Sul, que estava com uma tendência para a direita ou até extrema direita, dependendo dos países, e é evidente que ter um governo brasileiro que é membro do G20, que é um dos principais países, principais economias mundiais, muito vinculado à defesa do multilateralismo, dos direitos humanos, da agenda ambiental, e isso vai ter um peso muito importante no quadro internacional", avalia.
Para Estrada, a mobilização da sociedade brasileira durante o segundo turno constitui um dos principais elementos para compreender o resultado. O cientista político ressalta que a participação nas ruas e nas redes sociais não se limitou à estrutura partidária ou à atuação da campanha de Lula, mas expressou uma disposição de setores da sociedade de impedir o retorno da extrema direita ao poder.
"É evidente que é difícil de poder fazer uma tradução eleitoral do que aconteceu no Brasil e em outros países, em particular da Europa. Mas é claro que isso é um incentivo e essa eleição dá um discurso para lideranças políticas progressistas de apelar aos cidadãos e, sobretudo, para que a sociedade civil se organize", analisa. "Eu acho que a lição fundamental desse segundo turno é que muitas das mobilizações nas ruas e nas redes em favor do presidente Lula foram movimentos espontâneos, orgânicos, que não dependiam da própria campanha, mas sim de uma vontade genuína da sociedade de evitar a volta da extrema-direita ao poder", reitera Estrada.
A mobilização digital também teve papel importante na reta final da campanha. Estrada destaca a atuação do deputado André Janones, responsável por uma iniciativa de comunicação que ampliou a circulação de informações favoráveis à candidatura petista. Para o entrevistado, a experiência evidenciou uma mudança na capacidade de articulação política da esquerda brasileira.
"Sem dúvida, a criação desse canal de WhatsApp, que chegou a mais de 10 milhões de seguidores, teve um papel muito importante na disseminação, no compartilhamento de informações. E isso tem a ver com o fato de que a esquerda brasileira, até há poucos meses, semanas atrás, não tinha essa capacidade de se comunicar digitalmente com a sociedade. Tanto assim que no seu discurso de vitória ontem Lula falou que no seu quarto mandato ele dará uma importância muito grande à comunicação digital", pontua.
Governabilidade
A vitória eleitoral, contudo, não elimina os obstáculos que Lula terá de enfrentar para governar. Estrada avalia que a composição do Congresso será um dos principais desafios do próximo mandato, com o Partido Liberal ocupando a maior bancada e o bolsonarismo mantendo força política. O avanço da direita, segundo ele, ocorreu sobretudo sobre o centrão, enquanto a esquerda, em particular o Partido dos Trabalhadores, manteve resultados próximos aos da legislatura anterior.
"Vai ser um cenário desafiador para o presidente Lula, no sentido de que na Câmara dos Deputados e no Senado o Partido Liberal terá a primeira bancada. Então, é evidente que há uma recomposição das forças políticas. No Brasil, há um bolsonarismo na extrema direita que está muito forte, será muito atuante no Congresso e, paradoxalmente, o avanço da extrema direita se deu sobre o centrão, porque, na verdade, se você acompanha os números dos resultados das eleições, à esquerda, em particular o Partido dos Trabalhadores, ficou mais ou menos no mesmo nível que na legislatura passada", diz Estrada.
O cientista político prevê uma atuação mais confrontadora dos setores bolsonaristas no Legislativo, com tentativas de revanche política e pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal. A disputa institucional, afirma, deverá se intensificar a partir da próxima legislatura. "Na verdade, o que a gente verá na próxima legislatura é um Congresso onde as posições políticas serão muito mais afirmadas. Haverá, eu acho, um desejo de revanche eleitoral dos bolsonaristas, com, sem dúvida, pedidos de impeachment a ministros do STF."
Antes da posse, em janeiro, a economia deverá concentrar as preocupações do governo. Estrada aponta a expectativa de reação do mercado financeiro, que havia apostado na vitória de Flávio Bolsonaro, e prevê pressão sobre Lula para apresentar medidas de contenção de gastos.
"Os agentes econômicos, em particular o mercado financeiro, apostaram muito na vitória do Flávio Bolsonaro. Então é de se prever que nesses próximos dias, ocorra uma queda da bolsa, um aumento da cotação do dólar e uma pressão forte dos agentes econômicos sobre o governo para que ele apresente medidas de redução de contenção de gastos", aponta.
Na avaliação do entrevistado, a condução da economia será o principal desafio imediato, enquanto a relação com o Congresso e o Judiciário deverá dominar a agenda política a partir do início do próximo mandato.
França e União Europeia
A eleição brasileira também pode abrir espaço para uma relação mais estratégica com a França e os demais países europeus. Estrada considera que a parceria histórica entre Brasil e França poderia ter avançado mais, caso não houvesse resistência francesa ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.
"Esse acordo já entrou em vigor, então é de se esperar que esta eleição do Lula contribua para que ele tenha ainda mais força, mais vigor, e que isso permita que a relação se torne realmente estratégica, não só bilateralmente com a França, mas com os outros países da União Europeia", diz Estrada.
A façanha de Lula também pode oferecer argumentos a lideranças progressistas europeias, embora Estrada ressalte que as disputas eleitorais são determinadas sobretudo por questões nacionais. No caso francês, ele não considera que a eleição brasileira tenha capacidade de influenciar diretamente os candidatos. O impacto, portanto, não estaria na reprodução direta do resultado brasileiro, mas na possibilidade de que a mobilização social observada no país inspire movimentos semelhantes em outras democracias.
"O assunto principal, eu acho que é o principal ensinamento da eleição brasileira foi a mobilização da sociedade. É justamente para defender seus direitos, defender a democracia, defender uma série de valores. Que estão ligados à Constituição de 1988, e evidente que no momento onde na Europa há um questionamento também a esses valores cardeais das democracias liberais, é evidente que nós não podemos descartar que um processo semelhante possa vir a acontecer."
Relação com os Estados Unidos
A relação bilateral com os Estados Unidos deverá continuar marcada pela dimensão econômica, apesar das tensões provocadas pelas tarifas e pelas sanções mencionadas durante a entrevista. Estrada considera que a interdependência comercial entre os dois países torna improvável uma ruptura. "O que vem por aí, eu acho que haverá uma manutenção da relação bilateral, inclusive porque há uma parceria econômica que é muito grande, já seja em termos de importação pelos Estados Unidos, de laranja, açúcar, carne, mas também produtos tecnológicos, aviões, aço."
Para o cientista político, a vitória de Lula pode ampliar a margem de negociação brasileira, sobretudo diante de uma eventual fragilização política do presidente norte-americano, Donald Trump, após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
"Com essa vitória, o presidente Lula vai estar numa posição de força e que possivelmente o Trump vai estar numa situação de maior fraqueza, por causa de uma eventual derrota dele nas eleições de meio de mandato [previstas para 3 de novembro]. E se isso se confirmar, vai dar mais ímpeto à posição brasileira e poderia dar sequência a um relacionamento um pouco mais equilibrado, mesmo se a personalidade do presidente Donald Trump nos conduz a ser muito prudentes sobre qual serão as posições do governo norte-americano."
Uma vitória em defesa da democracia
Ao analisar o significado político da eleição, Estrada rejeita a interpretação de que o resultado tenha sido apenas uma vitória de um projeto partidário. Para ele, a disputa foi marcada sobretudo pela defesa da democracia, do Estado de direito e da Constituição de 1988.
"Eu acho que foi uma luta a favor da democracia e do Estado do direito e a defesa da Constituição. E evidente que os valores do bolsonarismo são contrários a isso, inclusive porque o próprio Bolsonaro e a família Bolsonaro tem se posicionado reiteradamente contra os valores da Constituição de 1988."
Estrada considera que a mensagem das urnas ultrapassa a plataforma eleitoral do PT e representa uma manifestação da sociedade em favor de princípios democráticos. "O presidente Lula reconheceu que ia ser uma eleição de mudança, mas, por outro lado, a sociedade brasileira, na sua maioria, reconheceu que quem defendia os valores cardeais da sociedade, democracia, Constituição e os direitos humanos eram a candidatura de Lula", sublinhou.
A mobilização que contribuiu para a vitória, conclui Estrada, também deverá servir como referência para o próprio governo. Lula terá de incorporar essa disposição da sociedade ao exercício do poder.
"O recado das urnas terá que ser ouvido pelo presidente Lula. Ele mesmo reconheceu ontem, ele vai ter que ouvir muito mais a sociedade no seu quarto mandato", contextualizou.