Com geração máxima concentrada em poucos meses, a maior hidrelétrica da Amazônia altera o fluxo do rio, deixa indígenas e ribeirinhos entre a perda de peixes, de território e de futuro.É fim da época de chuvas na Amazônia. Neste fim de abril, o rio Xingu garante reservatório farto para a hidrelétrica Belo Monte movimentar as 18 turbinas de sua maior casa de força. Nos próximos meses, uma redução radical da operação é forçada por conta da estação seca: com menos água disponível, menos vazão para a geração de energia.
O risco foi calculado, garante Sandro Deivis, gerente de operações desde 2020 na usina da concessionária Norte Energia. Orçada em R$ 19 bilhões mas com um custo final superior a R$ 30 bilhões, a hidrelétrica inaugurada em 2016 em Altamira, no Pará, gera eletricidade praticamente em apenas seis meses do ano.
No momento mais crítico da seca registrada na Amazônia em 2024, quase tudo parou - uma turbina era acionada por quatro horas, confirma Deivis à DW, na sala central de comando. Se Belo Monte funcionasse sempre com carga máxima, 11,2 mil megawatts, poderia suprir 14% do consumo nacional. Na prática, sua média anual de 4,5 mil megawatts de geração responde a 6% da demanda.
Em vez de um grande reservatório como previsto nos estudos iniciais de viabilidade, na década de 1980, o projeto executado barrou parte do fluxo do Xingu e construiu canais artificiais. Por eles, cerca de até 70% do volume do rio vão diretamente para as turbinas. A água que sobra segue o antigo curso natural do rio.
"É uma usina a fio d'água. Ela opera conforme o regime do rio", pontua Deivis à DW. "No primeiro semestre, somos a usina que mais gera no Brasil. No segundo semestre, conforme o projeto foi concebido, a gente gera pouco", explica.
A água do Xingu "corta caminho" direto para as turbinas e depois retorna para o rio num trecho mais abaixo. O que fica para trás, literalmente no meio do empreendimento, é a Volta Grande do Xingu. Esta área de até 5 mil quilômetros quadrados, onde o rio de antes fazia uma curva, é habitada por povos indígenas e ribeirinhos.
Celebrado pela Norte Energia como uma obra-prima da engenharia, Belo Monte mudou a vida de muitos que vivem nas margens da Volta Grande. Os relatos ouvidos pela DW são de seca incomum, falta de peixes e perda de um lar.
Sem água no rio
A Terra Indigena Trincheira-Bacajá é uma das mais próximas à usina. A partir de 2016, ela sofreu com a chegada de invasores e uma explosão de desmatamento: a taxa saiu de praticamente zero para 35 quilômetros quadrados em 2021, mostram dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). E não foi só isso que mudou.
"Quando não tinha Belo Monte, a gente navegava pelo rio até Altamira. Agora ele secou, tem pouca água. Quando chega o verão [a época seca na Amazônia], a água fica parada, não corre, cria lodo, fica suja e quente", narra à DW Ngrenhkarati Xikrin. Ela é uma das fundadoras do Movimento de Mulheres Indígenas do Médio Xingu, articulado depois de elas perceberem os impactos duradouros da hidrelétrica. Agora, tentam impedir novos empreendimentos do tipo, como o projeto de extração de ouro da canadense Belo Sun.
O cenário descrito por Ngrenhkarati não pegou Felício Pontes de surpresa. O procurador regional da República foi autor das primeiras ações movidas pelo Ministério Público Federal (MPF) contra Belo Monte, ainda em 2001, alegando falhas no projeto.
"Infelizmente, nós tínhamos razão", afirma o procurador à DW. "Nós tínhamos avisado, por exemplo, que os Xikrin ficariam sem o rio. Hoje são poças de água no leito, não tem água, acabou o contato fluvial que eles tinham", lamenta.
A vida se confundiu
O povo Juruna da Terra Indígena Paquiçamba também mora há séculos na Volta Grande e permaneceu no território. Eles dizem que o barramento mudou drasticamente a vida no local, reclamam da pouca água liberada pela usina e dos seus efeitos preocupantes.
"Essa quantidade de água é controlada. E os peixes perderam a visão deles natural do rio. Não sabem mais o que é cheia, e o que é seca", explica Josiel Juruna.
Desconfiados dos resultados que a usina apresentava às comunidades para mostrar que estava tudo sob controle, os indígenas decidiram vigiar o que acontece no rio por conta própria. Em 2013 eles criaram o Monitoramento Ambiental Territorial Independente (MATI). Uma das primeiras descobertas foi o sumiço do peixe que chegava ao prato: a redução desta fonte de proteína foi de 70%.
Após mais de dez anos de pesquisa, o MATI concluiu que a mudança na vazão do Xingu está atrapalhando a reprodução das espécies. Há menos peixe no rio e, por isso, menos alimento e renda para os pescadores tradicionais. "Como o rio está com quantidade de água tão baixa, as ovas que os peixes colocam acabam ficando no seco e morrem por não ter água", conta Josiel.
Aos poucos, comunidades ribeirinhas vizinhas e universidades chegaram para reforçar o programa. Na manhã em que a DW visitou a aldeia, o grupo estava reunido e discutia novos protocolos para acompanhar e entender os impactos que se acumulam, como o descontrole das formigas, dos insetos e peixes, além de tartarugas mais magras. Esses animais antes se alimentavam de frutos que caiam na água e viravam alimento. Mas o solo seco alterou esta dinâmica.
Regra de operação questionada
O volume de água que escoa da barragem pelo curso natural do rio obedece a um hidrograma, uma espécie de regra de operação da usina. Ele define quanta água deve continuar fluindo para a Volta Grande do Xingu - mesmo com o desvio para geração de energia.
Apesar de a revisão do hidrograma estar em disputa na Justiça, a concessionária afirma que tudo está nos conformes. O Ministério Público alega que o atual volume liberado por Belo Monte é insuficiente e tem gerado danos socioambientais graves.
"O que eu tenho que garantir é o que a outorga pede para eu fazer. Eu não fabrico água. Solto o que está chegando. Estou obedecendo o que foi instituído no leilão pelo Estado brasileiro. Nunca menos", argumenta Deivis.
Bruno Bahiana, superintendente socioambiental da Norte Energia, diz que o monitoramento feito na região pela usina aponta que a desova dos peixes, também chamada de piracema, continua funcional. "Apesar das alterações, elas continuam resilientes. Não há uma ruptura ecológica. O que há é manutenção das condições naturais da Volta Grande do Xingu", defende.
Janice Cunha, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e parceira do monitoramento independente das comunidades locais, contesta. "Não pode ser que haja uma produção de energia a qualquer custo. O MATI tem sido enfático em seus relatórios técnicos, em seus artigos científicos do monitoramento que continua demonstrando que o hidrograma precisa ser revisto para não atingirmos um ponto de não retorno em relação à vida na Volta Grande do Xingu", pontua durante a reunião na aldeia Muratu.
A retomada do lar
Dentro do lago formado como reservatório de Belo Monte, a família de Leonardo Batista passa os dias com medo. Eles estão hoje numa parte seca que virou uma Área de Proteção Permanente após o alagamento, onde ninguém poderia residir.
Leonardo é ribeirinho e sempre morou às margens do Xingu. Quando a usina chegou, ele - e centenas de famílias - tiveram que sair. Na cidade, onde foi reassentado, não se adaptou e, por isso, voltou para o beiradão, como os locais chamam a margem onde habitavam.
"Onde me jogaram lá em Altamira ficava a 4 quilômetros do rio. A gente não tinha transporte. Era R$ 80 para levar a gente pra lá e pra cá. A gente não tem ganho. Tudo o que eu sei deixei aqui, que é pescar, colocar roça, fazer farinha", conta.
Como Leonardo, 322 famílias ainda lutam para retornar a um local semelhante onde viviam antes de Belo Monte. Uma briga da qual Josefa da Silva, do Conselho Ribeirinho, participa há uma década. Depois de anos de negociação com a concessionária e de processos na Justiça, o grupo aguarda a compra de terras pela usina.
"É claro que sabemos que isso não vai acontecer porque o beiradão de antes não é o beiradão de hoje", afirma Josefa. "O tempo e a burocracia pesam nas nossas costas. Já perdemos muitas famílias esperando isso", complementa, referindo-se ao projeto de mitigação chamado de Território Ribeirinho, em processo de aquisição pela concessionária.
A Norte Energia diz ter reassentado 3.850 famílias em Altamira. Muitas se mudaram para bairros construídos pela concessionária, outras preferiram uma indenização para compra de imóveis em outras localidades. Existem ainda casas que foram construídas pela concessionária e que estão em estado de abandono, como no reassentamento Tavaquara.
"Rio paralítico"
Antônia Melo viu de perto o desenrolar do caso. Ela é uma referência na defesa dos direitos dos atingidos e da conservação da Amazônia desde a década de 1980. "Essa é uma grande tragédia: o rio não tem mais peixe. Então a fome veio. Falta dinheiro para se sustentar. Essas famílias pagam muito caro pela energia", lamenta, lembrando que o Pará tem a maior tarifa residencial do país, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
"Não vemos o que foi este desenvolvimento tão alardeado pelos políticos e por pessoas que apoiam esse modelo desenvolvimentista", critica Antônia, citando ainda o aumento da violência e a intensificação do crime organizado na região.
A falta de peixes é testemunhada por Leonardo. Nas margens do lago, ele abre as caixas de isopor e mostra o que conseguiu pescar. "Na verdade, o nosso rio está paralítico. Ele está vivo na parte de cima, na parte de baixo, e aqui está neutro. Peixe tem muito pouco", diz.
Há nove anos, a DW visitou aquela mesma região que havia sido coberta por água. Naquela ocasião, Maria Francineide dos Santos, pescadora e ribeirinha, mostrou à reportagem as árvores recém-inundadas. "Chamam isso de paliteiro, eu chamo de cemitério", diz, de volta ao mesmo lugar.
Integrante do Conselho Ribeirinho, Maria Francineide tem esperança de que todas as 322 famílias um dia voltem para onde consideram lar. "Talvez nós, os anciãos das comunidades, não vamos estar mais aqui para ver isso. Talvez seja nossos filhos, netos. Mas esse lugar existe, ele vai sair do papel."