A imprensa francesa destaca que a crise da esquerda reflete mudanças culturais na América Latina, como o avanço evangélico e o individualismo, enfraquecendo projetos coletivos enquanto o bolsonarismo mantém forte apelo popular. Esse cenário impulsiona o discurso de segurança pública e a eleição recorde de policiais, embora especialistas alertem para o colapso prisional. Paralelamente, disputas religiosas mobilizam católicos e evangélicos, tornando a fé um fator decisivo no pleito.
Em entrevista ao diário Libération, o cientista político brasileiro Miguel Lago afirma que a crise da esquerda na América Latina, e especialmente no Brasil, não pode ser explicada apenas por fatores econômicos ou pelo desgaste dos governos. Segundo ele, o fenômeno está ligado a mudanças culturais profundas, marcadas pelo avanço do individualismo, das igrejas evangélicas, das redes sociais e de narrativas meritocráticas que enfraquecem a identificação da população com projetos políticos coletivos.
Para Lago, o bolsonarismo permanece uma força popular de grande alcance e não apenas um movimento apoiado pelas elites. Muitos eleitores associam autoridade e firmeza à capacidade de governar, o que garante a eficácia do discurso da direita sobre segurança pública.
Já o campo progressista enfrenta dificuldades para renovar suas lideranças. Na avaliação do cientista político, o PT segue dependente de Luiz Inácio Lula da Silva e não conseguiu construir sucessores capazes de representar o período pós-Lula.
Segurança em alta
A questão da segurança também aparece em destaque em reportagem do jornal Le Monde. Segundo o diário, mais de 1,2 mil policiais disputam cargos legislativos e executivos estaduais nas eleições de 4 de outubro, refletindo a crescente influência política das forças de segurança.
Especialistas ouvidos pelo jornal apontam que esse movimento ganhou força em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro. Naquele ano, 43 policiais foram eleitos para o Congresso Nacional. Em 2022, esse número chegou a 51 parlamentares, e a expectativa é de nova expansão neste pleito.
Para Le Monde, o avanço dessas candidaturas é impulsionado pela preocupação crescente da população com a violência e pela força do discurso de "lei e ordem". Ao mesmo tempo, pesquisadores e organizações de direitos humanos alertam que propostas como a flexibilização do acesso às armas, o endurecimento das penas e a ampliação dos poderes policiais podem agravar problemas estruturais da segurança pública. Segundo esses especialistas, o sistema prisional brasileiro continua funcionando como espaço de recrutamento para facções criminosas, enquanto a superlotação carcerária e a ausência do Estado fortalecem grupos como o PCC e o Comando Vermelho.
Importância do voto dos católicos
Já o jornal católico La Croix analisa a polêmica envolvendo uma fake news que atribuía ao candidato Flávio Bolsonaro a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Embora a informação tenha sido desmentida, o episódio se transformou em um dos principais temas da reta final da campanha.
Na avaliação do jornal, o caso revela a importância crescente da religião na política brasileira e a disputa entre os candidatos pelo eleitorado católico e evangélico. Em uma eleição considerada equilibrada, controvérsias envolvendo símbolos religiosos podem influenciar o comportamento dos eleitores e reforçar uma divisão que, segundo os analistas ouvidos pelo jornal, se torna cada vez mais visível entre católicos e evangélicos no país.