A incerteza continua

Mesmo com recursos crescentes, deputados continuam vulneráveis às urnas

11 out 2026 - 11h32
Resumo
Apesar dos recursos recordes com fundos bilionários e emendas impositivas, a reeleição de deputados federais em 2026 foi de apenas 54%, abaixo da média histórica. Essa vantagem financeira não garantiu vitórias porque a conversão de verbas em votos depende de intermediários locais voláteis, além de enfrentar a concorrência intrapartidária do sistema proporcional. O paradoxo mostra que o dinheiro elevou o custo da disputa sem anular a incerteza eleitoral, elemento vital para a democracia.

Nunca os deputados federais brasileiros tiveram tantos recursos para construir e preservar suas bases eleitorais. Além dos fundos partidário e eleitoral bilionários, cada parlamentar dispõe de cerca de R$ 40 milhões anuais em emendas individuais impositivas.

Seria razoável esperar que tamanha vantagem tornasse a reeleição cada vez mais segura. Mas as urnas de 2026 contrariaram essa expectativa. Segundo a série histórica, apenas 54% dos deputados renovaram seus mandatos em 2026, abaixo da média histórica de 63%.

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Nunca os deputados federais brasileiros tiveram tantos recursos para construir e preservar suas bases eleitorais. Foto ilustrativa.
Nunca os deputados federais brasileiros tiveram tantos recursos para construir e preservar suas bases eleitorais. Foto ilustrativa.
Foto: Divulgação/Câmara dos Deputados / Estadão

Embora superior ao resultado de 2018, quando a reeleição atingiu seu menor patamar histórico recente (47%), o percentual revela que a sobrevivência eleitoral continua longe de ser garantida. Nem mesmo a expansão dos recursos orçamentários à disposição dos parlamentares parece ter revertido essa trajetória.

Por que, afinal, tanto dinheiro não se traduz em maior segurança eleitoral? No Brasil, a conexão entre deputados e eleitores passa por uma complexa rede de intermediários: prefeitos, vereadores, empresários, lideranças religiosas, sindicatos e associações locais. São eles que frequentemente transformam recursos obtidos em Brasília em reconhecimento político nos municípios.

Ocorre que distribuir dinheiro não equivale a conquistar votos. É preciso que o eleitor atribua ao deputado o benefício recebido e que as lideranças locais tenham incentivos para mobilizar apoio em seu favor. Prefeitos e vereadores, porém, não pertencem a um único parlamentar: negociam com diferentes aliados, recebem recursos de várias fontes e podem mudar de lado. O deputado pode controlar a destinação da verba, mas não necessariamente sua conversão em votos.

O sistema proporcional de lista aberta intensifica essa incerteza. O incumbente disputa eleitores não apenas com adversários de outros partidos, mas também com candidatos da própria legenda ou federação. Quando muitos concorrentes dispõem de recursos, a vantagem financeira individual diminui e a disputa pelas redes locais se acirra.

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Daí o paradoxo: mais dinheiro pode elevar os custos da competição sem assegurar a vitória. Novas lideranças surgem, alianças se desfazem e antigos redutos eleitorais deixam de ser exclusivos. Isso não significa igualdade de condições. Deputados em exercício continuam privilegiados diante dos desafiantes. Significa apenas que suas vantagens não são invencíveis.

Mesmo em um Congresso cada vez mais poderoso sobre o orçamento, seus integrantes permanecem sujeitos ao risco da derrota. E essa incerteza, embora não garanta por si só boa representação, é indispensável à responsabilização democrática.

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