Em sua primeira parada na viagem que faz à Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) evitou se aprofundar no conflito desencadeado na Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em janeiro.
"Tenho muitas preocupações no Brasil para me preocupar com a Venezuela. O que eu quero é que a Venezuela fique bem e seja feliz, sem tutela de ninguém", disse Lula em entrevista coletiva a jornalistas brasileiros e espanhóis na manhã desta sexta-feira (17/4), em Barcelona, na Espanha.
Lula não reconheceu o resultado das eleições venezuelanas depois que Maduro se recusou a enviar às autoridades brasileiras documentos que comprovassem a autenticidade do pleito.
Agora, o presidente afirma que a vice, Delcy Rodríguez, ocupa legitimamente o poder após a vacância causada pela prisão, mas procurou não estender o debate.
"A Venezuela é um destino dos venezuelanos. A presidente Delcy está no poder, legitimamente, porque, na medida em que o presidente caiu, ela era vice e assumiu. Se ela quer ou não convocar eleições, é problema dela, do povo dela, da Venezuela", afirmou.
A declaração foi feita após uma pergunta dirigida ao primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Ele foi questionado sobre a possibilidade de um encontro com María Corina Machado, líder da oposição venezuelana, que está em Madri.
A opositora afirma ter vencido as eleições no país no ano passado e acusa Maduro de fraude. Sánchez respondeu que chegou a oferecer uma reunião a Machado, mas ela teria recusado o convite.
Lula pousou em Barcelona no fim da noite de quinta-feira (16/4), por volta das 23h no horário local, às 18h em Brasília. A agenda de sexta-feira começou com uma reunião a portas fechadas com Sánchez, seguida de encontros com ministros de Estado espanhóis e brasileiros, no Palácio de Pedrálbes.
Foram assinados 15 acordos entre os dois países, com destaque para as áreas de minerais críticos, economia social e solidária, assuntos consulares, cooperação cultural, ciência e tecnologia, igualdade de gênero e igualdade racial, firmados na presença de jornalistas.
'Ninguém tomará a riqueza mineral do Brasil'
Um dos principais acordos firmados diz respeito aos chamados minerais críticos — lítio, níquel, cobalto, nióbio, cobre, manganês e grafite.
Eles são essenciais para a produção de componentes tecnológicos, como baterias para veículos elétricos, e também para a indústria bélica, sobretudo a fabricação de aeronaves, drones e armamentos.
Os Estados Unidos têm alta dependência da China para a aquisição desses minerais, enquanto o Brasil dispõe de reservas ainda inexploradas.
Antes da Espanha, o único país com o qual o Brasil havia firmado um acordo sobre o tema era a Índia, durante visita do presidente Lula ao país, em fevereiro.
Mas ambos os documentos não dizem respeito à extração de minérios, e sim à cooperação na área. Isso porque, afirmou Lula, a ideia é que seja criada uma cadeia produtiva para evitar a exportação de matéria-prima bruta.
"O Brasil já deixou passar o ciclo do ouro, em que levaram tudo, enriqueceu vários países, e o Brasil ficou pobre. A América Latina já deixou passar o ciclo do ouro, o ciclo da prata, da pérola e da madeira", disse o presidente.
"Não podemos agora permitir que a riqueza que a natureza nos deu não permita que a gente fique rico. Estamos dispostos a fazer acordo com todos os países que quiserem fazer acordo com o Brasil. Mas ninguém, ninguém a não ser o Brasil, será dono da nossa riqueza mineral."
Lula evita menções a Trump
A pergunta feita a Lula mencionava o interesse de Donald Trump nos minerais críticos do Brasil. O presidente, no entanto, adotou um tom mais comedido e, em nenhum momento, até agora, citou diretamente o líder americano.
A passagem pela Espanha, na avaliação de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, é vista como um campo minado nesse sentido.
Para Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais da Universidade Internacional da Flórida, Lula deve "tomar cuidado para não apertar os botões errados" e evitar se empolgar nas críticas ao republicano.
Uma declaração em uma ocasião como esta, diante de jornalistas do mundo inteiro, pode ter repercussão mais ampla — e mais rápida, em diferentes idiomas — do que falas feitas no dia a dia no Brasil.
Em outras palavras, afirma o professor, Lula terá de equilibrar eventuais críticas a Trump — para dialogar com sua base e aliados de esquerda — sem elevar o tom a ponto de afastar outra parcela do eleitorado, que considera essencial manter uma boa relação com os Estados Unidos e com o próprio presidente americano.
Esse cálculo ocorre em um cenário eleitoral sensível. O senador Flávio Bolsonaro (PL), que se consolida como o principal adversário de Lula, aparece numericamente à frente em pesquisas de intenção de voto para um eventual segundo turno.
Na pesquisa mais recente da Quaest, divulgada na quarta-feira (15/4), Lula tem 40% das intenções de voto, contra 42% de Flávio.
O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, deixou o Brasil para viver nos Estados Unidos e se aproximar de figuras-chave do governo Trump.
Esse movimento reforça, entre eleitores que rejeitam Lula, a percepção do filho de Jair Bolsonaro (PL) como uma ponte mais confiável na relação entre Brasil e Estados Unidos, segundo analistas.
No sábado (18/4), Lula participa de um evento promovido por Sánchez que reúne lideranças progressistas diante do avanço da direita radical. Trata-se do Global Progressive Mobilisation (Mobilização Progressista Global, em tradução livre), uma iniciativa que discute temas como ameaças à democracia, desinformação e violência de gênero.
No domingo (19/4), o presidente segue para Hannover, na Alemanha, onde participa de uma feira de negócios e tecnologia.
A viagem será encerrada na terça-feira (21/4), com uma visita a Lisboa, capital de Portugal.