A consolidação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em simulações recentes de 2º turno, captada simultaneamente por dois institutos com metodologias distintas, Atlas, de coleta digital, e Paraná Pesquisas, de coleta presencial e telefônica, acendeu um alerta no Planalto. Para especialistas consultados pelo Terra, o retrato de momento das duas pesquisas não é um mero ruído estatístico, mas um indicativo que Flávio é uma ameaça real e o principal concorrente de Lula.
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Na simulação de embate entre Lula e Flávio em 2º turno na Paraná Pesquisas, Flávio tem 44,4% de intenções de votos e Lula, 43,8%. O instituto ouviu 2.800 eleitores em 26 Estados mais o Distrito Federal, entre os dias 22 e 25 de fevereiro de 2026. A Atlas, que ouviu pela internet 4.986 brasileiros com 16 anos ou mais, aponta que Flávio teria 46,3% contra 46,2% de Lula no 2º turno. O questionário foi aplicado entre os dias 19 e 24 de fevereiro.
Ludmila Culpi, mestre em Ciência Política e doutora em Políticas Públicas, afirma que quando o presidente, que tem a vantagem natural da máquina pública e da visibilidade, começa a perder em simulações diretas de segundo turno é porque há um sinal de um "desgaste” e de antecipação do chamado ‘voto útil’. De acordo com ela, a preocupação de Lula não deve ser somente com o nome "Flávio", mas com o que ele representa.
“O crescimento de Flávio nas pesquisas representa a reunificação rápida da direita em torno de um herdeiro natural do bolsonarismo, demonstrando que o "anti-petismo" continua sendo uma força eleitoral de altíssimo engajamento, possivelmente superando a força do "anti-bolsonarismo". Isso deve acender um alerta para o candidato petista”, alerta Ludmila Culpi.
Alberto Carlos Almeida, cientista político, sustenta que o fator decisivo continua sendo a avaliação do governo e que o cenário não mudou estruturalmente, apenas ficou mais claro quem é o principal nome da oposição. Segundo o cientista, a eleição, mais uma vez, tende a ser altamente polarizada e a avaliação do governo Lula será determinante.
"Por que Flávio Bolsonaro avançou agora? Porque as pessoas tomaram conhecimento que ele é o principal candidato de oposição”, enfatiza Alberto Carlos Almeida.
No 2º turno, o voto útil é a regra, mas ambos os especialistas concordam que os sinais dele já aparecem agora. No caso de Flávio Bolsonaro, eleitores de centro-direita, que poderiam preferir um candidato mais moderado, como Ronaldo Caiado (PSD) ou Ratinho Jr. (PSD), já declaram voto em Flávio no 2º turno apenas por ser o nome mais forte para derrotar o PT.
No caso de Lula, a grande ameaça é que ele já opera no seu "teto". Na avaliação especialistas, não há para onde crescer, exceto sobre o eleitor de centro, que já vem demonstrando um forte sentimento antipetista, o que pode explicar sua estagnação nessas simulações.
Mudança no humor do eleitorado
Para além dos números, as pesquisas captaram dois sinais fundamentais de mudança no humor do eleitorado. De acordo com Ludmila Culpi, o primeiro é a transferência de espólio de Jair Bolsonaro para seu filho, Flávio Bolsonaro.
“Com a inelegibilidade do ex-presidente, havia uma dúvida sobre quem herdaria seu capital político, se seria Tarcísio, Zema, Michelle, Eduardo ou Flávio. As pesquisas mostram que Flávio conseguiu colar sua imagem à do pai”, avalia.
Para a cientista, o segundo elemento que explica essa mudança é o voto retrospectivo negativo. O eleitor de centro avalia o governo atual, sem o peso da ideologia e isso tem impacto muito grande sobre a possibilidade de reeleição.
“Se a percepção sobre a economia, especialmente inflação, poder de compra, qualidade de vida, ou sobre a segurança pública piora, o eleitor pune o governo atual migrando para a oposição. O sinal é de que a narrativa de "reconstrução" do governo Lula perdeu tração no eleitorado mediano”, acrescenta Ludmila Culpi.
Alberto Carlos Almeida afirma que a performance de Lula nas pesquisas também pode estar ligada aos escândalos recentes, do INSS e do Banco Master. “Isso já aconteceu no passado. O Mensalão, por um período, piorou a avaliação de Lula. Mas os escândalos têm um efeito passageiro de um modo geral”, pondera.
De acordo com Almeida e Ludmila Culpi, a regra de ouro de qualquer eleição majoritária em dois turnos é: ganha quem tem a menor rejeição. No pleito anterior, Lula venceu, por exemplo, porque a rejeição a Jair Bolsonaro era marginalmente maior.