O Itamaraty se manifestou nesta quarta-feira, 24, por meio das redes sociais, contra a ida de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos para participar de uma audiência pública realizada pelo governo americano antes da decisão final sobre a aplicação de um novo tarifaço de 25% para produtos brasileiros.
Na postagem, o governo brasileiro eleva o tom e ataca a postura do senador, que é também pré-candidato à presidência da República.
"Investigação da 301 e tarifas contra o Brasil Os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história. O Brasil sabe que o tarifaço tem sua origem em uma tentativa de interferência externa na Justiça brasileira."
A audiência pública será realizada em 6 de julho pelo USTR. O prazo para o envio de solicitações de comparecimento à audiência pública foi encerrado na segunda.
O governo Lula não enviará representantes. Segundo apurado pelo Estadão, a postura não é isolada do Brasil - a maioria não envia, uma vez que as negociações entre os países não se dão por meio de audiências públicas.
Investigação da 301 e tarifas contra o Brasil
Os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história. O Brasil sabe que o tarifaço tem sua origem em uma tentativa de interferência externa na justiça brasileira.
— Itamaraty Brasil (@ItamaratyGovBr) June 24, 2026
"As audiências públicas da Seção 301 nos Estados Unidos são espaço de atuação do setor privado e da sociedade civil. Outros importantes parceiros comerciais dos Estados Unidos, como China e União Europeia, tampouco enviam representantes às audiências públicas."
"O governo brasileiro tem participado ativamente nessa investigação pelos canais diretos de interlocução entre governos, desde sua abertura em 15de julho de 2025."
Na terça, 23, Flávio Bolsonaro, informou que se inscreveu para participar da audiência pública para "defender o Brasil" da proposta de aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. O governo Lula não enviará representante (veja abaixo).
A assessoria do senador divulgou o requerimento oficial de inscrição, feito ao Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para um depoimento oral em inglês e pessoalmente como testemunha, por cinco minutos.
No documento, ele se identifica como senador da oposição e pré-candidato à presidência da República e diz ter se encontrado pessoalmente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e com outras autoridades americanas.
Ele afirma que pedirá a suspensão da proposta de tarifa e solicita a abertura de uma negociação bilateral. E que a ação beneficiaria o próprio governo brasileiro e recairia sobre os exportadores brasileiros, os importadores americanos, os consumidores americanos e a oposição brasileira.
Na rede social X, o parlamentar também confirmou o pedido. "Vou defender os interesses do povo brasileiro! Vou fazer a minha parte para evitar que empresas brasileiras sejam ainda mais taxadas do que já são com o governo Lula", escreveu o pré-candidato.
Flávio acrescentou: "Como era de se esperar, Lula não move uma palha para evitar que elas sejam tarifadas. E a razão é muito simples: ele acredita que isso pode beneficiá-lo nas urnas em outubro, mesmo que isso custe quebrar as empresas brasileiras".
Por que o governo brasileiro não enviará representante?
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não vai enviar representantes do corpo diplomático e comercial para a audiência. De acordo com fontes ouvidas pelo Estadão/Broadcast, a gestão Lula entende que o encontro será feito para ouvir entidades que seriam afetadas pelas novas tarifas, como organizações e empresas.
Segundo uma fonte do Palácio do Planalto, a atuação está sendo feita no grupo de trabalho que discute a situação tarifária entre os Estados Unidos e o Brasil, criada após a reunião entre Lula e o presidente americano, Donald Trump, na Casa Branca, no dia 7 de maio.
O governo espera participar de duas novas reuniões do grupo de trabalho até o dia 15 de julho, prazo limite em que os Estados Unidos devem tomar a decisão final sobre a adoção de novas tarifas.
Dentro do governo, a avaliação é a de que os negociadores brasileiros estão "fazendo muito" há um ano e já reverteram parte do problema, considerado um desastre provocado pela família Bolsonaro. Fontes lembraram que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro foi, inclusive, condenado por coação no curso do processo e que a "artimanha" de participar desse evento não passa de "um factóide que não para em pé" e que "não precisa nem de VAR", numa referência ao árbitro tecnológico, muito usado em tempos de Copa do Mundo de Futebol.
Interlocutores salientaram que o governo brasileiro não participou de audiência pública similar do ano passado e decidiu não participar agora novamente por entender que é um espaço de atuação do setor privado e da sociedade civil. No entanto, garantem que, pelos canais entre Estados, o governo vem, desde o ano passado, apresentando a defesa das posições do País por escrito, em reuniões virtuais e presenciais, como tem sido divulgado ao longo do período.
Essa postura de não comparecer a esse tipo de evento não é apenas brasileira, conforme relatos, já que a maioria dos países não comparece. "Negociação entre Estados não se dá nas audiências públicas, simples assim", resumiu uma fonte, questionando por que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro decidiu apenas se envolver no tema agora.