Enquanto planeta aquece, crise climática é ignorada nas eleições

30 set 2026 - 16h51
Resumo
Apesar do ano de calor recorde, a crise climática é ignorada nas eleições presidenciais, segundo análise de ONGs socioambientais. Embora apresente o plano mais consistente no combate ao desmatamento, Lula é criticado por incentivar a exploração de combustíveis fósseis. Flávio Bolsonaro propõe enfraquecer órgãos de fiscalização e ampliar o petróleo, Augusto Cury carece de propostas detalhadas e o próximo presidente enfrentará um Congresso conservador com histórico de retrocessos ambientais.

Principais presidenciáveis apresentam propostas consideradas insuficientes para enfrentar a emergência do clima. Análise aponta Lula como o mais consistente, mas vê contradições em seu plano.Num ano que tem tudo para bater o novo recorde de temperatura e após o mês de agosto mais quente da história, as eleições de outubro para presidente passam longe do debate sobre clima. Embora a expressão "meio ambiente" apareça nos planos de governo dos candidatos mais bem colocados nas pesquisas, as propostas não estão à altura da emergência.

Enchentes como as que ocorrem no Rio Grande do Sul em 2024 podem se tornar mais frequentes no futuro
Enchentes como as que ocorrem no Rio Grande do Sul em 2024 podem se tornar mais frequentes no futuro
Foto: DW / Deutsche Welle

Em busca do seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o único que apresenta estratégias mais claras para o enfrentamento da crise. A atual gestão assumiu a presidência em 2023 após anos de alta do desmatamento e abandono de políticas socioambientais por Jair Bolsonaro.

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"E agora, em campanha, Lula é o único que apresenta um plano mais consistente em clima. Ele reflete um pouco o que está acontecendo em termos de política climática e ambiental de uma forma mais ampla", analisa Suely de Araujo, do Observatório do Clima.

A rede da qual Araujo faz parte, formada por mais de 170 organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais, analisou os planos dos presidenciáveis e levou em consideração o histórico de atuação dos candidatos.

Entre as propostas, os especialistas identificaram pontos de alerta de Lula, inconsistências de Flávio Bolsonaro e falta de estrutura nas propostas de Augusto Cury, terceiro colocado nas intenções de voto.

"A agenda socioambiental está longe de ser prioritária para todos os candidatos. Em verdade, a maioria dos presidenciáveis ignora a necessidade de enfrentar a crise climática, mesmo que ela já seja uma realidade e se manifeste no país por meio de secas rigorosas, queimadas e enchentes com grande potencial destrutivo", avalia o Greenpeace.

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Lula e o petróleo

O programa proposto pelo governo que busca a reeleição, segundo a análise técnica, aponta boas pautas socioambientais e de combate às mudanças climáticas. Segundo o levantamento, as propostas acabam se destacando em relação aos demais concorrentes principalmente pela reconstrução da governança ambiental e o combate à destruição das florestas.

Mas há ressalvas. A principal crítica está voltada para o setor de energia: apesar de as fontes renováveis aparecerem como estratégicas, Lula aposta na produção de combustíveis fósseis, os maiores responsáveis pelas mudanças climáticas. "Essa expansão de petróleo é uma contradição no governo Lula e é uma preocupação. Mas isso está presente desde o início do governo", pontua Araújo.

Lula tem defendido a busca por petróleo na bacia marítima da Foz do Amazonas, projeto atualmente em curso pela Petrobras. Depois de um longo e conturbado processo de licenciamento, a empresa obteve em outubro de 2025 a autorização para perfurar o poço FZA-M-59 e afirmou, em agosto, ter identificado a presença do combustível no local.

A postura de um Bolsonaro

Em suas 79 páginas, que listam os planos de governo de Flávio Bolsonaro, o candidato afirma que vai tratar o meio ambiente como um ativo estratégico, e não como um obstáculo ao desenvolvimento. E, para isso, diz que vai "eliminar superposições entre Ibama, Funai e ICMBio" para dar eficiência à fiscalização.

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Esta formulação é avaliada como preocupante pelo Observatório do Clima. "Não existem essas superposições que ele fala. O que ele quer? Enfraquecer o poder dos órgãos ambientais?", comenta Araújo.

Em diversos momentos de sua trajetória parlamentar, Flávio demonstrou pouco apoio à atuação dessas entidades. Um dos exemplos mais recentes ocorreu durante a campanha, num evento em Manaus no qual o candidato chamou os órgãos ambientais de ideológicos e de esquerda. Na ocasião, o presidenciável defendia a conclusão do asfaltamento da rodovia BR-319, que liga a capital do Amazonas a Porto Velho, em Rondônia.

Flávio também defende a expansão do petróleo e gás natural, além de promover a liberação do fracking. Essa técnica de extração de combustível fóssil pelo fraturamento hidráulico injeta água e outros produtos no subsolo sob alta pressão, quebra as rochas e libera o material de interesse. Mas seu potencial de impacto ambiental é altíssimo.

Como parlamentar, Flávio Bolsonaro é notório por votar contra as causas ambientais. Ele sequer reconhece a existência da crise climática em curso e a atividade humana como causadora dela, aponta o Greenpeace.

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A promessa de acabar com o desmatamento ilegal até 2029 apresentada no plano também destoa da postura parlamentar de Flávio. Em 2019, ele foi o autor do PL nº 2362/2019, que tentava acabar com a obrigatoriedade da reserva legal - área de vegetação nativa que deve ser mantida em toda propriedade rural, segundo a lei.

Pouco ou nada

Sem qualquer atuação na vida política, o estreante Augusto Cury é psiquiatra e escritor. Apesar de trazer em seu plano de governo propostas para o combate às mudanças climáticas e prevenção de desastres, seu plano liga as pautas ambientais a projetos de modernização econômica, desenvolvimento tecnológico e expansão produtiva.

"É um plano muito ruim. É difícil até contextualizar com a atuação pregressa porque ele não tem. O plano do Cury fala em renováveis, prevenção de incêndios, mas não detalha como que isso vai ser feito", detalha Araujo.

Renan Santos, que também nunca teve um mandato político, apresenta poucas propostas. As que aparecem no papel, analisa o Observatório do Clima, pioram o quadro de proteção ambiental e de atuação do país na agenda climática.

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Quem governa

O candidato vitorioso que assumir o posto em 2027 vai lidar com um Congresso consideravelmente renovado. Junto com o presidente, serão eleitos todos os 513 assentos disponíveis para deputados federais e 54 das 81 cadeiras para senadores serão renovadas.

A atual legislatura é marcada por aprovações de projetos polêmicos que causaram diversos retrocessos ambientais, apontam especialistas ouvidos pela DW. Entre eles está o novo licenciamento ambiental (PL nº 15.190/2025), que flexibilizou regras e dispensou alguns projetos da obrigatoriedade de apresentarem estudos de impacto.

A plataforma digital Congresso Anti-Indígena, alimentada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), mostra que 88% das votações de projetos que atingem indígenas tiveram resultados desfavoráveis para os povos originários. Esse dado, diz o Cimi, mostra o controle expressivo da pauta por setores contrários aos direitos indígenas.

"Uma bancada muito alinhada ao agronegócio predatório e à extrema direita que, como mostra a análise dos programas dos presidenciáveis, nega a existência de uma crise climática e, na prática, impõe retrocessos ambientais, significaria abrir as portas para a destruição", alerta o Greenpeace.

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