Christopher Garman: Flávio Bolsonaro tem 70% de chance de vitória; virada é improvável

'Projetamos que o senador saia pelo menos três a quatro pontos à frente do presidente nas primeiras simulações de 2º turno', explica diretor executivo para as Américas na Eurasia Group

6 out 2026 - 15h05
Resumo
A consultoria Eurasia elevou para 70% a probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno contra Lula, considerando uma virada improvável. Segundo o analista Christopher Garman, a vantagem decorre da migração de eleitores indecisos motivados por um sentimento de estagnação e desejo de mudança, e não por alinhamento ideológico. O mercado financeiro reagiu com otimismo diante da promessa de uma ampla e rápida reforma fiscal logo após o pleito para conter os gastos públicos.

A Eurasia prevê 70% de probabilidade de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais. Antes do resultado do 1º turno, a Eurasia projetava chance de 55% de vitória para Lula (PT) com viés de baixa. "Com a diferença de dois pontos porcentuais de Flávio Bolsonaro sobre Lula no 1º turno e analisando o perfil dos votos dos candidatos alternativos, projetamos que Flávio Bolsonaro saia pelo menos três a quatro pontos à frente do presidente Lula nas primeiras simulações de 2º turno. Podemos elevar ainda mais a nossa probabilidade de vitória do senador", afirmou o diretor executivo para as Américas na Eurasia Group, Christopher Garman, em entrevista exclusiva à Broadcast.

Garman considera "razoavelmente improvável" uma mudança de cenário para o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva. "A vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula se deu com os eleitores indecisos que migraram por um senso de estagnação e desejo de mudança", avaliou. Para o diretor da Eurasia, a reação do mercado ao resultado do 1º turno está "bem fundamentada", já que a campanha do senador sinaliza para uma ampla reforma fiscal, tão logo o 2º turno termine. "Acreditamos que é crível e provável", apontou.

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Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

A Eurasia via probabilidade de 55% de vitória para o presidente Lula; agora prevê 70% de chance para Flávio Bolsonaro. O que motivou a mudança de posição? A chamada "vantagem da incumbência" foi anulada neste 1º turno?

Projetávamos 55% para Lula, com viés de baixa, porque víamos uma dinâmica desfavorável ao presidente Lula na semana anterior ao voto, mas, de fato, foi uma votação para a direita maior que a esperada. Ao longo do último mês, nossos modelos de previsão eleitoral apontavam para direções opostas. Um modelo no qual a aprovação de governo tinha maior peso apontava mais para a reeleição de Lula. Outro, em que pesava mais para a preocupação dos eleitores - segurança e corrupção, temas nos quais Lula tem menor credibilidade - era mais favorável a Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, as pesquisas de intenção de voto apontavam para empate técnico. Pelos modelos, não havia favoritismo, mas colocávamos um peso maior à incumbência e potencial fragilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro.

As pesquisas qualitativas apontam que há uma sensação de estagnação mais profunda no eleitor, um cansaço da classe média e do eleitor como um todo. Descobrimos no domingo que estes temas pesaram na decisão do eleitor, o que não calibramos com força suficiente. Não enxergamos como uma onda ideológica da direita, mas como uma expressão da estagnação. Ao mesmo tempo, a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula se mostrou maior que o esperado.

Essa vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula pode ser ampliada no 2º turno com eventuais apoios de outros candidatos da direita?

Com essa diferença de dois pontos porcentuais de Flávio Bolsonaro sobre Lula no 1º turno e analisando o perfil dos votos dos candidatos alternativos, projetamos que Flávio Bolsonaro saia pelo menos três a quatro pontos à frente do presidente Lula nas primeiras simulações de 2º turno. Considerando esse senso de estagnação com peso maior na decisão de voto e, se as pesquisas de intenção de voto, divulgadas entre quinta-feira e sexta-feira, mostrarem essa vantagem do senador de três a quatro pontos porcentuais, podemos elevar ainda mais a nossa probabilidade de vitória do senador.

Havia uma percepção de que as pesquisas não capturavam totalmente o voto da direita. Isso se confirmou novamente com os resultados deste domingo?

Sim. Estimamos que as pesquisas estavam com um viés de um ponto porcentual abaixo para Flávio. É preciso reconhecer que nos dois dias antes do voto, existe um fenômeno de voto útil com a tendência da vantagem do presidente Lula cair, mas também uma parcela eleitoral de indecisos que decide o voto mais próximo do dia. Parte desses eleitores mais indecisos migrou para o campo do Flávio Bolsonaro, o que pode ser explicado por esse senso de estagnação. Houve uma imprecisão dos institutos de pesquisa que novamente subestimaram o voto conservador, mas foi uma subestimação menor que há quatro anos: de seis pontos porcentuais para quatro pontos porcentuais.

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Então, essa migração do eleitor indeciso para Flávio Bolsonaro está atrelada mais a um sentimento de mudança do que a um alinhamento ideológico?

Essa vantagem do senador não vem de um eleitorado que se identifica como bolsonarista ou ideologicamente da direita. Essa vantagem vem dos quase 25% a 30% do eleitorado que se considera independente. As análises sobre esse eleitor mostram essa sensação de estagnação e um desejo de mudança. Esse sentimento pode ser explicado pelo fato de que o custo de vida permanece elevado, a renda das famílias comprometida com o pagamento de juros e múltiplas explicações econômicas. A crise institucional do Supremo reforçou esse pessimismo que já estava latente.

Saímos, portanto, de cenário sem favorito e de eleição apertada para vantagem a Flávio Bolsonaro. O que pode mudar esse cenário? Ainda há percepção de que Flávio não foi plenamente testado?

A campanha do PT vai tentar desconstruir a imagem do senador e tende a aumentar o tempo e o volume de críticas, tentando associá-lo às milícias do Rio de Janeiro; também pode haver novas denúncias. A diferença é que esse ataque ocorre em um contexto no qual o senador já está com uma folga razoavelmente maior nas pesquisas. A campanha de Lula tem de tentar vender uma mensagem de esperança e conversar com esse eleitor que está se sentindo estagnado, o que não foi feito tão bem no 1º turno. Acho que talvez esse foi o equívoco da campanha do PT, que começou listando os programas de governo sem reconhecer as dificuldades que o eleitor está sentindo. A campanha melhorou um pouco com o presidente dizendo que 'a vida está difícil'. Talvez tivesse de haver mais esse tipo de mensagem. A campanha do PT talvez subestimou essa estagnação, focou demais na figura do Flávio Bolsonaro e não focou suficientemente no ambiente eleitoral, que o deixou bem competitivo. É preciso uma correção de rumo e, se houver debates, Lula tem de ir muito bem no debate. Para mudança de cenário, é preciso haver uma combinação de todos esses fatores, o que é razoavelmente improvável hoje que ocorra.

Se o eleitor está voltado a esses temas da segurança e com esse sentimento de estagnação, medidas econômicas, o chamado pacote de bondades do governo, surtiriam efeito para melhora do humor e conversão de voto?

Medida econômica sempre tem efeito defasado. Todos os programas que foram anunciados em setembro não surtiram quase nenhum impacto na aprovação do presidente, apesar de terem freado a tendência de queda. As medidas mudaram o eixo do debate público, o que foi bem-sucedido, mas não conseguiram converter votos. Novos anúncios dificilmente vão afetar o voto. Para reversão, teria de haver uma desconstrução da candidatura do Flávio Bolsonaro somada a uma performance muito boa de debate de Lula e a ajustes na comunicação da campanha. É um caminho estreito e novas medidas por si só dificilmente mudam o cenário. Além de que, com a expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro cristalizada na classe política, a probabilidade do Senado até aprovar o fim da escala 6x1 também cai, na medida em que lideranças partidárias querem construir pontes para o provável futuro presidente.

Vimos ontem uma reação forte do mercado ao resultado do 1º turno com queda dos juros futuros e do dólar ante o real. Até o momento, nenhum dos dois candidatos detalhou ações concretas sobre a questão fiscal. O que leva o mercado a dar uma credibilidade maior a Flávio do que a Lula nesse tema?

Fizemos um upgrade na nossa trajetória do Brasil de neutro para positivo no curto prazo com a expectativa de uma reforma fiscal mais robusta e com altas chances de aprovação. Acreditamos que a reação do mercado e dos ativos está bem fundamentada. Acreditamos que uma reforma fiscal é crível e provável. A equipe do senador não tem detalhado como um ajuste fiscal deve ser feito, mas a coordenadora da equipe econômica, Daniella Marques, tem argumentado a necessidade de fazer um corte de gastos de quase 2% do PIB ou R$ 200 bilhões. Achamos difícil que se faça um ajuste fiscal desse nível por corte na despesa discricionária, mas o importante é colocar uma emenda constitucional na mesa que mude as regras obrigatórias do gasto público. Eles reconhecem a necessidade de fazer um choque de credibilidade fiscal rápido com a ideia de envio de uma Proposta de Emenda Constitucional ao Congresso imediatamente depois do 2º turno. Isso sinaliza o intuito de tentar aprovar uma reforma fiscal de forma relâmpago, que provavelmente virá com uma meta de dívida/PIB, limite constitucional de gasto e gatilhos de corte de gastos se as metas não forem atingidas. A equipe não sinaliza quais serão esses gatilhos e os cortes que poderão vir a ser feitos por razões eleitorais de não criar desgaste à campanha do senador.

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Esses sinais dados até então são suficientes para a credibilidade atribuída à candidatura de Flávio Bolsonaro no tema fiscal?

Olhando o perfil da equipe econômica de Flávio Bolsonaro e o diagnóstico da necessidade de um choque de credibilidade, acreditamos que essa reforma fiscal tende a ser ampla o suficiente para criar condições para o Banco Central reduzir juros de maneira mais ampla em 2027. Esse é o principal gargalo para a economia brasileira. Acreditamos que o governo de Flávio Bolsonaro deve atacá-lo com condições políticas de aprová-lo. Temos um Congresso mais centro-direita, ao mesmo tempo, governantes geralmente têm um capital político maior no início do mandato. Não vemos que uma tensão e um possível conflito com o Supremo Tribunal Federal possam minar o caminho para aprovar essa reforma. Parlamentares já reconhecem que, sem endereçar o gasto obrigatório, o espaço para pagamento de emendas vai cair. Há espaço para aprovação dessa reforma fiscal.

Por outro lado, o mercado mantém o ceticismo quanto a um ajuste fiscal do governo Lula?

Os sinais vindos do Palácio do Planalto sobre a necessidade de alguma reforma fiscal estão melhorando. Hoje, o nome mais provável para ser ministro da Fazenda em um eventual governo Lula, o que é improvável que venha a ocorrer, seria o vice-presidente Geraldo Alckmin. Também há um reconhecimento dentro do campo do PT e do Palácio do Planalto da necessidade de endereçar as regras do gasto obrigatório, mesmo que de uma maneira não tão ampla quanto a do campo da direita. Na campanha de Flávio, há um sinal claro da necessidade de uma reforma fiscal mais ampla para criar espaço para redução de juros.

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