Douglas Ruas (PL) surpreendeu no primeiro turno da eleição ao governo do RJ com 49,27% dos votos válidos, superando Eduardo Paes e vencendo em 79 dos 92 municípios. O resultado pode garantir sua vitória já na primeira rodada caso a anulação dos votos de Garotinho seja confirmada pelo TSE. A arrancada é explicada pela força da máquina do PL no interior fluminense, pela trajetória de Ruas na Secretaria das Cidades e pela decisiva associação de sua imagem à de Flávio Bolsonaro na reta final.
Há poucos meses, Douglas Ruas (PL) era um deputado estadual com votação concentrada em São Gonçalo e ainda pouco conhecido no restante do Rio de Janeiro. Neste domingo, 4, terminou o primeiro turno com 49,27% dos votos válidos, venceu em 79 dos 92 municípios fluminenses e colocou Eduardo Paes (PSD), até então líder das pesquisas, em uma disputa apertada pelo governo do Estado.
Ruas agora aguarda no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma definição que pode encerrar a disputa ainda no primeiro turno. Anthony Garotinho (Republicanos), que recebeu 3,17% dos votos, desistiu nesta segunda-feira, 5, do recurso contra o indeferimento de sua candidatura.
Se a desistência for aceita e os votos dados a Garotinho forem retirados da totalização, Ruas passa a cerca de 50,9% dos votos válidos e pode ser declarado eleito no primeiro turno, sem a necessidade de enfrentar Paes novamente nas urnas.
A arrancada de Ruas foi sustentada por uma estrutura política construída por Ruas nos últimos anos e potencializada, na reta final, pela associação com Flávio Bolsonaro (PL).
A candidatura, porém, começou a ser construída meses antes. Ruas foi a escolha de Flávio para representar o PL na sucessão de Cláudio Castro, em meio a uma disputa interna que envolveu outros nomes do grupo governista. A definição fazia parte de uma estratégia mais ampla para projetá-lo antes mesmo do início oficial da campanha.
Até então, Ruas tinha uma trajetória política muito mais conhecida em São Gonçalo do que no restante do Estado. Filho do prefeito Capitão Nelson e inspetor da Polícia Civil, ocupou cargos na administração municipal antes de ser eleito deputado estadual em 2022 com cerca de 175 mil votos, a segunda maior votação para a Alerj naquele ano. Na Assembleia, fez da segurança pública uma de suas principais bandeiras.
A força eleitoral, porém, estava concentrada no reduto da família: cerca de 85% dos votos vieram de São Gonçalo, um dos municípios mais populosos do Estado.
A projeção para além do município ganhou força a partir de 2023, quando Ruas assumiu a Secretaria estadual das Cidades no governo Cláudio Castro. No cargo, passou a manter contato direto com prefeitos e deputados de diferentes regiões e a acompanhar obras e repasses espalhados pelo Estado. A experiência ampliou sua rede política e deu ao parlamentar circulação entre lideranças municipais fora de seu reduto original.
Para aliados ouvidos pelo Estadão, foi essa combinação de base eleitoral própria, trânsito com prefeitos e ligação com a área de segurança que ajudou Ruas a se impor na disputa interna do PL.
A escolha pelo nome de Ruas foi fechada em fevereiro com apoio também do presidente estadual do PL, Altineu Côrtes. Um dos principais apoiadores de Ruas, Côrtes afirma que o desempenho nas urnas não foi uma surpresa e diz que o grupo vinha trabalhando havia meses para estruturar a candidatura. "Trabalhamos por essa candidatura", afirma.
O desenho inicial, no entanto, previa uma vantagem que Ruas acabou não tendo. A estratégia do grupo de Flávio era fazê-lo chegar à campanha já no comando do Palácio Guanabara, após a saída de Castro para disputar o Senado. Eleito presidente da Alerj, Ruas passou a ocupar o posto imediatamente anterior ao presidente do Tribunal de Justiça na linha sucessória estadual e tentou assumir interinamente o governo.
O Supremo Tribunal Federal (STF), porém, manteve Ricardo Couto à frente do Executivo enquanto não concluía o julgamento sobre a sucessão. A Corte chegou a formar placar de 4 a 1 pela realização de uma eleição indireta para o mandato-tampão, na qual o novo governador seria escolhido pelos deputados estaduais, mas a análise foi suspensa após pedido de vista do ministro Flávio Dino. O impasse impediu Ruas de chegar à campanha com a principal vitrine institucional imaginada por seus aliados.
A ausência do Palácio Guanabara não impediu, contudo, que o candidato ganhasse terreno ao longo da campanha. No primeiro Datafolha, em agosto, Ruas aparecia com 19% das intenções de voto, contra 41% de Eduardo Paes. Subiu para 25% no início de setembro e chegou a 30% no fim do mês. Na pesquisa divulgada na véspera da eleição, tinha 38% dos votos válidos. Nas urnas, alcançou 49,27%, contra 42,76% de Paes.
Para a cientista política Mayra Goulart, professora da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom), o desempenho de Ruas deve ser entendido também a partir da força acumulada pelo PL no Rio nos últimos anos.
Levantamentos do laboratório mostram que a legenda passou a concentrar espaço dentro da direita fluminense depois de se associar ao bolsonarismo, ao mesmo tempo em que atraiu políticos de grupos tradicionais e do interior do Estado.
Em 2022, o partido conquistou cerca de um quarto das cadeiras fluminenses nos Legislativos estadual e federal e, dois anos depois, um quarto das prefeituras. Mais de 70% desses políticos já haviam exercido mandatos por outras siglas. "Ele combina máquina com discurso", afirma Mayra.
Na reta final da campanha, essa combinação ganhou um reforço decisivo. As redes sociais e os grupos de WhatsApp contribuíram, segundo Mayra, para manter coeso o eleitorado de Flávio Bolsonaro e aproximá-lo da candidatura estadual.
Os levantamentos do Datafolha mostram essa aproximação. No fim de agosto, 37% dos eleitores de Flávio declaravam voto em Ruas. Um mês depois, o porcentual havia chegado a 63%. Nesse período, a campanha passou a trabalhar de forma mais explícita a associação entre as disputas presidencial e estadual.
Peças de propaganda apresentavam Ruas como o candidato de Flávio no Rio e buscavam consolidar o chamado "voto casado", numa tentativa de converter em apoio estadual uma parcela do eleitorado bolsonarista que ainda não havia migrado para o candidato do PL. Ruas também reforçou publicamente o vínculo com o presidenciável.
O avanço, porém, não ficou restrito ao eleitorado presidencial nem ao reduto de São Gonçalo. Ruas terminou à frente em 79 dos 92 municípios do Estado, enquanto Paes venceu em 13. O desempenho chama atenção porque o ex-prefeito havia reunido durante a campanha o apoio de lideranças locais importantes, inclusive nove dos 13 prefeitos da Baixada Fluminense.
Parte desses apoios veio de antigos aliados de Ruas. Rogério Lisboa (PP), ex-prefeito de Nova Iguaçu, chegou a ser anunciado como vice na chapa do PL antes de desistir e aderir à candidatura de Paes. Nas urnas, porém, essas articulações municipais não foram suficientes para impedir o avanço de Ruas pelo interior e pela Região Metropolitana.