A presença de mulheres na disputa à Presidência da República está menor do que na eleição de 2022, caindo de 36,3% para 26,9% neste ano. A proporção iguala a participação feminina de 2018 e fica atrás da de 2014, quando elas representaram 27,2% das vagas na corrida ao Planalto.
Em 2026, são sete candidaturas femininas distribuídas nas vagas de presidente e vice em 13 chapas ao Palácio do Planalto: Samara Martins e Raquel Brício (UP); Clariana Barão e Fabiana Torquato (DC); Vanessa Portugal (PSTU); Cleusa Santos (PCB); e Suêd Haidar (Democrata).
Até o último dia 15, prazo para os partidos registrarem os candidatos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a expectativa era de que o PRTB lançasse a Tenente Dalma como vice de Leonardo Avalanche. No entanto, a sigla optou de última hora por Pablo Marçal, inelegível até 2032, encabeçando a composição, e Avalanche como vice-presidente.
Além do recuo na comparação com as vagas ocupadas por homens, as mulheres ainda ficaram de fora das cinco principais candidaturas — aquelas com as maiores chances de vitória.
A cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que os incentivos para candidaturas femininas estão postos nas eleições do sistema proporcional. Isto é, nas disputadas aos cargos de deputado federal, estadual e distrital no caso da eleição de 2026. Um exemplo é a cota de gênero, que fixa o mínimo de 30% e o máximo de 70% para homens e mulheres.Por outro lado, a corrida presidencial é regida pelo sistema majoritário — assim como aos governos de Estado e ao Senado — e responde a outros incentivos. A título de exemplo, a professora de ciência política cita a vaga de vice-presidente não como ferramenta representativa no jogo político brasileiro, mas de coalizão e trocada por tempo de televisão, palanque e apoio financeiro.
"Quando a vaga tem valor de barganha, ela vai para quem a legenda deve. E o estoque de dirigentes partidários é do gênero masculino."
A norma que prevê 30% do valor do Fundo Partidário para candidaturas femininas também gera incentivos na formação das chapas. Segundo Mayra, por razões diferentes do que se supõe. O cálculo é feito sobre a quantia total devida à sigla — ou seja, se receber R$ 100 milhões do fundo, R$ 30 milhões deve ser destinado pelo partido às candidaturas femininas.
A regra não faz distinção entre cargos de eleição proporcional e majoritária, e a professora da UFRJ diz que o intuito é o de tornar mais barata a inclusão de mulheres nas chapas à vice-Presidência, por exemplo. Isso porque as vagas nas composições ao Executivo são consideradas "caras" pelos partidos.
Se a vaga de vice-presidente custar R$ 20 milhões, por exemplo, o partido pode abater o valor e destinar outros R$ 10 milhões para as demais candidaturas de deputadas estaduais e federais. Assim, a sigla estaria em concordância com a legislação eleitoral.
No entanto, a cientista política diz que esse não é o caminho seguido pelas legendas. "Isso aliviaria a pressão sobre as vagas de natureza proporcional, e mesmo assim não incluíram mulheres."
Em junho, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Liberal (PL) pediram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a exclusão das campanhas majoritárias do cálculo de cota mínima, para a eleição deste ano. O pedido contou com o apoio do Republicanos e de uma ala do Partido Social Democrático (PSD).
"Diante do incentivo à inclusão de mulheres, os partidos responderam tentando desmontá-lo. É a preferência revelada da elite partidária."
Nas últimas semanas, havia a expectativa de que o PL indicasse um nome feminino para compor com Flávio Bolsonaro. O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, manifestou interesse na formação de uma chapa com Daniella Marques (Republicanos), Simone Marquetto (PP-SP) ou Clarissa Tércio (PP-PE).No entanto, as legendas dos nomes sugeridos por Flávio preferiram a neutralidade na corrida presidencial. Os diretórios estaduais dos dois partidos foram liberados para declarar apoio conforme os arcos de aliança de cada região.
Sem êxito nas negociações, o PL confirmou o deputado federal Alfredo Gaspar para a vaga, selando a 12ª chapa "puro-sangue" desta campanha e enterrando as chances de ter uma candidata como vice.
"O fracasso da aliança não abriu vaga para uma mulher, mas devolveu a vaga à hierarquia interna do partido, onde elas não têm capital político acumulado", resume Mayra.
Do outro lado da disputa, a lógica da composição à esquerda é diferente, mas responde a estímulos da mesma natureza. A chapa Lula/Alckmin tenta a reeleição e repete a fórmula de quatro anos atrás. O posto do vice-presidente, nesse caso, funciona como garantia para a frente ampla, vitoriosa em 2022.Essa é a primeira vez neste século que as principais chapas ao posto mais alto do Poder Executivo não têm uma candidata. O fato havia sido registrado pela última vez na eleição presidencial de 1998, vencida por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), no primeiro turno.
Em 2026, as cinco maiores campanhas — Lula/Alckmin, Flávio/Gaspar, Caiado/Kassab, Zema/Girão e Renan/Medina — replicam o feito da eleição geral brasileira de 28 anos atrás.
Entre os chamados "nanicos", duas chapas são compostas só por mulheres neste ano. A Unidade Popular pelo Socialismo (UP) lançou Samara Martins à presidência e Raquel Brício para vice. O Democracia Cristã (DC) anunciou Clariana Barão e Fabiana Torquato, depois da desistência de Joaquim Barbosa, ex-ministro da Suprema Corte, e da rejeição da sigla a Aldo Rebelo, ex-ministro do governo Dilma Rousseff.
Mayra afirma que não é coincidência que siglas menores abriguem as mulheres e componham chapas femininas por completo. De acordo com ela, sem o poder de costurarem coligações, essas composições ficam livres. "As mulheres aparecem exatamente onde a candidatura custa pouco e vale pouco."