Secretário de Inspeção do Trabalho foi demitido por incluir chinesa BYD na lista ligada à escravidão, dizem fontes

13 abr 2026 - 19h06

O secretário de Inspeção ‌do Trabalho do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi demitido por adicionar a montadora chinesa BYD ao cadastro de empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições descritas como análogas à escravidão, disseram à Reuters duas pessoas próximas ao assunto.

Luiz Felipe Brandão de Mello desobedeceu a uma ordem do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, ⁠para não incluir a montadora de veículos elétricos na chamada "lista suja" de abusos trabalhistas ‌do Brasil, disseram as fontes, que pediram anonimato para discutir o assunto.

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Sua demissão, oficializada no diário oficial desta segunda-feira, é o mais recente ponto de atrito entre ‌o governo Lula e os auditores-fiscais do trabalho, servidores ‌tradicionalmente independentes que investigam abusos trabalhistas graves. Marinho já foi acusado de interferir ⁠no trabalho dos auditores para manter as grandes empresas fora da lista.

Em nota à Reuters, o Ministério do Trabalho disse que a exoneração "se trata de ato administrativo de gestão, de prerrogativa de ministro de Estado". Mello não respondeu imediatamente aos pedidos de comentários.

"INTERFERÊNCIA POLÍTICA"

A Associação Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (Anafitra) criticou a exoneração, acrescentando que ela ‌enfraquece a luta do Brasil contra os abusos trabalhistas e prejudica o impacto da ‌lista, considerada uma ferramenta poderosa ⁠em tais casos.

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A exoneração ⁠do secretário "indica uma escalada de interferência política na inspeção do trabalho", disse a Anafitra em um ⁠comunicado.

O caso da BYD diz respeito a ‌uma inspeção de 2024 em ‌que foram identificados 163 trabalhadores chineses empregados por uma empreiteira construindo a principal fábrica da montadora no Brasil sob condições que as autoridades brasileiras descreveram como "análogas à escravidão".

O escândalo prejudicou a reputação da BYD e atrasou a construção da ⁠fábrica por meses no Brasil, o maior mercado da empresa depois da China.

A BYD não respondeu a um pedido de comentário. A empresa já havia dito anteriormente que não tinha conhecimento de quaisquer violações até relatos da mídia brasileira no final de 2024.

ORDEM DESOBEDECIDA

De acordo com as regras do ‌governo, a lista de abusos trabalhistas deve ser atualizada a cada seis meses, sendo que o último prazo ocorreu em 6 de abril.

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Marinho disse a Mello para ⁠adiar a inclusão do nome da BYD, sem citar qualquer justificativa técnica, disseram as fontes.

Dois dias depois, um tribunal concedeu à BYD uma liminar removendo-a da lista. Uma decisão final está pendente.

A BYD tem demonstrado fortes laços com o governo do Brasil, com Lula participando da inauguração de sua fábrica em outubro, apesar do caso de abuso trabalhista em andamento na época.

Além dos danos à reputação, as empresas incluídas na lista são impedidas de obter certos tipos de créditos de bancos brasileiros.

No ano passado, Marinho fez revisões finais incomuns das investigações dos auditores para impedir a inclusão de algumas empresas, incluindo uma divisão da JBS.

Mello havia expressado oposição a essas decisões de Marinho, disse uma fonte, acrescentando que a recusa em obedecer às ordens no caso da BYD foi vista como a gota d'água.

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