Publicações nas redes sociais resgatam, fora de contexto, um artigo de opinião de agosto de 2025 do The Wall Street Journal como se fosse recente. No texto, a colunista Mary Anastasia O'Grady acusava o STF e o ministro Alexandre de Moraes de aplicarem um golpe de Estado, criticando inquéritos sobre fake news e milícias digitais. A checagem do Estadão Verifica esclarece que o conteúdo reflete a opinião antiga da autora, e não uma posição institucional recente do jornal norte-americano.
O que estão compartilhando: que o veículo de notícias americano The Wall Street Journal (WSJ) teria afirmado que o ministro Alexandre de Moraes e outros membros do Supremo Tribunal Federal (STF) estão dando um golpe de estado no Brasil.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: falta contexto. Um artigo de opinião publicado no WSJ em agosto do ano passado está circulando como se fosse recente. Na época, a colunista Mary Anastasia O'Grady citou o inquérito das fake news e o das milícias digitais, e criticou a autoridade de Alexandre de Moraes no judiciário brasileiro.
Saiba mais: Mary Anastasia O'Grady escreve uma coluna semanal sobre política, economia e negócios das Américas, no jornal americano The Wall Street Journal. A colunista é conhecida por suas visões conservadoras e críticas a governos de esquerda na América Latina.
Recentemente, um artigo de opinião publicado por O'Grady no WSJ que critica o STF voltou a circular. Postagens utilizam um trecho do noticiário Os Pingos nos Is, da Jovem Pan. O vídeo original, no entanto, é do dia 25 de agosto de 2025, e o artigo discutido, do dia 10 daquele mês.
Isso é antes das eleições presidenciais e da divulgação das conexões entre membros da Corte com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que foi preso pela primeira vez em novembro daquele ano.
O artigo de O'Grady, intitulado Um golpe de Estado na Suprema Corte do Brasil, acusa o ministro Alexandre de Moraes de "censurar críticos e prender opositores sem qualquer controle político". Três dias antes, o editorial do Estadão publicou um texto de opinião criticando Moraes, argumentando que a Corte precisava obedecer os limites do Estado de Direito "não só diante do reiterado golpismo bolsonarista, mas também ante os excessos de Alexandre de Moraes".
Na época, Moraes era o relator do inquérito das fake news e das milícias digitais. Em setembro deste ano, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, retirou o ministro da condução do inquérito das fake news e transferiu o caso para a Presidência da Corte. Isso aconteceu após o Estadão divulgar mensagens entre Vorcaro e Moraes sobre detalhes da Operação Compliance Zero, que investiga o ex-banqueiro.
As ideias de O'Grady foram analisadas pela imprensa na época. A colunista criticou, por exemplo, a criação do inquérito das fake news, em 2019, que foi aberto por decisão direta do então presidente do STF, Dias Toffoli, sem a participação do Ministério Público, que é a instituição responsável por investigar e denunciar criminalmente no País, segundo a Constituição Federal.
"Isso foi uma violação dos direitos constitucionais dos brasileiros, que têm o direito de ter seus processos criminais julgados em tribunais locais e estaduais, com acusações apresentadas por promotores locais e estaduais", argumentou a colunista.
Em junho de 2020, o Supremo julgou a legalidade do inquérito das fake news, após forte contestação. Prevaleceu o entendimento de que a Presidência do STF pode abrir inquéritos de ofício com base no regimento da Corte.
No texto de 2025, O'Grady também citou o inquérito das milícias digitais, de 2021, "que forçou a censurar conteúdo e desmonetizar brasileiros que tinham opiniões que o tribunal considerou inaceitáveis", segundo ela.
Segundo reportagem publicada pelo Estadão, "gabinete do ódio" ou "milícias digitais" foram os nomes dados a um núcleo organizado dentro do Palácio do Planalto envolvendo membros e assessores da família Bolsonaro para promover ataques a adversários políticos do ex-presidente Jair Bolsonaro. A estrutura é alvo do inquérito das milícias digitais, sob relatoria de Moraes.