Em virada histórica, Lula (PT) conquistou um inédito quarto mandato presidencial ao vencer Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno com 51,78% dos votos válidos, após ficar atrás na primeira etapa. A vitória foi impulsionada pela redução da abstenção e forte mobilização popular e digital. Aos 81 anos, o petista enfrentará um mandato desafiador perante um Congresso de maioria conservadora, resistência da oposição, riscos fiscais crescentes e promessas de ampliação de benefícios sociais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou neste domingo um inédito quarto mandato na Presidência da República, em um resultado histórico que marcou a primeira vez que um candidato que ficou atrás no primeiro turno se sagrou vencedor da disputa pelo Palácio do Planalto.
Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL), anunciou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após uma eleição conturbada e marcada por um adiamento de última hora no fechamento das urnas devido a problemas no transporte público.
Ícone da esquerda global e figura mais dominante da política brasileira neste século, Lula derrotava o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro por 51,78% a 48,22%, com 99,96% das seções apuradas.
O senador havia terminado o primeiro turno da eleição na liderança com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do adversário.
Em números totais de votos, Lula recebeu 64,22 milhões de votos neste domingo, um aumento de mais de 10 milhões em relação aos 53,88 milhões do primeiro turno. Já Flávio passou de 56,10 milhões no início do mês para 59,81 milhões agora.
Um dos destaques no segundo turno foi a queda na abstenção e dos votos brancos e nulos. A abstenção foi de 19,21%, depois de marcar 21,08% no primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Votos brancos responderam por 1,12% e nulos somaram 2,12% neste domingo. No primeiro turno, 1,84% votaram branco e 2,93% anularam os votos.
A necessidade aumentar o comparecimento às urnas era apontada antes deste domingo por analistas como crucial para uma virada de Lula, e a campanha do petista insistiu por diversas vezes na necessidade de mobilizar eleitores para comparecerem ás seções eleitorais.
VIRADA HISTÓRICA
Em muitos momentos, a reeleição de Lula pareceu improvável, à medida que eleitores refletiam o desgaste com o presidente e com o PT, apontando anos de escândalos de corrupção e alta dos preços como motivos. O desempenho no primeiro turno, com a inesperada liderança de Flávio, fez a conquista de um inédito quarto mandato parecer ainda mais distante.
Mas uma grande mobilização nas ruas e nas redes sociais fez com que a campanha do presidente se revitalizasse nas três semanas do segundo turno, com destaque para a atuação do deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) nas redes sociais. Lula, que após o primeiro turno disse que a campanha foi a "menos organizada" de que já participou, reconheceu na véspera do segundo turno que "o povo assumiu a responsabilidade da campanha".
"A esquerda redescobriu o caminho das ruas, esse é o primeiro elemento. Um segundo elemento tem a ver com a ocupação das redes sociais, nisso o Janones é um herói para esses caras, ele sai muito maior do que entrou", disse o analista político da Dharma Political Risk, Creomar de Souza.
"Acho também que tem o pacote Flávio Bolsonaro que é muito ruim. O nível de questões na biografia do Flávio teve um impacto", avaliou.
A vitória de Lula representa mais uma volta por cima em uma carreira marcada por reviravoltas. Lula esteve preso entre 2018 e 2019 por acusações de corrupção posteriormente anuladas, abrindo caminho para que derrotasse Jair Bolsonaro na eleição de 2022.
Durante a campanha, o petista destacou um histórico de redução da pobreza, da fome e da desigualdade, enquanto o desemprego, o analfabetismo e o desmatamento atingiram níveis recordes de baixa durante seu terceiro mandato.
Lula, que completa 81 anos na terça-feira e já é o presidente mais velho em exercício da história do Brasil, ignorou apelos para passar o bastão a uma nova geração.
Após Jair Bolsonaro ser condenado por tentativa de golpe em 2022, Lula apresentou a disputa deste ano como uma batalha pela democracia para a qual seria especialmente qualificado.
REALIDADE NO CONGRESSO
O quarto mandato de Lula, que também foi presidente entre 2003 e 2011, poderá ser o mais difícil de sua trajetória, uma vez que o Brasil elegeu o Congresso mais conservador desde a redemocratização.
O PL, partido de Bolsonaro, e legendas aliadas poderão controlar mais de 280 cadeiras na Câmara dos Deputados e até 50 assentos no Senado, garantindo maioria confortável em ambas as Casas.
"Ele provavelmente será um presidente enfraquecido desde o início", disse Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo.
Segundo Stuenkel, a próxima legislatura deverá aprofundar a tendência recente de transferência de Poder do Executivo para o Legislativo. Ele prevê que Lula enfrentará influência reduzida sobre indicações ao Supremo Tribunal Federal (STF), coalizões partidárias difíceis de administrar e até mesmo a ameaça de impeachment.
Além disso, a reação de aliados de Flávio à decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar por duas horas o horário de votação, sinaliza que haverá contestação ao resultado. "A apuração acaba hoje, mas a eleição ainda deve se prolongar um pouquinho, infelizmente", disse Creomar.
VENTOS CONTRÁRIOS NA ECONOMIA
Lula enfrentará uma economia que, segundo projeções do próprio governo, crescerá 2,3% no próximo ano, agravando preocupações fiscais relacionadas aos juros elevados e à dívida pública, que já supera 82% do PIB, o maior patamar desde a pandemia.
Críticos do presidente atribuem a situação ao aumento dos gastos públicos, embora os custos com juros tenham respondido pela maior parte da expansão da dívida.
O Goldman Sachs disse esperar que Lula avance apenas modestamente, na melhor das hipóteses, para conter despesas em um quarto mandato, à medida que mantém compromisso com um modelo de crescimento baseado na atuação do Estado.
O aumento do endividamento das famílias também preocupa economistas. Em uma tentativa de enfrentar o problema, Lula anunciou durante a campanha a proibição das apostas online e lançou uma nova fase de programa de renegociação de dívidas.
Especialistas afirmam que o novo Congresso, dominado pela direita, tentará aprovar reformas estruturais favoráveis ao mercado, enquanto eventuais cortes de gastos poderão alimentar tensões sociais.
Lula fez campanha com uma combinação de pragmatismo e populismo que marcou sua trajetória política ao longo de meio século, anunciando uma série de medidas voltadas para trabalhadores e brasileiros de baixa renda.
Essas propostas ganharam impulso com promessas na reta final da campanha que incluíram desde transporte público gratuito em fins de semana em todo o país, medida que ainda precisará ser formalmente enviada ao Congresso, até um aumento de 15% em seu programa social mais emblemático, o Bolsa Família.
Lula também defendeu a emenda constitucional que extinguiu a escala de trabalho conhecida como 6x1, na mais importante reforma da legislação trabalhista no Brasil em décadas, medida que acabou recebendo amplo apoio no Congresso.