De Eduarda Campopiano a Ana Elisa: as estratégias das 18 jovens eleitas para o Legislativo em 2026

Tanto à esquerda quanto à direita, candidatas tiveram em comum campanhas centradas nas redes sociais, mostra levantamento do Monitor Jovem DX

14 out 2026 - 17h24
Resumo
Nas eleições de 2026, 18 mulheres com menos de 29 anos foram eleitas para o Legislativo brasileiro, impulsionadas pelo uso estratégico das redes sociais, mais decisivo que o financiamento tradicional. O relatório Monitor Jovem DX revela contrastes ideológicos: a extrema-direita apostou no confronto e em pautas morais, a direita em trajetórias pessoais e religiosas, e a esquerda em direitos e mobilização coletiva. Contudo, laços familiares políticos e mandatos prévios continuaram determinantes.
Eduarda Campopiano (PL-SP), Ana Elisa (PT-MG), Paula Prata (PSD-MA), Estefane Sampaio (Republicanos-DF): eleitas apostaram em campanha nas redes, mas com estratégias diferentes
Eduarda Campopiano (PL-SP), Ana Elisa (PT-MG), Paula Prata (PSD-MA), Estefane Sampaio (Republicanos-DF): eleitas apostaram em campanha nas redes, mas com estratégias diferentes
Foto: Reprodução/Instagram / BBC News Brasil

No último dia 4 de outubro, os brasileiros elegeram 1.532 representantes para o legislativo, entre deputados federais, estaduais e distritais. Desse total, 59 têm menos de 29 anos, sendo 41 homens e 18 mulheres.

Entre as eleitas, dois nomes chamaram atenção. À direita, Eduarda Campopiano (PL-SP), de 23 anos, que se tornou a deputada estadual mais votada em São Paulo, com 1,9 milhão de votos. À esquerda, Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos, que estreou na política como a deputada federal mais votada de Minas Gerais, com 524 mil votos.

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Apesar de estarem em campos políticos opostos, as duas candidatas têm algo em comum: construíram suas campanhas nas redes sociais.

O mesmo vale para as demais eleitas. Mais do que recursos financeiros, a internet foi fundamental para dar visibilidade às candidaturas de mulheres jovens que tiveram sucesso nesta eleição.

Essa é uma das constatações da mais recente edição do Monitor Jovem DX, ao qual a BBC News Brasil teve acesso com exclusividade.

O projeto, que monitorou as campanhas digitais de candidaturas jovens ao Legislativo em 2026, foi desenvolvido pelo Instituto Democracia em Xeque em parceria com o Núcleo de Pesquisas em Psicologia Política e Movimentos Sociais (NUPMOS - PUCSP) e apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil.

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O novo relatório analisou especificamente a atuação de mulheres jovens (com idade de até 29 anos na data da posse) e encontrou diferenças significativas nas estratégias digitais das candidatas de esquerda e direita, algo que dialoga diretamente com a disputa por eleitores no atual cenário de polarização política no Brasil — e neste segundo turno.

Quem são as jovens eleitas

Em 2026, 334 mulheres de até 29 anos se candidataram a cargos no legislativo, quase metade das 576 que buscaram se eleger em 2022.

A queda de 48,6% é maior do que a registrada entre homens jovens (24%) e maior do que a retração global no número total de candidaturas observada neste ano (20,5 mil), de cerca de 30% em relação à última eleição.

A taxa de sucesso de candidaturas femininas jovens, contudo, foi maior. Do total, 5,4% conseguiram se eleger, a maior proporção desde o início da série no Monitor Jovem DX, em 2014, quando apenas 0,9% tiveram êxito.

Em termos absolutos, o total de eleitas é semelhante ao de 2022. Foram 18, ante 19 na última eleição.

São elas: Açucena (PT-ES), Amanda Gentil (PP-MA), Ana Elisa (PT-MG), Ana Júlia (PT-PR), Bella Carmelo (PL-CE), Chiara Biondini (PL-MG), Cibele Moura (MDB-AL), Duda Hidalgo (PT-SP), Eduarda Campopiano (PL-SP), Estefane Sampaio (Republicanos-DF), Gabi Gonçalves (MDB-AL), Julia de Castro (PL-RJ), Maria Clara Marra (PSDB-MG), Marília Amaral (PL-MG), Natália do Júnior Garimpeiro (União-MA), Paloma Nunes (PSB-CE), Paula Prata (PSD-MA) e Teca Nelma (PT-AL).

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Conforme a categorização feita pelo levantamento, sete são de direita (dos partidos PP, MDB, Republicanos, PSD e PSDB), cinco são de extrema-direita (PL) e seis são de esquerda (PSB e PT).

Assim, as eleitas são majoritariamente de direita — mas ocupam proporção menor dentro de seus respectivos campos ideológicos. As jovens de direita e extrema-direita eleitas são 25,9% e 27,8% do total de jovens eleitos de direita e extrema-direita, enquanto as jovens de esquerda representam 42,9% dos jovens de esquerda eleitos.

Mesmas redes, estratégias diferentes

Entre as 10 jovens que receberam maiores financiamentos de campanha, apenas duas se elegeram, ambas como deputadas federais: Amanda Gentil (PP-MA), que chegou a R$ 3,2 milhões em receita total, e Ana Júlia (PT-PR), que contou com R$ 3 milhões.

Ou seja, ter mais acesso a recursos não necessariamente significa ter melhor desempenho nas urnas.

Por outro lado, todas as jovens eleitas usaram as redes sociais como ferramenta de campanha, o que reforça a importância cada vez maior dessas plataformas para se chegar aos eleitores.

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As estratégias, entretanto, variaram, como constatou o monitoramento digital feito pelos pesquisadores das candidaturas de 251 mulheres jovens dos três campos ideológicos entre 16 de agosto e 4 de outubro no Instagram, X, TikTok, Facebook e YouTube.

Na comparação das palavras e temas utilizados pelas campanhas, as jovens de extrema-direita usaram com maior frequência uma retórica de confronto, focando, por exemplo, em polêmicas em torno dos conflitos entre poderes em Brasília, da segurança pública e de questões relacionadas a valores e costumes.

"A candidatura é apresentada menos por meio de uma biografia individual e mais pela capacidade de tomar posição, identificar responsáveis e demarcar aliados e adversários diante de uma audiência previamente mobilizada por essas controvérsias", aponta o relatório.

Há muito conteúdo produzido a partir de entrevistas de rua, montagens e reações a declarações de adversários.

Em cortes nas redes, Campopiano compartilha momentos em que confronta pessoas que têm opiniões diferentes das suas. No post acima, a discussão é sobre se cristão pode ser a favor do aborto.
Foto: Reprodução/Instagram / BBC News Brasil

É o que se verifica, por exemplo, nas redes de Eduarda Campopiano, que coleciona no perfil diversos cortes de embates verbais com pessoas de esquerda e se define na bio do Instagram como "a maior inimiga das feministas de SP".

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Entre os temas mobilizados por ela, além do antifeminismo, estão a defesa da criminalização do aborto e críticas a pautas progressistas e ao Supremo Tribunal Federal (STF).

As jovens de direita, por outro lado, focaram mais em suas trajetórias pessoais, religiosas e profissionaqis e deram preferência a um vocabulário mais associadas ao cuidado, ao propósito e à proximidade.

"A política é apresentada como desdobramento de uma história de vida e de vínculos estabelecidos com públicos específicos, mais do que como ruptura com a atuação que já desenvolviam nas plataformas", afirma o relatório.

'Castrar é cuidar', diz o post de Cibele Moura (MDB-AL) sobre a política de castração de animais em Alagoas com a cachorra e a filha
Foto: Reprodução/Instagram / BBC News Brasil

Candidatas de esquerda, por sua vez, utilizaram com mais frequência palavras mais relacionadas a direitos, ao trabalho e à mobilização coletiva, com uma abordagem também menos centrada no embate e mais em comunicar a ligação das candidaturas com formas coletivas de representação ou com causas mais amplas.

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Ana Elisa, por exemplo, fez conteúdos criticando adversários, mas investiu principalmente na produção de conteúdos explicativos sobre política e questões jurídicas.

Entre os principais temas que ela mobilizou na campanha estão a redução de desigualdades, o trabalho digno, direitos das mulheres e o endosso à medida do governo federal que baniu as empresas de apostas online.

'Cada direito conquistado pelas mulheres foi fruto de muita luta, resistência e organização. Nada nos foi dado', diz o post de Ana Elisa durante a campanha
Foto: Reprodução/Instagram / BBC News Brasil

Beatriz Besen, coordenadora do projeto, chama atenção para o fato de que, apesar das diferenças, as candidatas dos três campos políticos muitas vezes usaram as mesmas palavras, inclusive as jovens de direita e esquerda.

Saúde, escuta, acolhimento, comunidade, esperança e sonhos apareceram de maneira relevante e em proporções semelhantes nos dois campos, ainda que tenham sido menos disseminados na extrema-direita.

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"Isso sugere que, apesar das diferenças ideológicas, existe um repertório compartilhado de atenção às necessidades das pessoas e de expectativas sobre o futuro", ressalta ela, que é pós-doutoranda no Núcleo de Pesquisa em Psicologia Política e Movimentos Sociais (NUPMOS-PUCSP).

Mulheres de extrema-direita e esquerda compartilharam o uso de termos relacionados à política nacional, como "Lula", "presidente" e "partido", mas aí usados com sinais opostos - um lado para apoiar e o outro, para atacar.

Já entre as mulheres de direita e extrema-direita, a principal referência compartilhada foi a Deus.

A identidade religiosa foi expressada entre 8 das 12 jovens eleitas nas direitas, com preponderância da fé católica, mencionada pelas candidatas Amanda Gentil (PP-MA), Chiara Biondini (PL-MG), Eduarda Campopiano (PL-SP), Marília Amaral (PL-MG) e Julia de Castro (PL-RJ).

Das curtidas aos votos

Eduarda Campopiano foi a que recebeu maior volume de interações nas redes sociais e de votos, mas essa relação não é uma regra. O relatório deixa claro que engajamento não é sinônimo de sucesso na urna.

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Julia de Castro, por exemplo, teve a segunda maior média de interações por publicação, mas ocupou a oitava posição na votação, enquanto Ana Elisa alcançou a segunda maior com uma média de repercussão mais baixa.

Comparando Ana Elisa e Campopiano, o relatório aponta que a última postou menos e engajou mais: olhando para o Instagram, foram 37 publicações durante a campanha com 3,25 milhões de interações contra 107 posts de Ana Elise com 1,02 milhões de interações.

Olhando para o crescimento do perfil, contudo, Ana Elisa cresceu mais. Foram 109,5 mil novos seguidores durante a campanha, além de outros 273,8 mil nos dias 4 e 5 de outubro; Campopiano, por sua vez, expandiu em 85,1 mil seus seguidores na campanha, ganhando outros 138 mil logo após o primeiro turno.

Além disso, as redes são importantes, mas elas não funcionam sozinhas, destaca Beatriz Besen.

Em paralelo, as forças mais tradicionais que influenciam no grau de acesso dos jovens à política institucional continuam atuando.

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Isso fica claro quando se olha para as conexões políticas das jovens eleitas, também detalhadas no relatório.

Das 18, pelo menos 10 têm vínculos familiares com lideranças políticas.

Gabi Gonçalves (MDB-AL) é filha do ex-prefeito de Rio Largo Gilberto Gonçalves e da ex-vice-prefeita Cristina Gonçalves
Foto: Reprodução/Instagram / BBC News Brasil

Cibele Moura (MDB-AL) é filha de lideranças políticas municipais em Alagoas e bisneta do ex-deputado federal Abrahão Moura.

Gabi Gonçalves (MDB-AL) é filha do ex-prefeito de Rio Largo Gilberto Gonçalves e da ex-vice-prefeita Cristina Gonçalves.

Teca Nelma (PT-AL) é filha da ex-deputada federal Tereza Nelma e Amanda Gentil (PP-MA) é filha de Fábio Gentil, ex-prefeito de Caxias.

Chiara Biondini (PL-MG) é filha do deputado federal Eros Biondini (PL-MG) e Maria Clara Marra (PSDB-MG) é filha de Deiró Marra, ex-deputado estadual e ex-prefeito de Patrocínio.

Já Bella Carmelo (PL-CE) é esposa de Carmelo Neto (PL-CE), eleito deputado federal depois de exercer mandato na Assembleia Legislativa do Ceará.

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Paloma Nunes (PSB-CE) era primeira-dama de Tianguá e é esposa do prefeito Alex Nunes (Republicanos-CE).

Marília Amaral (PL-MG) é esposa do deputado federal Junio Amaral (PL-MG).

Natália do Júnior Garimpeiro (União-MA), por sua vez, mantém relação conjugal com Júnior Garimpeiro (União-MA), prefeito de Centro Novo do Maranhão.

E 11 já exerciam mandato, o que significa que já haviam construído experiência, visibilidade e bases eleitorais em outros cargos.

Cinco foram reeleitas - Cibele Moura (MDB-AL), Gabi Gonçalves (MDB-AL), Amanda Gentil (PP-MA), Chiara Biondini (PL-MG) e Maria Clara Marra (PSDB-MG) - e outras seis foram eleitas para um cargo diferente - Teca Nelma (PT-AL), Bella Carmelo (PL-CE), Açucena (PT-ES), Ana Júlia (PT-PR), Duda Hidalgo (PT-SP) e Eduarda Campopiano (PL-SP).

Campanha de Lula se reuniu com jovens eleitos após primeiro turno para tentar fortalecer sua estratégia digital
Foto: Reprodução/Instagram / BBC News Brasil

A batalha das redes

A análise das campanhas digitais de mulheres jovens evoca uma reflexão mais ampla sobre o uso das redes sociais pelos diferentes campos ideológicos.

No decorrer da última década se consolidou a avaliação de que a direita foi a primeira a usar as ferramentas digitais como alavanca eleitoral, no Brasil e internacionalmente.

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Desde a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 com uma campanha construída com memes e cortes que se encaixam na lógica do algoritmo, que privilegia conteúdos que despertam emoções fortes, há um debate sobre o desempenho modesto da esquerda nessa nova arena da disputa política.

Olhando para as eleições de 2026, Beatriz Besen avalia que a direita segue à frente.

Ela aponta que, enquanto a extrema-direita testou nomes com potencial de crescimento digital nas últimas eleições municipais, aprendeu com os resultados e conseguiu amplificá-los neste ano, a esquerda apostou pouco em nomes estreantes e segue buscando uma fórmula para navegar nesse universo.

Em um vídeo publicado após o primeiro turno, Ana Elisa tocou nesse assunto. Compartilhando a lista dos 10 deputados e deputadas federais mais bem votados nesta eleição, ela ressaltou que o ponto em comum entre todas elas era justamente a rede social

"Essas pessoas aqui não são analógicas", afirmou, emendando que chegou a ser boicotada por setores da própria esquerda durante a campanha, que, na sua experiência, tratou a rede social como "demérito".

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"Eu poderia ter feito muito mais, se eu não tivesse que estar perdendo tempo provando que rede social elege, porque eu tinha que ao mesmo tempo que fazer campanha e ficar provando pro próprio campo que rede social é importante", disse Ana Elisa.

Besen acrescenta que, apesar das dificuldades, a esquerda teve experiências digitais interessantes nesta eleição, considerando também uma faixa expandida de candidatas jovens até os 34 anos, "que mostraram que mesmo não adotando o vocabulário e a retórica da extrema-direita, ainda assim é possível usar estratégias de engajamento e formatos que aproximam [os eleitores] para fortalecer as campanhas".

A pesquisadora ressalta que, apesar do caminho menos focado no embate traçado por algumas candidaturas, o algoritmo segue privilegiando temas polêmicos e a mobilização de afetos — e a estratégia de confronto foi usada em algumas campanhas jovens da esquerda, principalmente de homens, a exemplo de Pedro Rousseff (PT-MG), de 26 anos, eleito deputado federal, e Leonardo Grandini (PT-SP), de 24 anos, e Guilherme Cortez (PSOL-SP), de 28 anos, ambos eleitos deputados estaduais.

Rousseff e Cortez estão entre os jovens políticos eleitos com forte presença digital que foram a Brasília logo após o primeiro turno se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tentar fortalecer sua campanha nas redes. Entre as jovens eleitas estiveram Ana Elisa e Ana Júlia.

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