Diante da dívida pública recorde e juros altos, a economia domina os planos dos presidenciáveis para 2026. As propostas dividem-se entre rigor fiscal e reformas administrativas, consolidação do arcabouço e cortes tributários. Para o crescimento a longo prazo, os candidatos debatem a exploração de terras raras, atração de investimentos, inteligência artificial e novas alianças comerciais globais, oscilando entre o fortalecimento de blocos como os BRICS e a aproximação com mercados ocidentais e asiáticos.
Planos de governo expõem modelos antagônicos para conter dívida pública, impulsionar a reindustrialização e posicionar o país no comércio global.O Brasil segue no pódio das economias com os maiores juros reais do mundo. Desde o início de 2022, a taxa básica de juros (Selic) permanece em dois dígitos — agora em 13,75% —, exercendo forte pressão sobre a trajetória das contas públicas. O nível elevado se reflete nas altas taxas de inadimplência das famílias, no aperto financeiro do setor produtivo e na estagnação dos investimentos. Diante desse cenário, a agenda econômica virou tema central nas campanhas para a Presidência em 2026.
A preocupação com as contas públicas é reforçada pelos indicadores: a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em julho de 2026, somando R$ 10,9 trilhões, em um momento em que uma pesquisa recente do instituto BTG/Nexus mostrou que 53% dos eleitores entrevistados classificam a situação econômica do país como ruim.
Mas além do equilíbrio fiscal, os programas de governo também se debruçam sobre vetores de crescimento de longo prazo: exploração de minerais críticos, produtividade, reforma tributária, parcerias comerciais e inserção do país no comércio global.
Confira as principais propostas de quatro eixos econômicos:
Contas públicas e ajuste fiscal
Ronaldo Caiado (PSD): Propõe o "Orçamento da Verdade", um diagnóstico de despesas obrigatórias, passivos, subsídios, benefícios tributários e riscos fiscais. Estabelece estratégia fiscal plurianual para limitar o crescimento de gastos obrigatórios abaixo do PIB nominal, além de prever a revisão de subsídios, subvenções e benefícios tributários e o combate aos supersalários.
Flávio Bolsonaro (PL): Defende o corte de no mínimo 10 ministérios, redução de cargos comissionados e o fim de penduricalhos e supersalários. Propõe reformular as regras fiscais com foco na redução da relação Dívida/PIB para reconduzir os juros à média internacional.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT): Sustenta a execução do arcabouço fiscal aprovado em sua gestão, buscando controlar despesas sem comprometer investimentos e políticas sociais, com meta de aproximar o déficit primário do equilíbrio fiscal.
Romeu Zema (Novo): Defende um "choque fiscal" pautado na privatização de estatais e no enxugamento da máquina pública por meio de uma reforma administrativa. Também propõe uma nova Reforma da Previdência abrangendo estados, municípios, rural e militares, com mecanismo de reajuste automático da idade mínima para aposentadoria com base na expectativa de vida, além de eliminar supersalários.
Renan Santos (Missão): Propõe a "PEC do Equilíbrio Fiscal", estimando economia acumulada de até R$ 1,1 trilhão até 2031. A medida prevê a desindexação de benefícios previdenciários do salário mínimo (com correção apenas pela inflação), a desvinculação dos pisos de saúde e educação da receita.
Augusto Cury (Avante): Estabelece meta de déficit público próximo de zero e redução gradativa da dívida pública mediante controle de custos ministeriais e metas de eficiência nas pastas. Também defende o uso de Inteligência Artificial (IA) para isso, com cruzamento de dados para combate a fraudes, evitar desperdícios e ineficiências administrativas.
Reindustrialização e minerais críticos
Ronaldo Caiado (PSD): Defende a reindustrialização a partir de vantagens brasileiras, como nas áreas de segurança energética, defesa, bioeconomia e minerais críticos. Propõe negociar o acesso do investimento estrangeiro a recursos em troca de valor agregado, tecnologia, qualificação e fornecedores locais.
Flávio Bolsonaro (PL): Propõe atuação do Estado como regulador no setor de terras raras através de marcos regulatórios estáveis, licenciamento ágil e atração de investimentos privados. Também propõe transformar o país em polo global de data centers sustentáveis aproveitando a matriz elétrica renovável.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT): Defende o fortalecimento industrial com foco em digitalização, modernização de maquinários e uso de IA. Também propõe política específica para minerais críticos e terras raras com uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos.
Romeu Zema (Novo): Defende a atração de investimentos privados internacionais para a exploração e processamento sustentável de terras raras e minerais de alto valor e propõe a retomada do levantamento geológico do território nacional com dados abertos e padrão internacional.
Renan Santos (Missão): Defende a criação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), que contarão com um regime tributário próprio. O plano também prevê uma ZEE específica para terras raras, além de uma PEC para declarar o setor matéria de segurança nacional e previsão de aporte de R$ 20 bilhões em 10 anos via BNDES e parceiros internacionais para financiar o segmento de minerais críticos.
Augusto Cury (Avante): Defende o Programa Nacional para implantação de 10 mil novas indústrias e uma política de atração de investimentos para a produção de chips e componentes elétricos. No projeto Petra BR, focado em terras raras e minerais estratégicos, propõe o incentivo de cadeias produtivas completas em território nacional, desde a extração até a fabricação de componentes tecnológicos de alto valor agregado.
Tributação e impostos
Luiz Inácio Lula da Silva (PT): Defende a consolidação da reforma tributária, além de condicionar a oferta de crédito público, assistência técnica, incentivos fiscais e a política de compras governamentais a compromissos com a geração de empregos de qualidade. Para autônomos e pequenos empreendedores, também propõe a simplificação tributária.
Flávio Bolsonaro (PL): Propõe a revisão e o redimensionamento da Reforma Tributária aprovada para reduzir a carga sobre a produção e o consumo. Além disso, propõe desoneração das exportações e dos investimentos e redução das exceções, para que grupos parecidos paguem impostos parecidos.
Ronaldo Caiado (PSD): Defende realizar uma revisão ampla de subsídios, subvenções e benefícios tributários, eliminando incentivos que não comprovem contrapartidas econômicas ou sociais.
Romeu Zema (Novo): Propõe fixar metas progressivas de redução da carga tributária e a reformulação da tributação sobre empresas (como Imposto de Renda das Empresas), adotando cálculo automatizado pela Receita Federal via Nota Fiscal Eletrônica.
Renan Santos (Missão): Propõe a redução de R$ 104 bilhões em isenções e gastos tributários (renúncias fiscais) como parte da PEC para equilibrar as contas públicas e a suspensão de direitos aduaneiros e de regime específico de IBS/CBS para as Zonas Econômicas Especiais.
Augusto Cury (Avante): Defende a revisão do atual formato de divisão federativa dos tributos para transferir maior fatia da arrecadação aos municípios, acompanhada de avaliação permanente dos impactos da reforma tributária sobre micro e pequenas empresas, para evitar distorções.
Acordos internacionais e exportação
Augusto Cury (Avante): Defende a expansão das exportações com redução da dependência de commodities e aumento de bens industrializados e de alto valor agregado. Também propõe o Embaixada 4.0, fixando metas de abertura de mercados, atração de investimentos e apoio a exportadores e remanejando 20% do pessoal alocado nos EUA para reforçar a presença do Brasil na Índia e em emergentes da Ásia.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT): Propõe a diversificação de mercados exportadores de maior valor agregado, a ampliação de acordos comerciais e o aprofundamento das alianças geopolíticas e econômicas no âmbito do BRICS e do Sul Global.
Ronaldo Caiado (PSD): Defende a ampliação de acordos comerciais focados na inserção em cadeias globais de valor, diversificando pautas de exportação para o Sudeste Asiático, Oriente Médio e África, além da fixação de metas de exportação, investimento, tecnologia e abertura de mercados para embaixadas e representações.
Romeu Zema (Novo): Propõe a saída do Brasil do Brics (mantendo as relações comerciais com os países membros) e defende o ingresso do país na OCDE, além da flexibilização do Mercosul para permitir acordos bilaterais diretos (em que os países negociam sozinhos).
Renan Santos (Missão): Propõe uso pragmático do Brics, plano de desdolarização do comércio na América do Sul por meio de uma cesta de moedas liderada pelo real e criação de uma rede de cooperação econômica com países da comunidade Lusófona.
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