Na manhã do dia 13 de março, Santa Cruz de la Sierra acordou em alvoroço com a prisão de um dos traficantes mais procurados da América Latina.
Tratava-se de Sebastián Marset, líder do chamado Primeiro Cartel Uruguaio (PCU), capturado enquanto dormia em sua casa na capital de Santa Cruz, considerada a cidade mais rica e elitizada da Bolívia.
Marset havia deixado Montevidéu, no Uruguai, em 2018 e, após passar pelo Paraguai e por Dubai, refugiou-se na Bolívia.
Durante o período em que viveu no país, chegou a usar uma identidade brasileira falsa para jogar na liga de futebol de Santa Cruz e cultivou vínculos com grupos criminosos poderosos como o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Em um vídeo publicado em suas redes sociais em outubro de 2025, ele apareceu fortemente armado ao lado de um grupo de pessoas encapuzadas e um símbolo do PCC, afirmando que estavam "preparados para fazer guerra com quem fosse".
Extraditado aos Estados Unidos — onde é investigado por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro — no mesmo dia em que foi preso, Marset não foi o único alvo das autoridades policiais.
Dias após sua captura, o governo boliviano informou que cinco colombianos e dois equatorianos também foram detidos em Santa Cruz durante uma operação para desarticular organizações criminosas.
As prisões recentes refletem um padrão que tem consolidado a cidade como refúgio de lideranças do crime organizado, inclusive de facções brasileiras.
Em maio do ano passado, Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, foi preso durante uma operação conjunta das autoridades bolivianas e da Polícia Federal. Ele foi identificado após tentar renovar sua identidade usando um documento falso.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, Tuta era um dos principais coordenadores de um esquema internacional de lavagem de dinheiro vinculado ao PCC e estava na lista vermelha da Interpol, a Organização Internacional de Polícia Criminal.
O Ministério Público acredita que outros integrantes da facção, que estão foragidos, possam estar escondidos na Bolívia.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que Santa Cruz se tornou um "hub logístico e financeiro para o tráfico", ao concentrar localização estratégica e infraestrutura que facilitam a atuação do crime organizado.
"É um local que dá condições operativas para esses grupos se fixarem e estabelecerem seus negócios", diz Rodrigo Chagas, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O vice-ministro de Substâncias Controladas da Bolívia, Ernesto Justiniano, reconhece que Santa Cruz de la Sierra ocupa uma posição estratégica nas rotas do tráfico de drogas, mas afirma que o problema não é exclusivo de seu país, e sim de uma "rede criminosa que opera em diferentes lugares".
O caminho da coca
Localizada fora do altiplano, Santa Cruz de la Sierra fica nas áreas mais baixas do país, com extensas planícies que favorecem o cultivo de grãos como soja e trigo.
Essa região não se destaca pelo cultivo de coca devido ao clima mais seco em comparação com as duas principais áreas produtoras do país: as Yungas de La Paz e o Chapare, em Cochabamba.
No entanto, o plantio ocorre de forma limitada na cidade de Yapacaní, na província de Ichilo, próxima à fronteira com Cochabamba, segundo o relatório Territórios da Coca e da Cocaína, publicado em outubro pela Universidade Internacional da Flórida.
Embora a folha de coca de Yungas de La Paz seja usada principalmente para o "acullico", um consumo cultural legal em várias regiões, a proveniente do Chapare e de Ichilo, mais resistente, geralmente entra na cadeia de produção de drogas que abastece o tráfico.
A importância desse cultivo ajuda a explicar como Evo Morales, que ainda lidera o sindicato dos produtores de coca do Chapare, chegou à Presidência com o lema "Coca sim, cocaína não".
Apesar de Santa Cruz não ter grandes extensões de terra dedicadas ao cultivo da planta, especialistas afirmam que houve um transição na região, de um processamento pequeno de coca para a produção de cocaína.
"As folhas chegam do Chapare, são processadas em fábricas de cocaína em Yapacaní e, a partir daí, enviadas de avião aos países vizinhos", explica o professor boliviano Eduardo Gamarra, da Universidade Internacional da Flórida, que é autor do relatório.
O documento, publicado em parceria com o Comando Sul dos Estados Unidos, aponta que o processamento da droga tem se deslocado progressivamente das zonas tropicais do Chapare para áreas rurais da fronteira de Santa Cruz.
As autoridades bolivianas já haviam observado em 2019 que Yapacaní tinha se tornado "uma base para refinar a pasta de coca do Chapare e convertê-la em cloridrato de cocaína", acrescenta Gamarra.
De qualquer forma, a Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) constatou que os cultivos de coca em Santa Cruz representam apenas 0,5% do total das áreas cultivadas no Trópico de Cochabamba.
Além disso, houve uma redução de 71% da superfície cultivada em comparação com o ano anterior. Esse número contrasta com a tendência nacional, que registrou um aumento de 10% no cultivo de coca no ano passado, atingindo 34.000 hectares.
"A quantidade de hectares cultivados disparou nos últimos anos no país", afirma o vice-ministro de Substâncias Controladas da Bolívia, ressaltando, contudo, que Santa Cruz não é conhecida pela produção da planta.
Mas qual é o papel de Santa Cruz na rota do tráfico, afinal?
Distribuição e comercialização
A cerca de três horas de carro de Yapacaní, na moderna capital de Santa Cruz, encontra-se o principal mercado de folhas de coca do país.
Segundo o último relatório Monitoramento de Cultivos de Coca — elaborado com suporte técnico do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e publicado em dezembro do ano passado —, Santa Cruz concentra 37% da folha comercializada na Bolívia, tornando-se o principal destino para a venda dessa planta, embora grande parte do comércio não ocorra pelo mercado legal.
De toda forma, o negócio não se limita à folha, mas também inclui a venda do alcaloide derivado da planta.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC, há alguns anos a Bolívia recebe a pasta base produzida no Peru e a transforma em cloridrato de cocaína em seus laboratórios. A cocaína que sai do Trópico de Cochabamba em pequenas aeronaves chega a hangares em Santa Cruz e, de lá, é transportada para o Paraguai, para a Argentina ou para o Brasil, tendo e Europa como destino final.
"Hoje foi Sebastián Marset, mas amanhã pode ser outra pessoa a se aproveitar desse 'caldo' de cocaína feito com coca ilegal produzida em nosso país", afirma o vice-ministro.
Segundo o último relatório da ONU, as apreensões de pasta base de cocaína aumentaram 73% em relação ao ano anterior na Bolívia, enquanto as de cloridrato de cocaína subiram 115%.
Refúgio do PCC
Mas o que tem levado líderes de organizações criminosas de outros países a se estabelecer em Santa Cruz?
Os analistas concordam que, em primeiro lugar, isso se deve à localização estratégica da região.
O leste boliviano compartilha uma extensa fronteira com o Brasil e o Paraguai e, embora não tenha saída para o mar, possui acesso a rios que conectam o país aos vizinhos.
"Santa Cruz ocupa territorialmente uma posição privilegiada do ponto de vista logístico do tráfico, por sua proximidade com o Brasil — que abriga um dos principais portos, o de Santos — e com a hidrovia Paraguai-Paraná, por onde a cocaína é exportada para a Europa", diz Gabriela Reyes Rodas, especialista boliviana em tráfico de drogas e comércio ilícito.
O pesquisador Rodrigo Chagas aponta que essa posição está diretamente ligada à estrutura logística necessária para o funcionamento do tráfico em escala internacional.
"É chave para grupos como o PCC terem acesso a portos, aeroportos e rotas de escoamento. Estamos falando de toneladas de droga e de dinheiro. A logística é central — como movimentar, ocultar, dar aparência legal a essas operações", ele afirma.
O fenômeno também está ligado ao crescimento econômico exponencial de Santa Cruz, impulsionado por investimentos privados de grandes empresários do país, que movimentam o setor imobiliário.
"É um lugar muito fácil para ocultar lavagem de dinheiro. Ele pode se misturar a investimentos legais em comércios e imóveis", acrescenta Reyes.
Nesse sentido, o Grupo de Ação Financeira (GAFI) — organismo internacional de combate à lavagem de dinheiro — incluiu a Bolívia, em meados do ano passado, na lista de países com "deficiências estratégicas" no enfrentamento dessa atividade.
Os especialistas também analisam o papel desempenhado pelo Judiciário no país. "A operação para capturar Marset foi realizada sem a participação da Justiça. Isso explica a desconfiança que pode existir em relação a um setor da polícia e ao que resta do Judiciário na Bolívia", argumenta Gamarra.
Em 2023, Sebastián Marset já havia conseguido escapar de uma tentativa de prisão. Em entrevista à televisão uruguaia naquele mesmo ano, ele admitiu que foi avisado sobre a operação para prendê-lo.
"Eles me avisaram, sim. Fiz as malas com minhas roupas, as roupas das crianças e fui embora", disse Marset ao Canal 4 do Uruguai.
Reyes pontua que na captura deste ano, por exemplo, não participaram nem a Procuradoria-Geral nem qualquer outro órgão da Justiça, pois "existiam suspeitas de que informações sobre a operação poderiam vazar".
Por que a Bolívia atrai facções
A facilidade de subornar autoridades e viver com documentos falsos é apontada pelo promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco), como um dos motivos que levam integrantes do PCC a se esconder na Bolívia.
Em entrevista ao G1 em maio de 2025, logo após a prisão de Tuta, Gakiya afirmou que os faccionados têm "grande facilidade para ir e vir" no país, sem serem incomodados.
"O PCC domina a Bolívia. Nos anos 1990 e 2000, eles se escondiam no Paraguai, depois migraram para a Bolívia por essa facilidade de viver com documento falso, contando com a corrupção de policiais e autoridades locais", disse o promotor, que há duas décadas investiga o PCC.
Há indícios, inclusive, da formação de um núcleo da chamada Sintonia Final do PCC em Santa Cruz de la Sierra, com objetivo de fortalecer, manter e expandir o tráfico de drogas, segundo as investigações.
"A Bolívia é o principal fornecedor de cocaína para o PCC. Os integrantes da facção têm contatos próximos com criminosos de lá", disse Chagas. "Estão próximos das áreas produtoras de cocaína e, ao mesmo tempo, em um espaço mais seguro em relação à Justiça, fora do alcance das autoridades de outros países."
Combate ao crime organizado
"Graças ao novo governo, a Bolívia deixou de ser um refúgio para criminosos." A declaração é do subsecretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, após a captura de Sebastián Marset.
O novo governo mencionado por Landau é liderado pelo conservador Rodrigo Paz, que foi eleito presidente em novembro do ano passado, marcando o fim da esquerda na Bolívia.
Entre as principais medidas adotadas para combater o tráfico, o presidente boliviano reatou os vínculos com a Administração de Repressão às Drogas (DEA, na sigla em inglês) e outras agências dos Estados Unidos, após 17 anos sem atuação no país.
Além disso, no dia 7 de março, a Bolívia formalizou sua entrada no chamado "Escudo das Américas", uma estratégia de segurança para a América Latina promovida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Soma-se a isso um acordo assinado recentemente com o Brasil para intensificar a cooperação contra o crime organizado por meio do intercâmbio de informações e inteligência.
A falta de cooperação internacional sempre foi um dos principais motivos de crítica do promotor Lincoln Gakiya.
A posição incômoda que a Bolívia — e especialmente Santa Cruz de la Sierra — ocupa nas rotas do tráfico é justamente o que o governo busca combater com operações como a que levou à captura de Marset.
Segundo o vice-ministro de Substâncias Controladas da Bolívia, o objetivo é enviar uma mensagem clara de que a Bolívia não é mais "território para o tráfico".
"Se chegarem à Bolívia, não vão mais encontrar um país isolado, mas sim um país inserido no mundo, que não permitirá que as organizações do tráfico se estabeleçam", afirmou Justiniano à BBC.
Resta saber qual será o impacto dessa mensagem nas lideranças dessas organizações que continuam operando da Bolívia.
Mapa e gráficos por Laís Alegretti e Caroline Souza, da equipe de jornalismo visual da BBC News Mundo.