O senador eleito Reinaldo Azambuja (PL-MS) prometeu destinar emendas parlamentares prioritariamente aos municípios que derem mais votos a Flávio Bolsonaro no segundo turno, sob suposto acordo com os senadores Tereza Cristina e Capitão Contar. Especialistas veem na atitude indícios de corrupção eleitoral e abuso de poder político, condutas passíveis de perda de mandato. Em reação, o PT do estado anunciou que acionará a Procuradoria-Geral Eleitoral para investigar a declaração de Azambuja.
O ex-governador de Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PL), recém-eleito senador pelo estado, prometeu "premiar" com emendas parlamentares os municípios sul-mato-grossenses que tiverem as maiores votações para Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições.
Durante reunião com prefeitos aliados em Campo Grande na quarta-feira (14/10), Azambuja, que também é presidente do PL no estado, afirmou que havia combinado a ação com outros dois senadores locais - Tereza Cristina (PP) e Capitão Contar (PL), também eleito no pleito deste ano.
"Eu, Contar e a Tereza fizemos um compromisso nós três. Os municípios onde o Flávio tiver a maior votação, nós vamos fazer um combinado, e anota aí: nós vamos premiar com as emendas esses municípios. Está por conta de vocês. O valor que for."
Azambuja também convocou os deputados federais a fazerem o mesmo. "É um compromisso do Contar, do Reinaldo e da Tereza Cristina. Se a bancada federal também quiser fazer, [será] bem-vindo."
Mas especialistas consultados pela BBC News Brasil afirmam que o "compromisso" do senador pode configurar crime eleitoral, além de abuso de poder.
"Não tenho nenhuma dúvida de que essa conduta é ilegal", diz o advogado eleitoral Fernando Neisser, presidente da comissão de direito eleitoral do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP).
Ele afirma desconhecer algum caso parecido no âmbito da Justiça Eleitoral e que não há, até o momento, nenhuma previsão legal relacionada às emendas parlamentares.
A Justiça Eleitoral enquadra como crime eleitoral a promessa, seja a uma pessoa ou a um grupo de pessoas, vinculada ao voto.
Ou seja, não seria crime eleitoral, por exemplo, um candidato a prefeito prometer que, caso eleito, ele irá recapear as ruas da cidade.
Mas no caso em questão envolvendo os senadores sul-mato-grossenses, "seria a mesma coisa que um prefeito dizer que os quatro bairros onde ele tiver a maior votação serão recapeados", diz Neisser.
A promessa de Azambuja, portanto, pode configurar corrupção eleitoral, de acordo com ele. "E também pode configurar abuso de poder político, que é o uso da máquina das emendas pra promover uma candidatura", diz.
A pena para o crime de corrupção eleitoral é de 1 a 4 anos de reclusão e, tratando-se de um eventual crime vinculado a um mandato, o parlamentar pode perder o mandato, segundo o especialista.
Já o advogado Alberto Rollo, também especialista em Direito Eleitoral, pondera que se não for uma promessa individualizada, para um eleitor ou um grupo restrito, a Justiça Eleitoral pode entender que são promessas de campanha e não crime eleitoral.
"Precisa interpretar bem esse caso concreto", diz. "Mas se a moda pega, é uma forma de comprar voto. Não diretamente, mas é uma forma indireta", conclui.
'Conduta chantagista'
A BBC News Brasil tentou ouvir os três senadores, por meio de suas assessorias de imprensa.
A senadora Tereza Cristina afirmou que "destina, tradicionalmente, emendas para os 79 municípios do MS, sem distinção partidária". "Assim tem feito em todos os seus mandatos", concluiu a senadora.
As demais mensagens tiveram confirmação de recebimento, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem.
A reunião de lideranças e aliados do PL de Mato Grosso do Sul ocorreu na sede da campanha do senador Contar, ex-deputado estadual, eleito para o Senado com 32,8% dos votos. Segundo a imprensa local, estavam reunidos dezenas de prefeitos, vereadores e parlamentares eleitos e não eleitos.
Após a fala de Azambuja, o PT de Mato Grosso do Sul afirmou, por meio de nota, que irá acionar a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) para "apurar a convocação, a organização e o financiamento da referida reunião, bem como a conduta chantagista do presidente do PL estadual, senador eleito Reinaldo Azambuja."
Azambuja foi prefeito duas vezes de Maracaju, município a 159 km de Campo Grande. Também foi deputado estadual e deputado federal, além de governador de Mato Grosso do Sul por dois mandatos (2015 a 2022). Seus suplentes são o atual senador Nelsinho Trad (PSD-MS) e Felipe Mattos (União Brasil).
Segundo reportagens publicadas por diferentes veículos, Azambuja é um dos cotados para comandar o Ministério da Agricultura em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. A pasta foi encabeçada por sua aliada, Tereza Cristina, no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O poder das emendas
As emendas parlamentares foram criadas com a Constituição de 1988, para aumentar a participação do Legislativo no processo orçamentário.
São recursos do orçamento público que deputados e senadores têm o direito de indicar para financiar obras, projetos e serviços em estados e municípios (como hospitais, escolas, pavimentação de ruas e compra de equipamentos)
As emendas podem ser individuais, propostas por um deputado federal ou senador, e uma parte obrigatória delas deve ser direcionada à Saúde. Também podem ser de bancada estadual, propostas em conjunto por todos os parlamentares (deputados e senadores) de um mesmo estado.
E há também as emendas de comissão, que são apresentadas por comissões permanentes da Câmara ou do Senado para financiar projetos de impacto temático ou regional.
Na última década, o valor destinado às emendas vem subindo gradativamente, saltando de cerca de R$ 10 bilhões há dez anos para R$ 61 bilhões neste ano.
O valor representa quase um quarto do orçamento total dos recursos que o governo tem para administrar livremente, por meio de ministérios, na forma de investimentos, infraestrutura e outros projetos.
Com isso, aumentaram também os indícios de desvios. Por isso, as emendas são alvo de alguns inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Flávio Dino.
Baixe o novo aplicativo BBC World Service
Escolha a BBC News Brasil e receba alertas de notícias, conteúdos explicativos e podcasts, tudo em um só lugar
Atenção: o novo aplicativo não está disponível no Reino Unido e nos Estados Unidos e não existe uma versão em inglês.